OPINIÃO

Futebol e política externa no Brasil

09/06/2014 08:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Getty Images
Members of social movements take part in the so-called 'World Cup without the people, I'm in the street again' protest against the upcoming FIFA World Cup Brazil 2014 in Sao Paulo, Brazil on June 4, 2014. AFP PHOTO/NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Desde a década de 1930, o futebol tem sido um elemento importante da política externa brasileira, associado aos esforços de governos de várias bandeiras ideológicas em promover o prestígio internacional do país e consolidar a imagem de uma potência em ascensão. Mas a diplomacia é um campo de confrontos e nem sempre essas iniciativas foram bem-sucedidas. Entendê-las é um modo de analisar as controvérsias sobre a Copa de 2014.

O futebol começou a ser praticado no Brasil no fim do século XIX, restrito a clubes de elite, mas conquistou rapidamente popularidade e na década de 1920 já era o esporte favorito de brasileiros de várias classes sociais, além de arena importante na luta contra o racismo, por conta da mobilização dos negros para poder jogar nos times de destaque. Ao chegar ao poder pela revolução de 1930, Getúlio Vargas percebeu sua importância política como um elemento de união nacional, à semelhança do que fez com o samba. Na Copa de 1934 a delegação do país à Itália foi chefiada por Lourival Fontes, assessor-chave de Vargas, que no Estado Novo (1937-1945) viria a comandar a propaganda governamental e a censura à imprensa.

Vargas e Fontes sonhavam com a vitória do Brasil na Copa de 1938 (o país ficou em 3º) e em sediar a competição em 1942. A Segunda Guerra Mundial adiou sua realização. Contudo, em 1950 o Brasil conseguiu ser o anfitrião do evento, no governo do general Eurico Gaspar Dutra, sucessor de Vargas. Ele construiu um grande estádio para a Copa - o Maracanã.

Em seu belo livro sobre o estádio, Gisella Moura observou que "o campeonato mundial não se restringiria apenas a um confronto entre as melhores seleções do mundo e à disputa de uma taça de ouro. Poderia ser a ocasião de difundirmos a imagem do país que desejávamos. Seria como nas grandes exposições internacionais do início do século XX, quando os pavilhões dos países representavam as últimas novidades e os progressos científicos".

A Copa terminou no Maracanazo, a mais célebre derrota do futebol brasileiro - para o Uruguai, de virada, na final. Mas o Brasil perdeu só em campo: a imprensa estrangeira ressaltou a capacidade de organização do país, a alegria da torcida e o respeito e a educação demonstrado diante dos vitoriosos adversários uruguaios. Passos iniciais na estrada para superar o que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-latas" e que culminaria na conquista do primeiro título mundial em 1958, em meio ao desenvolvimentismo e as realizações culturais e esportivas durante a presidência de Juscelino Kubitschek.

A ditadura militar usou e abusou do futebol como instrumento de propaganda, sobretudo na campanha vitoriosa pelo tricampeonato, em 1970, no auge da repressão política. O governo apresentava a extraordinária seleção da época como ilustração da grande potência na qual o Brasil estaria se transformando. Ficou famoso o embate que terminou com o presidente Emílio Médici - que adorava posar para fotografias em estádios - afastando o técnico da equipe e ativista comunista, João Saldanha. Os órgãos repressivos vigiavam atletas e dirigentes e ficaram preocupados com mobilizações como a luta pelo passe livre dos jogadores.

O contraste entre o triunfalismo autoritário e as torturas e mortes foi brilhantemente retratado em filmes como "Pra Frente Brasil", mas também está presente em vídeos da época, como este chocante depoimento de um ex-ativista da oposição armada ao regime. A polícia coagiu Massafumi Yoshinaga a declarar seu arrependimento em lutar contra a ditadura e o rapaz cita como uma das razões para sua suposta mudança de atitude o entusiasmo patriótico com a Copa. Yoshinaga foi libertado mas sofreu sérias sequelas psicológicas e cometeu suicídio poucos anos depois.

A transição para a democracia foi marcada por uma grave crise econômica e por um longo jejum de títulos na Copa do Mundo. Curiosamente, o Brasil só foi vitorioso novamente no mesmo ano em que a hiperinflação foi finalmente controlada, 1994. Na década seguinte, o futebol virou um importante instrumento nas políticas de cooperação internacional do governo Lula, em particular com outros países do sul global. O Ministério das Relações Exteriores criou uma unidade específica para o tema, conhecida informalmente como "coordenadoria da bola". O esporte era parte de políticas sociais de atendimento a jovens e projetos educacionais.

No Haiti, o Brasil comanda desde 2004 a força militar da Missão das Nações Unidas para estabilizar o país. O governo brasileiro enviou não só tropas, mas a seleção nacional, que disputou com a equipe haitiana o "Jogo da Paz", na capital Porto Príncipe. A partida ajudou a chamar a atenção da opinião pública para a importância da operação - a maior operação militar brasileira no exterior desde a Segunda Guerra Mundial - e a angariar simpatias no Haiti. Tema do belo documentário "O dia em que o Brasil esteve aqui". Posteriormente, o Exército organizou partidas entre militares e moradores de favelas haitianas, como um modo de criar laços de amizade e confiança entre a tropa e a população.

Sediar a Copa de 2014 foi uma decisão tomada no auge da prosperidade econômica da década de 2000. De lá para cá, o país sofreu os efeitos da crise econômica global e de uma grande onda de protestos. A própria realização do mundial tornou-se o catalizador para uma série de descontentamentos, sobretudo pelo contraste entre a má qualidade de muitos serviços públicos de educação e saúde com o padrão internacional dos estádios e instalações esportivas, levando muitas pessoas a questionar das prioridades do governo.

A imprensa estrangeira também tem criticado o Brasil, destacando problemas na segurança pública e deficiências de infraestrutura. A Anistia Internacional lançou campanha para que o governo respeite o direito de protestar e entregou às autoridades uma petição global sobre o tema. As embaixadas brasileiras não receberam os ativistas.

A Copa é controversa e a liberdade para apoiá-la ou criticá-la é essencial na democracia e nenhuma das posições deveria ser considerada como sinônimo de caráter, patriotismo ou boas intenções. Polarizações assim sempre acabam mal. Nas sábias palavras do jornalista David Butter: "Gente inteligente caindo no ´Ame-o ou deixe-o´. Atenção: muitos de nossos avós e bisavós escaparam disso."

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