OPINIÃO

Por que Donald Trump venceu?

09/11/2016 12:11 -02 | Atualizado 09/11/2016 12:11 -02
ASSOCIATED PRESS
A woman walks by banners of Democratic presidential candidate Hillary Clinton and Republican presidential candidate Donald Trump during an election watch event hosted by the U.S. Embassy in Seoul, South Korea, Wednesday, Nov. 9, 2016. The United States headed for the polls to vote for their new president on Tuesday. (AP Photo/Lee Jin-man)

A vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos rompeu uma série de consensos bipartidários entre republicanos e democratas. Os dados da boca de urna mostram que ela representou uma revolta de um eleitorado específico - a classe média mais modesta das pequenas cidades, com baixa escolaridade, assustada com os efeitos da crise econômica e preocupada com a imigração e a maior competição global.

Há pelo menos três características do discurso de Trump que ilustram essa ruptura com a agenda recente dos dois grandes partidos:

- Retórica discriminatória contra minorias étnicas e religiosas, além de muitas denúncias de assédio sexual.

- Rejeição dos acordos de livre comércio e organizações econômicas internacionais que tem sido o pilar da política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial.

- Crítica às alianças de defesa, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e às guerras americanas no Oriente Médio e a proposta de uma política externa isolacionista.

Essa é uma plataforma atípica que, na falta de termos mais precisos, poderia ser classificada muito mais como "populista" do que como "conservadora". Trump se impôs como candidato republicano nas primárias à revelia da elite do partido, que o rejeitou explicitamente, com muitos líderes da sigla preferindo apoiar a rival democrata, Hillary Clinton.

A ascensão de Trump contrariou os modelos clássicos de análise política americana, que afirmam que a escolha do candidato depende em última medida do aval da elite partidária. Fazendo o mea culpa, alguns cientistas políticos concluíram que Trump foi uma exceção por conta de dois fatores: 1) Ele já era uma celebridade antes das primárias, muito conhecido dos eleitores; 2) As redes sociais lhe deram uma plataforma de mídia que ele explorou habilmente para pautar toda a campanha em função de seus gestos e palavras.

Trump não teria vencido sem as divisões dentro de seus adversários no Partido Democrata. Hillary Clinton foi uma candidata controversa desde o início, com alto índice de rejeição. Bernie Sanders a desafiou pela esquerda pela nomeação. Perdeu, mas mobilizou os jovens e forçou Hillary a incorporar em sua agenda alguns temas caros aos sindicatos, como a crítica ao livre comércio, mas ela não convenceu o eleitorado mais engajado.

Ainda não temos os dados para abstenções e a apuração dos votos não terminou, mas já é possível constatar que Trump terá menos que os 60 milhões que Mitt Romney teve em 2012, quando perdeu a eleição para Obama. E até provável que Hillary vença no voto popular por uma pequena margem, como ocorreu na disputa de 2000, em que Al Gore teve um milhão de eleitores a mais que George W. Bush. Peculiaridades inusitadas do sistema americano, com seu método em que o candidato que teve a liderança em um estado leva todos os votos do colégio eleitoral.

As eleições de 8 de novembro levaram ao poder não só Trump, mas deram aos republicanos o controle da Câmara dos Deputados e do Senado. Em seu governo ele também terá a oportunidade de nomear ministros da Suprema Corte, consolidando uma hegemonia sobre os três poderes da república que os republicanos não tinham desde a década de 1920.

Para o Brasil, a vitória de Trump traz ao menos dois impactos negativos. O primeiro é o risco de maior protecionismo comercial, consistente com tudo o que o candidato prometeu na campanha, prejudicando o esforço brasileiro em aumentar as exportações no contexto da recessão nacional. O segundo é o impacto das medidas anti-imigração para a enorme comunidade de cidadãos do país que vivem nos Estados Unidos, muitos em situação irregular. As ofensas racistas de Trump aos latino-americanos abarcam, evidentemente, também os brasileiros.

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