OPINIÃO

Por que Brasil e Israel estão em conflito diplomático?

08/01/2016 13:16 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva, left, embraces Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu during their meeting at Netanyahu's office in Jerusalem, Monday, March 15, 2010. Lula da Silva is in Israel on the first official visit by a Brazilian leader. (AP Photo/Gil Cohen Magen, Pool)

Há quatro meses o governo do Brasil se recusa a aceitar o embaixador que as autoridades israelenses designaram para Brasília. Organizações palestinas, parte da comunidade judaica brasileira e partidos de oposição em Israel também se manifestaram contra sua indicação.

Por que tanta controvérsia? O que está em jogo são visões distintas sobre o conflito árabe-israelense, em particular sobre o futuro dos territórios que ocupados pelos israelenses após a vitória na Guerra dos Seis Dias (1967), como a Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

O pivô das disputas é Dani Dayan, um empresário e político nascido na Argentina que emigrou para Israel adolescente e se destacou como líder dos colonos nas áreas conquistadas após aquele conflito bélico. Essa ocupação é ilegal à luz das decisões da ONU e condenada por diversos países, inclusive pelo Brasil, que defendem que tais territórios devem ser administrados pelo Estado palestino. Dayan é pragmático e habilidoso, em geral tido como o mais bem-sucedido líder dos colonos, sobretudo no plano internacional. Há dois anos ele serve como seu representante para temas diplomáticos.

Dayan apoiou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em sua difícil campanha de reeleição em 2015 e dois meses após a vitória foi indicado para a embaixada em Brasília. A escolha é surpreendente. Por sua condição de líder dos colonos, Dayan seria uma figura controversa em qualquer país - nem mesmo os aliados mais próximos de Israel, como os Estados Unidos, reconhecem sua soberania sobre os territórios ocupados em 1967.

A Difícil Relação Bilateral

Mais ainda no Brasil, com o qual as relações bilaterais têm sido tensas, em particular durante a mais recente guerra de Gaza, quando o governo brasileiro convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas em protesto contra violações de direitos da população civil palestina. O porta-voz do ministério do Exterior israelense retrucou chamando o Brasil de "anão diplomático".

O Brasil desempenhou papel importante na criação do Estado de Israel. O político e diplomata brasileiro Osvaldo Aranha era então o presidente da Assembleia Geral da ONU e geriu as discussões e votações de modo a favorecer o resultado de uma nação para os judeus. A mesma resolução previa também a fundação de um Estado para os palestinos. O Brasil mantém tais posições desde então - elas atravessaram todas as mudanças do regime político nacional. Tropas brasileiras participaram de missões de paz no Egito e no Líbano, em esforços para reduzir as tensões após conflitos militares de Israel com esses países.

Desde a década de 1970, o Brasil tem buscado um papel mais assertivo no Oriente Médio e a busca por maior influência junto a nações árabes e/ou muçulmanas às vezes resultou em problemas com Israel. A diplomacia brasileira apoiou a controversa resolução da ONU que equiparou o sionismo ao racismo, e que vigorou de 1975 a 1991. Recentemente, em 2010, o governo brasileiro reconheceu a Palestina como Estado e tentou mediar, junto a Turquia, um acordo sobre o programa nuclear do Irã.

Apesar das divergências políticas, há um comércio bilateral expressivo, de mais de US$1 bilhão por ano. O Brasil importa de empresas israelenses componentes importantes para a indústria de aviação e exporta majoritariamente alimentos. Israel é o único país de fora da América do Sul com o qual o Mercosul possui um acordo de livre comércio, em vigor desde 2010. No mesmo ano, o presidente Lula tornou-se o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar Israel.

O ex-embaixador israelense em Brasília, Reda Mansour, é árabe, fala português com fluência e ficou no país há apenas um ano e meio. Por que substituir um diplomata respeitado em um momento difícil das relações bilaterais por uma personalidade tão controversa como Dayan? A resposta diz respeito mais às prioridades do governo Netanyahu em conseguir aceitação internacional para a colonização dos territórios. Ainda assim, chama a atenção que o primeiro-ministro busque esse objetivo pelo caminho mais difícil, via Brasil, em vez de tentar emplacar Dayan como embaixador em um país pequeno, sem interesses significativos junto as nações árabes e muçulmanas.

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