OPINIÃO

Caminhando no deserto urbano - o mês mais quente da história de São Paulo

10/02/2014 19:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
R7/Reprodução

Sabe o dia da marmota, naquele filme em que o cara acorda todos os dias no mesmo dia?

Tenho tido essa sensação. Acordo e é sempre o mesmo dia. Só que ao contrário do filme, é um dia muito, muito quente, que começa abafado, piora à tarde e quando parece que vai chover, as nuvens se dissolvem numa cor amarelo-acinzentada. Isso não impede que o repórter do rádio repita mecanicamente a cada boletim do tempo: "À tarde, deveremos ter aquelas tempestades típicas de verão".

Mas a cidade está viva nesses dias e é preciso ir a lugares, andar por aí, fazer coisas e ver as pessoas.

Vejo a moça com a indefectível mangueira jogando uma enxurrada de água para tirar uma folhinha da frente da sua calçada ladrilhada.

Vejo aquele grupo de colegas do escritório carregando seus pesados crachás e palitando os dentes após o almoço, arrastando os pés, como pingüins no Saara. Ouço a palavra "calor" várias vezes. Também ouço a palavra 'Corinthians" outras tantas.

Vejo mulheres com sombrinhas para se proteger do sol, mas não vejo nenhum homem com guarda-chuva, por que será?

Um homem magro tenta se proteger do sol na sombra fininha de um poste. Uma mulher não tão magra se esparrama num daqueles recém-inaugurados pontos de ônibus que servem de outdoor, mas que não protegem do sol, o que faz pensar que o arquiteto que os projetou deve estar agora num escritório numa torre de 40 andares com paredes de vidro e ar-condicionado ligado na temperatura glacial.

Pensando em temperaturas glaciais, resolvi ir a pé até o cinema um dia, garantir também o meu quinhão de condicionado. Tudo ia bem até o décimo quinto minuto, quando a energia caiu. O filme voltou, mas o ar-condicionado, não. Nas restantes duas horas e quarenta e cinco minutos, achei que Leonardo di Caprio chegou a sentir um pouco de calor na tela.

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Outro refúgio garantido deveria ser a mesa de bar na calçada. Que coisa melhor do que a promessa de uma cerveja gelada com um amigo num sábado à tarde depois de horas de caminhada? Ontem, a esperança só durou até a simpática garçonete informar: -- "Temos cervejas de muitos tipos, mas gelada mesmo, só S... em lata".

Mas existe um horário em que dá para caminhar sem tanto sofrimento. À noite.

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Voltando de um jantar com os meninos, resolvemos fazer a pé aqueles poucos quilômetros até em casa. Foi bom ver as pessoas despertas, apesar dos inacreditáveis 28 graus às 11 da noite. Todo mundo parecia ter tido a mesma ideia. Bares cheios, calçadas cheias, ruas cheias. Um grupinho de night-bikers. Um homem bem vestido e seu cachorro peludinho. Um skatista com uma perna mecânica.

Bem, é possível que esse longo dia acabe. Espero que a chuva volte, que a água não acabe, que o calor diminua, que cerveja gele e que possamos voltar a caminhar por aí sem sofrer tanto.

Enquanto isso, porém, talvez a gente devesse pensar numa cidade diferente e dar um forcinha: segurar as árvores que estão aí, plantar umas novas, questionar a ditadura do ar-condicionado nas imbecis torres de vidro de 40 andares e desligar aquela mangueira inútil.

Fotos: Arquivo Pessoal (termômetro e bar) e R7 (Sol em S.Paulo).