OPINIÃO

Para quem gosta de 'relações internacionais', o Oscar 2016 tem filmes que são como um presente

27/02/2016 20:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O Oscar deste ano é um grande presente para quem se interessa por Relações Internacionais, com diversos filmes que abordam conflitos contemporâneos ou do turbulento século XX, além de ser uma chance para conhecer cinematografias pouco difundidas, como as da Colômbia, Hungria e Jordânia.

Aqui estão alguns deles:

bridge of spies

A Guerra Fria acabou há 25 anos e o distanciamento temporal está levando a filmes mais críticos sobre o período, questionando o maniqueísmo da política global daqueles tempos.

Esta nova abordagem está presente em Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg, sobre um advogado americano que defende nos tribunais um agente soviético preso nos Estados Unidos, consegue evitar que ele seja condenado à morte e acaba negociando sua troca por um militar americano capturado durante uma operação de espionagem na URSS.

O filme é uma interessante apologia da necessidade de manter o diálogo entre Estados mesmo nos períodos de maior polarização ideológica. O livro no qual ele se baseou é ainda melhor, ressaltando a importância do passado do advogado como espião na Segunda Guerra Mundial, o que no cinema é mencionado só de passagem.

trumbo

Um tom mais crítico aos Estados Unidos permeia Trumbo, de Jay Roach sobre o grande roteirista e escritor Dalton Trumbo -- interpretado com maestria por Bryan Cranston (o Walter White de Breaking Bad) que concorre ao Oscar pelo papel.

No auge da Guerra Fria, durante o Macartismo ele foi preso por ser comunista e proibido de trabalhar em Hollywood. Contudo, ele e amigos na mesma situação conseguiram continuar a escrever usando pseudônimos, com frequência em produções de segunda categoria, fora dos estúdios principais. Trumbo conseguiu a proeza de ganhar dois Oscars de melhor roteiro desse modo até finalmente voltar a ter seu nome nos créditos, na obra-prima "Spartacus".

O filme é um bom retrato dos anos em que ele foi perseguido, ainda que às vezes falte certa agilidade na narrativa -- por exemplo, não é mencionado como ele inseriu várias críticas ao Macarthismo em seu épico sobre o escravo que liderou a maior rebelião contra a Roma Antiga.

o filho de saul

As guerras mundiais estão presentes em dois dos concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Filho de Saul é o favorito a ganhar o prêmio, um relato impactante e inovador do Holocausto.

O protagonista é Saul, um judeu húngaro prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, que trabalha em um Sonderkommando -- grupos que conduziam os outros presos às câmaras de gás e depois levavam seus cadáveres até os fornos crematórios.

A rotina brutal de Saul sofre um baque quando ele se depara com um menino que, miraculosamente, sobrevive ao gás. Embora a criança seja logo executada pelos nazistas, o protagonista se torna obcecado por enterrá-lo da forma religiosa adequada e diz aos colegas que ele era seu filho. Eles encaram a declaração com ceticismo, enquanto planejam uma rebelião desesperada contra os alemães.

Além do poderoso drama humano, Filho de Saul chama a atenção pela maneira de contar a história. A câmara está quase sempre grudada às costas do protagonista, de modo que o espectador vê apenas pedaços do campo, parte de sua perspectiva, tornando a imersão no mundo caótico e violento de Auschwitz uma experiência ainda mais perturbadora.

Impressiona ainda mais porque é o primeiro filme do diretor húngaro Lázló Nemes, que arrebata prêmios pelo mundo. Fique de olho na carreira desse jovem e promissor cineasta.

bridge of spies

O Lobo do Deserto, de Naji Abu Nowar é um raro triunfo mundial do cinema da Jordânia, contando a história de Theeb, um menino beduíno cuja vida muda para sempre quando ele resolve acompanhar um militar britânico numa missão secreta contra o Império Otomano, na Primeira Guerra Mundial.

