OPINIÃO

Impeachment através do espelho: Dilma e Park contra as ruas

13/12/2016 12:21 -02
Reuters/Getty Images

Milhões de pessoas tomam as ruas para pedir o impeachment da primeira mulher a ser eleita presidente do país. Os manifestantes protestam contra a corrupção nas maiores empresas nacionais e o partido da mandatária se vê desestruturado e esvaziado. O processo de afastamento, o segundo da jovem história democrática do país, joga sombras no padrinho político da presidente, visto por um grande setor da sociedade como um dos maiores líderes que a nação já teve. Poderia ser o Brasil em 2016, mas é também a Coreia do Sul. Assim como Dilma Rousseff, Park Geun-hye sofreu impeachment pelo parlamento. A presidente afastada espera seu julgamento, previsto para o início de 2017, enquanto o primeiro-ministro Hwang Kyo-ahn, de popularidade baixa, assumiu o cargo de presidente em exercício.

Há diferenças marcantes nos perfis políticos das ex-mandatárias. Enquanto Dilma fez parte da luta armada contra a ditadura brasileira, Park é filha do general Park Chung-hee, ditador que governou a Coreia do Sul por quase 20 anos. Park foi eleita explorando a nostalgia do período autoritário, com seu acelerado desenvolvimento econômico. Sua campanha também apelou para a dramática história pessoal - seu pai e sua mãe foram assassinados, respectivamente pelo chefe da agência de espionagem, numa tentativa de golpe, e por simpatizantes da Coreia do Norte.

Razões para o impeachment

No Brasil, o impeachment foi parte de uma crise mais longa, que começa com a piora da situação econômica e o agravamento do desequilíbrio fiscal ao longo do primeiro mandato de Dilma, passa pelas manifestações que ocorreram a partir de 2013, da tensa eleição presidencial de 2014 e das revelações sobre a escala da corrupção na Petrobras com as investigações da Operação Lava Jato. A presidente perdeu progressivamente uma popularidade que chegou a ser muito elevada e seus conflitos com os aliados fizeram com que deixasse de ter apoio da maioria do Congresso.

A razão apresentada para o impeachment de Dilma foram as chamadas "pedaladas fiscais", basicamente uma manobra contábil ilegal para mascarar o crescimento da dívida pública. Os protestos contra a presidente se concentraram na crítica aos escândalos de corrupção e ao descontentamento com sua política econômica.

O enredo que culminou no impeachment de Park começa com sua relação com a empresária Choi Soon-sil, sua amiga de infância, e o poder que esta exercia sobre ações presidenciais, em trama que, como afirmam os tabloides coreanos, mais se parece com as histórias de Rasputin da Rússia Czarista do que com um Estado moderno e globalizado como o Sul-coreano se enuncia.

O pai de Choi Soon-sil era líder de uma seita religiosa denominada "Igreja da Vida eterna" que misturava cristianismo, budismo e rituais xamânicos. Após o assassinato da mulher do general Park, ele se tornou mais retraído e os Choi se aproximaram do ditador e de sua família como guias espirituais. Depois de sua morte, essa influência se fortaleceu sobre a jovem Park Geun-hye. À medida que ela ascendeu politicamente, isso gerou uma rede de favores e negócios duvidosos.

Neste ano jornalistas conseguiram um tablet que continha conversas entre Park e Choi e descobriram que a empresária tinha acesso a documentos oficiais secretos e controlava diversos atos da presidente: discursos, o que iria vestir, de quais eventos participaria. A imagem de Park como uma marionete de um culto pagão se espalhou rapidamente pelo país.

Investigações mostraram que Park e Choi mantinham relações escusas com os chaebol, as grandes empresas de núcleo familiar coreanos. Presidentes de companhias como Samsung, LG, Hyundai e Lotte, foram ao parlamento e expuseram o tráfico de influência orquestrado pelas duas amigas em troca de favores pessoais. Caso emblemático: a filha de Choi, ter usado o poder político da família para se formar em uma das faculdades mais prestigiosas do país, sem ter frequentado metade das aulas obrigatórios do currículo ou realizado provas.

Questões de gênero

No clima de polarização e acirramento do debate, muitos manifestantes contra Dilma adotaram agressões machistas e ofensas sexuais contra a presidente. Não se pode afirmar que questões de gênero tenham sido centrais em seu impeachment, mas elas afloraram de maneira intensa em meio ao calor dos protestos, de um modo como não havia ocorrido no impeachment de Fernando Collor, por exemplo.

Sendo a Coreia do Sul um país bastante patriarcal, um componente de gênero também se fez fortemente presente nos protestos. Muitos se referiam a Park como uma "princesa desconectada da realidade" e consideravam imoral a presidente ser solteira. Todavia, grupos feministas coreanos frisaram que a oposição a Park não era por seu gênero, mas suas ações políticas.

Após o impeachment

As duas presidentes tem comportamentos muito diferentes com relação a seus impeachments. Dilma o denuncia como golpe e se apoia em uma base política que ainda é significativa. Park pediu desculpas à nação, admitindo parte do que estava sendo acusada e "com o coração pesado", aceitando qualquer destino que o parlamento lhe conferisse.

O impeachment de Dilma não solucionou a crise política brasileira. Mais do que o mau desempenho de seu governo, o que está em cheque é o próprio sistema partidário construído desde a redemocratização.

O prosseguimento dos escândalos de corrupção, as tentativas do Congresso em proteger a impunidade dos políticos envolvidos e o agravamento da recessão são preocupações graves dos brasileiros, em meio às controvérsias com relação às medidas apresentadas pelo presidente Temer, como o congelamento dos gastos públicos por 20 anos e uma da nova reforma previdência.

As eleições municipais deste ano - as primeiras após o impeachment - tiveram um impacto devastador sobre o Partido dos Trabalhadores, que foi expulso das grandes cidades, e mostraram cenário mais fragmentado, com ascensão de pequenas siglas que conquistaram capitais (PHS, PMN) e derrotas expressivas do PMDB, o que aponta para um período de alta instabilidade até a próxima disputa pela presidência.

Apesar de ainda ser cedo para se traçar conclusões firmes sobre a política sul-coreana, o clima generalizado no país é de contentamento com o resultado alcançado, não havendo uma oposição expressiva ao impeachment, como no Brasil. O partido conservador, Saenuri, perdeu apoio popular e o Partido Democrático, DPK, ganhou impulso - provavelmente será capaz de vencer as eleições de 2017. O debate na Coreia do Sul é sobre relações pouco claras entre o setor privado e o governo, que datam do período militar. Como mudar essas estruturas?

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