OPINIÃO

O melhor da Copa do Mundo no Brasil não é o futebol. Ou, a minha experiência no jogo Argentina e Bósnia

17/06/2014 12:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Mauro Segura

E lá fui eu para o jogo Argentina e Bósnia.

A chegada no Maracanã é algo chocante. Um mar nas cores azul e branco. Tinha papa, general, gaúcho argentino, maradona, etc. Eram personagens para todos os lados... mas sempre azul e branco. Os argentinos adoram gritar, buzinar, qualquer coisa que faça barulho e que incomode. O importante é anunciar que chegaram. A verdade é que eles estão se sentindo em casa, fazendo o que bem entendem. Uma zona e tanto.

A minha experiência no jogo Argentina e Bósnia

Olhar para o mar de pessoas permite identificar três tipos de camisas: a da Argentina, a amarelinha do Brasil e a do Flamengo. Estas são as cores mais presentes do lado de fora e do lado de dentro do estádio. Chego na entrada do lado da estátua do Bellini e encontro um paredão de gente. Perto de mim, dois argentinos mostram aos guardas um papel velho, mal plastificado, amassado, dizendo que eram carentes e que não tinham dinheiro para comprar os tickets. Os guardas impassíveis parecem não entender o que é dito. Los hermanos choram, fazendo cena, dizendo que vieram de carona de Buenos Aires e que, como carentes, tinham direito de entrar no estádio: "por el amor de Dios". Enquanto isso, há cinco metros dali fica a entrada para o Hospitaly, acesso para aqueles que compraram ingressos caríssimos ou que foram agraciados com tickets dos patrocinadores. A fila é enorme para os convidados VIPs, maior que para os normais. A reclamação é geral. Paula Toller chega e fica encostada na fila do Hospitality, lamentado-se de ter que encarar a fila sem fim. Alguém diz: "se ela cantar pra mim eu dou a minha vaga na fila pra ela".

Entro na fila da entrada e encaro a guerra. Infelizmente aqui no Brasil a gente sempre tem a sensação de que algum malandro vai se encostar como quem não quer nada e furar a fila. Minutos depois vejo que alguns argentinos fazem exatamente isso, apareceram de repente dentro da fila, um pouco a frente de onde eu estava. Depois de mais de vinte minutos eu chego na entrada.

Passar pelo raio-x, pelo acesso controlado e pelos seguranças é uma sensação de liberdade. Parece que entramos no paraíso. O caos externo ao estádio dá lugar a um ambiente mais organizado, com pessoas felizes subindo as rampas de acesso como se tivessem conquistado algo. Agora nada mais me impede de assistir a um jogo de Copa do Mundo. O ambiente é colorido, pessoas agitadas e excitadas em entrar no anel do Maraca.

O Maraca não é mais o Maraca de antigamente, aquele que abocanhava duzentos mil torcedores transformando o estádio num verdadeiro caldeirão. No entanto, entrar no túnel de acesso e chegar ao anel interno ainda é uma experiência mágica, de tirar o fôlego. O estádio antigo era cinza, praticamente concreto. O novo Maraca é colorido, tem o gramado verde brilhante sob o reflexo dos potentes refletores.

Faltam trinta minutos para começar o jogo. Los hermanos dominam o ambiente. Achar o assento pode ser não ser uma boa experiência pois os números das cadeiras são muito claros e prejudica a leitura. É divertido ver as pessoas com os tickets nas mãos, circulando perdidas entre as fileiras de cadeiras procurando o seu lugar. Alguns sentem dificuldade e desistem de procurar. Sentam em qualquer lugar. Quando o jogo começar, muitas pessoas ainda estarão procurando seus lugares. É um "senta e levanta" imenso.

No hino da Argentina o estádio vem abaixo. Todos, sem exceção, têm nas mãos máquinas fotográficas, smartphones e gadgets diversos... fotografando, filmando e gravando o evento. É quase impossível ver o campo. No hino da Bósnia descubro que a maioria dos brasileiros estão com eles. Olê, olê, olê, olááá, Bosniáá, Bosniáá.

