OPINIÃO

Morte, vida e refúgio na Europa

03/09/2015 16:30 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
REUTERS/Laszlo Balogh

Ele se chamava Aylan Kurdi, tinha 3 anos e hoje simboliza a consciência humana diante da pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. O menino fugia da guerra na Síria e morreu afogado na costa da Turquia, junto com seu irmão, de 5 anos. As fotos de seu pequeno cadáver se tornaram virais e, sobretudo na Europa, impulsionam muitas pessoas a sair da indiferença e tomar uma atitude com a tragédia humanitária em curso.

Quem são os refugiados tentando entrar na Europa? De onde vem? O que os leva a fugir? Há respostas precisas para todas essas perguntas e os governos europeus tiveram anos para preparar políticas públicas para enfrentar o problema.

Em primeiro lugar, tratam-se primordialmente de refugiados políticos e não de migrantes políticos. Quase 2/3 dos que chegaram à Europa em 2015 fugiram da Síria, Afeganistão e Eritreia, países abalados por guerras civis, insurgências, perseguições étnicas e religiosas, e regimes autoritários. São pessoas tentando escapar de situações desesperadas, que incluem o risco de prisão, tortura e morte.

Também temos dados detalhados da própria União Europeia sobre o perfil demográfico dos que solicitam asilo no continente. Quase 80% são jovens de até 35 anos, 25% são menores de idade, às vezes viajando desacompanhados, sem os pais. Podemos imaginar a tragédia que leva uma família a enviar suas crianças sozinhas para outra nação. As estatísticas mostram que na década de 2000 o número de pessoas que solicitavam asilo na Europa era um pouco menos de 200 mil por ano. Essa cifra começa a aumentar após o início da guerra civil na Síria (2011), alcançando espantosos 625 mil no ano passado. Menos da metade (45%) receberam resposta positiva a seu pedido.

A situação tem piorado de maneira acelerada, em função da instabilidade política no Oriente Médio e Norte da África. O ano de 2015 tem sido marcado por um Titanic humanitário - naufrágios no Mar Mediterrâneo de barcos carregando refugiados já mataram mais de 2500 pessoas. O aumento no número de solicitantes de asilo está sobrecarregando os sistemas de proteção na Europa e enfrentando com frequência a hostilidade de boa parte de uma população assustada pela longa crise econômica. Os partidos de extrema-direita com agenda fortemente contrária à imigração estão em ascensão, em especial na Grécia, Hungria e França.

Contudo, essa é uma batalha política em aberto. Diante da apatia ou negação dos governos, há muitos cidadãos tomando iniciativas solidárias por conta própria. Na Islândia, 10 mil se voluntariaram para receber refugiados sírios em suas casas. Na Alemanha, um casal criou um site para coordenar os esforços de quem quer fazer o mesmo naquele país e na Áustria. Além dessas, há várias maneiras de ajudar com doações financeiras ou participação em grupos de apoio local.

Vale lembrar que a Europa é apenas a ponta mais visível da crise de refugiados, a região que recebe mais atenção da mídia internacional e da opinião pública. Mas a situação é muito mais grave em países do Oriente Médio e da Ásia meridional, que recebem muito mais pessoas fugindo dos conflitos nas nações vizinhas. Quem realmente arca com a maior parte desse fardo são Estados como Líbano, Jordânia, Turquia e Paquistão, em condições econômicas mais precárias do que os membros da União Europeia.

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