OPINIÃO

Sem olhos em Gaza

24/07/2014 23:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Adam Berry via Getty Images
BERLIN, GERMANY - JULY 24: A young demonstrator holds a candle in the rain during a memorial vigil of those killed during the continued violence in Gaza, on July 24, 2014 in Berlin, Germany. An estimated 730 Palestinians and 34 Israelis have been killed since the offensive between Israel and Hamas in the Gaza Strip began 17 days ago. One day prior to the demonstration, the United Nations Human Rights Council voted for the launching of an investigation into potential violations of human rights during the conflict. (Photo by Adam Berry/Getty Images)

Este artigo não é um panfleto. Não é para lançar culpas, e sim tentar entender o contexto político que levou ao atual conflito entre Israel e Hamas, com centenas de mortes e um fardo que tem recaído majoritariamente sobre civis. Como chegamos ao massacre de crianças e aos atentados? Há saídas viáveis no curto prazo?

Em 1947 a ONU determinou que a Palestina - então parte do império britânico, que a administrava sob um mandato da Liga das Nações - seria dividida em dois Estados: um para os judeus (Israel), outro para os palestinos. Estes recusaram a partilha. Na guerra que se seguiu, o Egito ocupou a Faixa de Gaza e a Jordânia, Jerusalém Oriental e Cisjordânia. Israel sobreviveu e expandiu o território que lhe havia sido designado pelas Nações Unidas.

Em 1967, Israel conquistou Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental na Guerra dos Seis Dias. A ocupação é ilegal à luz dos acordos da ONU, cujo Conselho de Segurança ordena há décadas que o país abandone essas áreas.

Ao longo dos anos seguintes, os nacionalistas palestinos construíram um movimento de resistência pela criação de um Estado próprio, que abarcaria também o território israelense. Diversos grupos armados formaram a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), cujo líder mais importante foi Yasser Arafat. Cometeram atentados contra civis israelenses: sequestros, ataques a bomba, assassinatos. Israel, em desrespeito às leis da guerra, construiu assentamentos nos territórios ocupados, expulsou famílias palestinas, prendeu arbitrariamente e torturou ativistas.

Na década de 1990, diversos fatores favoreceram negociações de paz: o fim da Guerra Fria, com certo relaxamento das tensões internacionais, a força da intifada (a rebelião palestina de 1987-1991) e o desgaste da OLP após ter apoiado Saddam Hussein em seu confronto contra os Estados Unidos. O resultado foi o diálogo que culminou nos acordos de Oslo (1993), com a criação de áreas semi-autônomas administradas pela OLP na Cisjordânia e na Faixa de Gaza - cerca de 25% do território da Palestina histórica. Mais de 130 países, incluindo o Brasil, as reconhecem como Estado.

A ONU passou a fazê-lo em 2012.

O Hamas

Hamas é a sigla para Movimento de Resistência Islâmica, fundado por líderes religiosos em 1987, com o objetivo de criar uma Palestina independente e que seguisse as leis do Islã. Rejeitavam a OLP por seu nacionalismo majoritariamente secular, que incluía grupos comunistas. Recusaram os acordos de Oslo.

O Hamas tem um braço armado - as brigadas militares Izzedin al-Qassam - que realizou uma série de atentados contra civis israelenses, inclusive ataques suicidas com homens bombas. A radicalização ocorreu em meio a atrocidades perpetradas também por extremistas de Israel: um colono invadiu uma mesquita em Hebron (Cisjordânia) e matou dezenas de pessoas, outro radical assassinou o primeiro-ministro Itzhak Rabin, que havia negociado Oslo.

O Hamas ganhou popularidade entre os palestinos em meio aos fracassos na implementação de Oslo, com a persistência da violência e expansão da construção de assentamentos em territórios ocupados. Em 2000 falhou a tentativa de um novo acordo na cúpula de Camp David e no ano seguinte aconteceram os atentados de 11 de setembro (a "guerra global contra o terror") e a eclosão de nova intifada.

O Hamas tem uma rede assistencial de escolas, clínicas e mesquitas e para muitos palestinos o movimento é a alternativa à corrupção e aos parcos resultados da Fatah, o grupo liderado por Arafat (e após sua morte, por Mahmoud Abbas) que dominava a OLP e a Autoridade Palestina constituída após os acordos de paz. Em 2006 o Hamas conquistou 60% dos votos nas eleições para o parlamento palestino, destronando a Fatah de sua tradicional liderança. Mas ela não reconheceu a derrota. Houve ferrenha disputa armada entre os dois grupos, com o Hamas mais forte na Faixa de Gaza e seu rival, na Cisjordânia.

Israel, Estados Unidos e União Europeia consideram o Hamas uma organização terrorista e submetem o movimento e Gaza a uma série de restrições: as mais fortes delas são um bloqueio marítimo e o fechamento das fronteiras por terra, incluindo aquela com o Egito, cujos generais são adversários históricos dos grupos islâmicos. Israel lançou duas grandes ofensivas militares contra a Faixa de Gaza em 2008 e 2012, matando 1474 palestinos. Nesse período, ataques do Hamas fizeram o mesmo com 26 israelenses.

O novo ciclo de violência

A eclosão da Primavera Árabe em 2011 teve forte impacto na política palestina. O Hamas rompeu ou enfraqueceu suas alianças externas (Síria, Irã, o Hezbolá libanês). Ao mesmo tempo, o movimento e a Fatah se preocupavam com a possibilidade de uma rebelião popular entre os palestinos. Afinal, há anos adiam eleições usando como justificativa o conflito entre ambos. Após longas negociações, chegaram a um acordo em abril de 2014, criando um governo de coalizão e prometendo uma votação para este ano. Israel e Estados Unidos se opuseram a esse entendimento. Algo grave, pois a Palestina depende da cooperação internacional para financiar seus serviços públicos básicos.

Poucas semanas depois, palestinos sequestraram e assassinaram três adolescentes israelenses, estudantes de uma escola religiosa na Cisjordânia. Embora não esteja claro se os assassinos eram parte do Hamas, o movimento celebrou as mortes e elogiou o crime. Israel respondeu com uma operação militar em que prendeu 350 palestinos e matou 5. O Hamas disparou centenas de foguetes contra os israelenses, que por sua vez começaram bombardeios aéreos contra a Faixa de Gaza e posteriormente enviaram tropas terrestres.

O conflito armado continua em andamento. Em duas semanas militares de Israel mataram cerca de 600 palestinos. A ONU estima que mais de três quartos das vitimas eram civis, incluindo 150 crianças. O Hamas e a Jilhad Islâmica mataram 27 israelenses - 25 eram soldados. Organizações de direitos humanos clamam por um cessar-fogo e um embargo de armas para Israel, Hamas e outros grupos armados palestinos. Não é sequer o início de uma nova rodada de diálogo para a paz, mas ao menos é um modo de interromper os massacres atuais.

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