O jogo começa. Los hermanos estão enlouquecidos. O estádio ferve. Atrás de mim um grupo de brasileiros não pára de gritar falando mal do juiz e dos argentinos. No canto direito, vários torcedores vestem a camisa vermelha quadriculada da Croácia. Atrás, ainda do lado direito, um garoto toca sem parar uma corneta insuportável. Mas pode entrar com corneta? Na minha frente um grupo de árabes com bandeiras nas mãos. O que um grupo de árabes está fazendo no Maraca num jogo da Argentina e Bósnia? Acho que nem eles sabem direito. Um deles fica o tempo todo de pé subindo no assento da poltrona, em segundos leva uma vaia e um monte de tapa nas costas: "Sentaaaaaaaaaaaa". Isso vai se repetir durante todo o jogo.

Ver o jogo é a coisa menos importante. O zoológico a minha volta, a diversidade, é a atração principal. Um argentino exaltado na minha frente quer partir para briga com um brasileiro. A massa reage e dezenas de brasileiros querem brigar com o argentino. Ele sobe na cadeira e começa a bater no peito. A Argentina faz um gol. Seguranças entram e tiram o argentino enfurecido, que tem a cara pintada de azul e branco. Outro argentino comemora o gol, abre o celular e faz um selfie, com o dedo médio em riste mandando a mensagem para alguém. Ele usa a camisa oficial da Argentina e uma mochila com o escudo do Flamengo. O estádio ferve.

O cara atrás de mim pergunta para o amigo onde fica a Bósnia. O amigo responde que tem certeza que fica perto do Japão. O pai do garoto da corneta ensina o filho a falar Bósnia Herzegovina. Depois de três tentativas ele desiste e o garoto volta a tocar sua corneta. No lado direito um torcedor com a camisa do Flamengo está abraçado a um tricolor.

Termina o primeiro tempo. Todos se levantam e rola uma corrida para dentro do túnel. Os banheiros estão limpos, mas lotados. Filas se formam no corredor. Um torcedor reclama dizendo que os preços da comida dentro do estádio é padrão Fifa. A loja da Fifa está lotada, porém muita gente olhando e poucas comprando. As pessoas esperam pacientemente em suas filas. Quinze minutos é muito pouco tempo para enfrentar as filas.

O segundo tempo começa. Metade dos assentos ainda estão vazios. Ao longo de dez minutos as pessoas vão chegando. O jogo está morno e os torcedores argentinos estão mais quietos, até o garoto da corneta está mais calmo. A única vibração ocorre quando o locutor informa que são 74 mil pessoas presentes. O jogo, burocrático, parece se arrastar... até Messi pegar na bola, aos vinte minutos, entortar a defesa da Bósnia e fazer um golaço. O estádio vem abaixo. Argentinos, brasileiros e árabes vibram, não seguram o entusiasmo com o gol do Messi. Foi o suficiente para incendiar os hermanos que passam a gritar, cantar e dançar sem parar. Parece que estamos em Buenos Aires. O árabe sobe mais uma vez no assento e leva uma vaia. O brasileiro reclama do jogador da Bósnia que tropeçou sozinho com a bola: Onde esses caras aprenderam a jogar futebol? A Bósnia faz um gol. O estádio se cala não acreditando no que via. Como pode? Los hermanos voltam a ficar calados, apesar que uma possível reação da Bósnia é algo inimaginável. Não tem como acontecer, mas alguns brasileiros ainda acreditam. Olê, olê, olê, olááá, Bosniáá, Bosniáá.

O jogo chega ao final com ânimos mais calmos. O árbitro termina a partida, a torcida comemora, o garoto toca a corneta, o brasileiro gordo atrás de mim reclama do juiz e o argentino da frente está telefonando para alguém dizendo que este é o dia mais feliz da sua vida. A saída do estádio é animada. Quer saber? O melhor da Copa do Mundo no Brasil não é o futebol.

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