OPINIÃO

Cuba: o caminho até o acordo

17/12/2014 23:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
youdon/flickr/creative commons

O acordo para a normalização das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba é um passo importante para diminuir tensões políticas e abrir possibilidades de reforma. Barack Obama e Raúl Castro firmaram compromissos para reabrir embaixadas (fechadas desde 1961), ampliar o comércio, facilitar viagens e trocar presos condenados por espionagem. O governo cubano também prometeu abrir o país para visita de autoridades de direitos humanos da ONU e Cruz Vermelha, libertar 53 prisioneiros políticos e facilitar o acesso de seus cidadãos à Internet. Como disse o ministro das Relações Exteriores do Chile, Heraldo Muñoz: "É o início do fim da Guerra Fria em nosso hemisfério."

As relações diplomáticas entre os dois países foram cortadas alguns meses antes do nascimento de Obama. Nem mesmo o colapso da União Soviética mudou esse quadro, pois foram seguidas do endurecimento do embargo econômico americano contra Cuba, com a promulgação das leis Torricelli e Helms-Burton. A avaliação do Congresso dos Estados Unidos é que o regime cubano estava em seus momentos finais e poderia ser derrubado por meio da pressão comercial.

Contudo, Fidel Castro lançou reformas econômicas significativas na década de 1990, abrindo os mercados da ilha para o turismo e o capital estrangeiro, em parceria com o Estado. A Espanha investiu em hotéis, o Canadá em minérios, a China em infraestrutura, o Brasil no agronegócio e a Venezuela forneceu petróleo barato. A postura americana soava cada vez mais anacrônica diante da reinserção cubana nos fluxos internacionais de comércio e investimento e do fim do comunismo como um bloco rival ideológico. Qual a lógica de tentar isolar Cuba e estabelecer uma parceria estratégica com a China, também governada de forma autoritária por um partido marxista?

Em realidade, a diplomacia americana respondia às pressões políticas domésticas, dos grupos de imigrantes cubanos que foram para o exílio fugindo da Revolução de 1959 e eram fortemente contrários a qualquer aproximação com Castro. São importantes em particular na Florida, um dos maiores colégios eleitorais dos Estados Unidos, com poder para decidir disputas acirradas como a de 2000.

O caminho até o acordo

Contudo, um pouco antes da vitória eleitoral de George W. Bush, o Congresso americano promulgou uma lei que permitia às empresas do país venderem alimentos a países que passavam por situações de "emergência humanitária" mas estavam submetidos a sanções. Cuba era uma das nações na lista. A legislação era uma solução de compromisso para agradar ao agronegócio e manter a aliança com os imigrantes cubanos. Os efeitos foram impressionantes: os Estados Unidos se transformaram num dos principais fornecedores de comida para a ilha, e em um de seus mais importantes parceiros comerciais. Apesar do embargo continuar em vigor e causar diversos problemas graves à população.

Outro fator-chave foi a gradual mudança no perfil da comunidade cubano-americana, com a aposentadoria ou morte da geração mais velha, que viveu o trauma da Revolução e do exílio, e a ascensão de seus filhos e netos, com visões mais moderadas sobre a possibilidade de diálogo com o governo da ilha. Os laços econômicos também pesaram: o dinheiro que essas famílias enviam para seus parentes em Cuba tornaram-se uma fonte fundamental de divisas para o país, disputando a primazia com o turismo.

A economia mudou mais rápida e profundamente do que a política. Fidel - e seu irmão e sucessor Raúl - mantiveram o monopólio do poder do Partido Comunista, a proibição à imprensa independente e a recusa em realizar eleições livres. Dissidentes continuaram a ser perseguidos e presos, em casos célebres como os da escritora Yoani Sánchez, os das Damas de Branco e o de prisioneiros políticos que recorreram à greve de fome, às vezes morrendo por conta disso.

Contudo, o discurso oficial passou a ficar cada vez mais nacionalista e menos marxista. Aproximaram-se das religiões, em particular da Igreja Católica. Os papas João Paulo II e Bento XVI visitaram o país, o Estado voltou a ajudar financeiramente as instituições religiosas e o Vaticano deu apoio discreto, mas constante, a vários grupos da oposição democrata-cristã que começaram a se organizar como associações da sociedade civil. A mediação do papa Francisco foi importante para o acordo entre Obama e Castro.

O argumento de ser um país sob cerco dos Estados Unidos é há muito o principal pretexto evocado pelo governo de Cuba para restringir liberdades civis e políticas. Com a normalização das relações entre os dois países e o aumento dos laços econômicos, haverá bases para diálogos e negociações mais equilibradas e os cubanos poderão aprender com os erros e acertos dos demais países da América Latina em seus esforços históricos para construir a democracia na região.

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