OPINIÃO

Um roteiro para entender as eleições presidenciais dos Estados Unidos

14/03/2016 11:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
RHONA WISE via Getty Images
Republican presidential candidate Donald Trump speaks at a rally on March 13, 2016 in Boca Raton, Florida. Primary voters head to the polls on March 15th in Florida. / AFP / RHONA WISE (Photo credit should read RHONA WISE/AFP/Getty Images)

No dia 1º de março ocorreu a "Super Terça" na qual 13 estados americanos tiveram suas primárias presidenciais, confirmando o favoritismo de Hilary Clinton entre os democratas e de Donald Trump nos republicanos - este último, o azarão da campanha de 2016, crescendo muito além das expectativas iniciais e, paradoxalmente, assustando o partido com sua popularidade elevada, ao ponto de dirigentes cogitarem até o lançamento de uma candidatura alternativa.

Mas como funciona o sistema de primárias? Como foi criado? Por que gera situações contraditórias como promover a ascensão de um político popular, mas rejeitado pela cúpula do próprio partido?

Desde o século XIX os candidatos à presidência dos Estados Unidos eram escolhidos nas convenções nacionais de cada partido. Os delegados que nela votavam representavam os núcleos partidários em cada estado.

Nesse processo, a influência de dirigentes locais como governadores, senadores e prefeitos era muito grande e com frequência o resultado era definido por acordos de bastidores e negociações que ocorriam fora do olhar do público.

Muitos líderes criticavam o sistema por achar que ele favorecia o clientelismo e a corrupção e que era preciso que fosse reformado para se tornar mais democrático e aberto à participação popular.

A partir da década de 1920, foram introduzidas as primárias, mas ainda de maneira precária: não eram nem obrigatórias, nem vinculantes. Os pré-candidatos não tinham que passar por elas e os partidos não precisavam aceitar seus resultados.

Quando muito, serviam de termômetro para medir tendências. Por exemplo, John Kennedy usou suas vitórias em primárias para mostrar aos dirigentes democratas que era viável para um político católico triunfar em estados de maioria protestante.

As reformas pós-1968

O sistema passou por uma nova e ambiciosa reforma após as convulsões políticas e sociais da década de 1960.

As tensões envolvendo o movimento dos direitos civis e a guerra do Vietnã provocaram grandes conflitos dentro do partido democrata, culminando no explosivo 1968 com o assassinato de um pré-candidato à presidência (Robert Kennedy) e numa convenção nacional que degenerou em pancadaria e violência de rua em Chicago.

Entre os republicanos, aqueles anos foram marcados pelo revigoramento do movimento conservador, com o senador Barry Goldwater desafiando os líderes mais moderados do partido e se impondo como referência ideológica.

Sob essa intensa pressão popular, democratas e republicanos concordaram em tornar as primárias obrigatórias e vinculantes.

A partir das eleições de 1972, só quem as vencesse seria escolhido o candidato de seu partido.

As convenções nacionais perderam importância e basicamente se transformaram em momentos simbólicos para apenas confirmar o que os eleitores haviam decidido nas primárias.

Cem Eleições Diferentes

O mecanismo é, aparentemente, simples. Cada partido tem um determinado número de delegados, distribuídos pelos 50 estados. Quando um pré-candidato vence uma primária estadual, ganha alguns.

Eles são seus representantes na convenção nacional, onde a escolha daquele que tiver mais delegados é formalizada. A simplicidade termina aí. O mecanismo é bastante complexo e ainda surpreende políticos e eleitores.

Em um certo sentido, as primárias são 100 eleições diferentes, pois cada diretório estadual dos democratas e dos republicanos define suas próprias regras.

Em alguns o voto é proporcional -- os pré-candidatos levam um número de delegados que varia conforme sua votação -- em outros, é majoritário -- quem ganha, leva todos os delegados.

Em certos estados, como Iowa, não há urnas, mas o método dos "caucus" (algo como comitês) nos quais os simpatizantes de cada candidato se aglomeram em um canto da seção eleitoral para definir quem tem a maioria.

Há estados em que qualquer eleitor pode participar das primárias, em outros é preciso estar cadastrado como simpatizante do partido. Por aí vai.

Os democratas tem também a figura dos "superdelegados" -- cerca de 15% do total -- que não são definidos nas primárias, mas tem autonomia para escolher qual pré-candidato apoiar.

Em geral são políticos que exerceram cargos importantes no partido. Em teoria, numa disputa acirrada, poderiam ter o poder de resolver o impasse, embora isso nunca tenha ocorrido.

A ordem das primárias também importa, pois vitórias iniciais fortalecem pré-candidatos cuja viabilidade era duvidosa e podem levar a reviravoltas na eleição. Iowa e New Hampshire foram os pioneiros nas primárias e conseguiram por lei manter o direito a realizarem as primeiras disputas. Isso lhes dá uma importância na política americana muito além do seu tamanho reduzido.

A "Super Terça" no início de março envolve um número variável de estados, em geral concentrados no sul e no sudoeste, dando destaque considerável às demandas e características demográficas dessas regiões -- por exemplo, o peso do voto dos negros, muito presentes nelas, que foi decisivo para a vitória de Obama em 2008, e que em 2016 impôs derrotas expressivas a Bernie Sanders, cujo discurso dava pouca atenção a temas étnicos e raciais.

Consequências das primárias

Sem as primárias, seria difícil imaginar as vitórias de azarões que derrotaram máquinas partidárias muito fortes, como Obama fez com os Clinton e como Trump conseguiu com os Bush, empurrando Jeb Bush -- filho e irmão de ex-presidentes -- para fora da disputa.

Pode-se argumentar que elas também foram importantes, talvez fundamentais, na ascensão de políticos pouco conhecidos no plano nacional, mas que por meio delas mostraram capacidade de liderança e acabaram por chegar à Casa Branca (Jimmy Carter em 1976, Bill Clinton em 1992).

Elas também deixaram mais claro o fosso que ocasionalmente existe entre os eleitores e os dirigentes partidários.

Atualmente, esse tem sido o grande problema dos republicanos, que enfrentam movimentos de protestos de seus simpatizantes (as manifestações do Tea Party) e o forte apoio que tem dado a Trump, cujas posições de protecionismo econômico e hostilidade à imigração são bastante distantes daquelas defendidas pelos líderes do partido.

A ironia é que por meio das primárias eles podem acabar impondo um candidato rejeitado pela cúpula da organização.

O potencial das primárias em se descolarem das elites partidárias ficou mais forte com a disseminação das novas tecnologias de informação.

Redes sociais e outros recursos da Internet permitem aos pré-candidatos um grande poder de comunicação direta com os eleitores, de pautar a imprensa tradicional e difundir suas mensagens sem precisar do aval de estruturas centralizadas de controle.

De Obama a Trump, os azarões estão aprendendo rapidamente essas lições.

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