A revolta árabe desse período é bastante conhecida dos cinéfilos por conta da obra-prima Lawrence da Arábia, mas O Lobo do Deserto é uma espécie de resposta beduína à visão ocidental, mostrando o impacto brutal dos conflitos entre as grandes potências na cultura tradicional. É também um retrato belo e trágico dos valores beduínos, como hospitalidade, honra e lealdade, mas ideais que com frequência cobram um alto preço em sangue.

bridge of spies

O Abraço da Serpente, do colombiano Ciro Guerra também fala de culturas tradicionais frente à integração muitas vezes brutal ao mundo moderno.

O filme narra os encontros de Karamatake, um xamã indígena da Amazônia com um antropólogo alemão e um cientista americano. Com décadas de diferença, ambos o procuram em busca de uma rara planta com propriedades medicinais.

Narrando as duas viagens, o filme mostra os impactos da corrida pela borracha, da atividade missionária e dos conflitos territoriais entre Colômbia e Peru sobre os povos indígenas da Amazônia ao longo da primeira metade do século XX, numa reflexão poderosa sobre a perda de valores e a destruição cultural.

bridge of spies

"Toda política é local", reza o velho ditado, mas uma das características do mundo contemporâneo é uma fronteira cada vez mais tênue entre o global e o doméstico. Alguns dos filmes que disputam o Oscar tratam do que à primeira vista é um assunto restrito a um país ou mesmo a uma cidade, e se mostra algo mais amplo.

A Grande Aposta, de Adam McKay, narra a história real de vários investidores que perceberam que o mercado imobiliário dos Estados Unidos caminhava para o colapso, e ganharam fortunas apostando em cima disso. O filme discute como eles conseguiram perceber o que ia acontecer diante da aparente cegueira de várias instituições.

Com uma narrativa ágil e bem-humorada, se insere nas produções que tratam da crise global iniciada com o estouro dessa bolha, como Trabalho Interno, Wall Street: o dinheiro nunca dorme ou Margin Call.

Interessante sobretudo pelo uso da ficção para explicar conceitos econômicos e explicar os complexos mecanismos financeiros da compra e venda de imóveis americanos.

spotlight

Spotlight, de Tom McCarthy, também é um filme sobre pessoas reais envolvidas numa crise que parece local nos Estados Unidos, mas logo ganha dimensão global.

Nesse caso, o grupo de repórteres do jornal Boston Globe que investigando denúncias de abusos sexuais cometido por padres descobriu um padrão assustador de conivência e acobertamento por parte da Igreja Católica.

É um filme excelente de louvor ao jornalismo investigativo e sobre como funcionam as relações de poder entre as elites de uma grande cidade americana -- as diversas conexões pessoais que intercalam as vidas dos líderes da sociedade -- e de como essa proximidade pode levar a omissões ou conluios perigosos. E por que importa, e muito, para a democracia dar voz aos outsiders e a tipos um tanto marginais.

Por fim, mas não menos importante, três breves comentários acerca de outros filmes:

Perdido em Marte mostra Ridley Scott em forma como diretor de ficção científica, numa bela homenagem à capacidade humana de engenho, pensamento e improvisação.

O papel-chave que a China desempenha no enredo é algo que veremos com mais frequência nos próximos anos: personagens chineses mostrados de forma simpática em produções americanas, como modo de facilitar a entrada do filme naquele gigantesco mercado.

o menino e o mundo

O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, é o único brasileiro a disputar o Oscar, na categoria animação, onde enfrenta a toda-poderosa Pixar.

Torço para que a indicação ajude na divulgação deste belíssimo poema visual sobre um garoto que parte em busca do pai e descobre na jornada o quanto o mundo é feito de ganância e violência, mas também das coisas boas que há pelo caminho e que precisamos trazer dentro de nós.

A maior controvérsia do Oscar 2016 é a pouca presença de artistas negros e nesse aspecto a maior injustiça deste ano é a exclusão da competição do ótimo Beasts of no nation, de Cary Fukunaga, um impactante drama sobre crianças-soldado na África, com um desempenho arrebatador de Idris Elba como o comandante do grupo guerrilheiro que recruta o protagonista.

Vale a pena assistir.

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