OPINIÃO

Um ranking das coisas que culpo pela derrota de Hillary Clinton

13/12/2016 18:45 -02 | Atualizado 13/12/2016 18:45 -02
Joshua Roberts / Reuters
Hillary Clinton speaks to the Children’s Defense Fund in Washington, U.S., November 16, 2016. REUTERS/Joshua Roberts

Eis minha resposta ao artigo da Slate "Então ainda estamos culpando Jill Stein e James Comey, hein?"

Esta é uma parcial lista de coisas que fizeram Hillary Clinton perder

1-199. Misoginia

É por isso que eles cantam "Bota ela na cadeia". É por que as pessoas não conseguem apontar com certeza o motivo, mas sabem que não gostam. É porque a veem como uma mulher irritante e durona e corrupta - falta um pouco de calor.

Ela não é tipo de pessoa que te dá vontade de levar para o bar para tomar uma cerveja. É porque, depois de uma verdadeira mudança de paradigma pop - de Lady Macbeth para Claire Underwood --, elas a veem como uma pessoa com sede de poder, disposta a fazer de tudo - até matar - para conseguir o que quer.

É por isso que a resposta de 2016 para a maioria das perguntas relacionadas à eleição é "É a misoginia, estúpido!"

200. Bernie Sanders

Sei que isso vai incomodar muita gente, mas que seja. Acho que Sanders, que reforçou a narrativa segundo a qual Hillary seria uma neoliberal corrupta e parte de um sistema viciado, casou mais danos que qualquer outra pessoa. Ele virou milhões de jovens contra Hillary - e incontáveis independentes, também.

Sim, no fim das contas ele fez campanha para Hillary, mas sem muita vontade, fazendo bico e de ombros caídos. Ele atacava Trump, mas raramente elogiava Hillary. Era quase possível enxergar a bolha de pensamento em cima da cabeça dele: "Deveria ter sido eu".

201. Noticias falsas

Como quase todo o resto desta lista, isso é parte da misoginia. Eis algumas das histórias sobre Hillary Clinton que circularam na internet durante a campanha - e nas quais as pessoas acreditaram.

. Ela tem mal de Parkinson ou esclerose múltipla e está escondendo.

. Ela tem uma dublê de corpo, que aparece em público quando ela está muito doente.

. Ela assassinou um funcionário do Partido Democrata, entre vários outros.

. Ela trocou "sinais" com o moderador Lester Holt durante um dos debates.

. Ela é chefe de uma quadrilha de pedófilos que opera em uma pizzaria de Washington. (E, como vimos esta semana, esse tipo de notícia falsa pode ter consequências reais)

E eu poderia continuar...

202. James Comey

Quando o diretor do FBI, James Comey, anunciou que não haveria acusações formais contra Hillary Clinton, ele o fez usando a linguagem mais dura possível. Sua declaração, que chamou Hillary de "extremamente descuidada", não tem precedentes. Mesmo assim, a campanha de Clinton aceitou a admoestação pública e o agradeceu, feliz porque o assunto ficaria para trás.

Ah, mas se fosse tão simples. Não contente em atacar a reputação da candidata, Comey esperou até 11 dias antes da eleição para anunciar que estava reabrindo o caso, investigando novos emails ligados a Anthony Weiner, um ex-deputado que foi acusado de trocar fotos explícitas com mulheres. (A parte que envolvia Weiner foi um toque especialmente prejudicial, lembrando as infidelidades de Bill Clinton.)

Enquanto a campanha de Trump comemorava - e os americanos ouviam a mensagem: esta é Clinton, uma mulher para sempre perseguida por escândalos --, um comunicado de imprensa foi divulgado às pressas no dia anterior à eleição, isentando Clinton (de novo!) de qualquer crime (os emails no servidor de Weiner eram cópias).

Foi a maior surpresa de novembro da história das surpresas de novembro, e ela jamais deveria ter acontecido.

203. Russia/Wikileaks

Adoro como todos estamos fingindo que a Rússia não tinha um candidato predileto na eleição - Trump - e não fez tudo o que era possível - hackear o Partido Democrata, hackear o chefe de campanha Paul Podesta, disseminar notícias falsas - para elegê-lo.

Enquanto não estávamos prestando atenção, a Rússia nos derrotou na guerra de informação.

204. A MÍDIA MAINSTREAM

No fim, ela aprendeu a chamar Trump de mentiroso, incompetente e corrupto, mas continuou agindo como se os emails de Hillary fossem igualmente importantes (a mídia passou três vezes mais tempo discutindo os emails que todas as propostas dela juntas), e continuou a deixar que os asseclas de Trump fizessem o que quisessem nas redes de TV a cabo, mentindo impunemente sobre Hillary. A mídia nos deixou na mão.

205. JILL STEIN

A burguesa louca por atenção deu uma opção de voto aos eleitores desencantados de Bernie e impulsionou a narrativa de que Hillary seria tão ruim quanto Trump.

Sim, isso importa, apesar dos artigos sarcásticos da Slate sugerindo o contrário.

205a. Você também está na minha lista, Susan Sarandon

206. Os quase 100 milhões que não votaram

Qual é o problema, gente?

207. Supressão de eleitores

Algumas pessoas queriam votar, mas não puderam. Sem as proteções da Lei do Direito ao Voto, os republicanos conseguiram suprimir votos em vários estados-chave.

208. A mensagem de Hillary

Bernie fez promessas: universidade gratuita! Trump fez promessas: construir o muro! Salvar empregos de americanos! Mas Hillary, uma especialista em políticas públicas que entende a natureza das melhorias incrementais, não foi capaz de lançar slogans. Não acho que ela deveria ter feito promessas vazias, necessariamente, mas talvez algumas palavras de efeito pudessem ter feito muita diferença.

208. A campanha de Hillary

Eles deveriam tê-la levado a comícios em Wisconsin. Eles deixaram cair a peteca.

209. Os apoiadores de Hillary

Fomos parar nos cantos da internet por vários motivos - especialmente por causa da misoginia. Mas deveríamos ter feito mais barulho, demonstrar nosso apoio em público, acabando com a narrativa de que não estávamos entusiasmados.

Eu apoiei Hillary publicamente. Mas, dito isso, não sei quantas vezes expressei minha devoção a Hillary - e minha raiva contra as injustas táticas anti-Hillary - em grupos fechados do Facebook, enquanto na verdade deveria estar gritando dos telhados.

Coisas que não culpo:

1. A própria Hillary

Ela venceu todos os debates. Ela apresentou planos bem pensados para seu governo. Ela se portou com dignidade e graciosidade, apesar da interminável onda de misoginia. Ela foi heroica.

2. Política de identidade

Porque, falando sério, f*da-se isso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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