OPINIÃO

Brasil: A política do descompasso

26/11/2015 10:43 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Marcelo Sants / Estadão Conteúdo

Ao longo da última quinzena, a mobilização das mulheres e as reações ao rompimento das barragens da Samarco em Minas Gerais reforçaram o quadro de descompasso entre a sociedade e o sistema político do Brasil, claro desde 2013. Partidos e líderes têm falhado de forma constante em canalizar as demandas sociais para as instituições, em muitos casos sequer conseguem identificá-las. O resultado é a rejeição generalizada aos principais nomes da política brasileira e o surgimento de um vácuo de representação que pode levar a uma renovação ou ao fortalecimento de demagogos e extremistas. Para onde irá o País?

Desde a redemocratização, partidos, sindicatos e alguns outros movimentos sociais de estudantes e trabalhadores sem-terra tinham organizado as principais manifestações no Brasil. Isso começou a mudar em 2013, com a ascensão de pequenos grupos que por meio do uso das redes sociais demonstraram - às vezes para sua própria surpresa - grande poder de mobilização. E pela primeira vez desde 1964, a direita passou a disputar as ruas, e não só as urnas, com a esquerda. Agendas, demandas e ideologias variam por todo o espectro político, mas têm em comum a desconfiança, quando não a rejeição, das instituições tradicionais da política brasileira, em particular os partidos que governam o País nestas três décadas de democracia.

As lideranças partidárias do País estão confusas diante da aparição desses novos atores, um povo descontrolado que não pede mais autorização para se manifestar. Os líderes brasileiros continuam pensando de forma analógica, no modelo do protesto com carro de som, abaixo assinado e declaração na TV, enquanto a sociedade migrou para a era digital de demandas mais difusas, organizações mais horizontais e menos hierárquicas, cujos principais expoentes são antes catalizadores e animadores da multidão do que pessoas com a capacidade ou ambição de comandá-la. Não há nenhum político brasileiro que possa ser apontado como herdeiro das ruas em 2013 ou 2015.

As mobilizações da última quinzena quebraram a polarização governo/oposição que tem dominado a política nacional desde as eleições presidenciais. No caso das articulações das mulheres - as campanhas Primeiro Assédio e Agora é que são elas e seus protestos em defesa dos direitos ameaçados no Congresso - os temas foram questões sociais amplas que constrangem muitos políticos, temerosos da perda do apoio das bancadas religiosas e do voto conservador, além da rede de acordos que entrelaça governistas e oposicionistas ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, apesar de todas as acusações contra ele.

No que toca à indignação pelo desastre ambiental em Minas Gerais, as reações nas redes sociais ressaltam a proximidade dos principais partidos com as grandes empresas de mineração, simbolizado pela decisão do governador Fernando Pimentel (PT) de conceder coletiva de imprensa na sede da Samarco, responsável pelas barragens rompidas, defendendo a companhia, e pela declaração de seu rival Aécio Neves (PSDB) de que não era a hora para apontar culpados. Também chama a atenção a ausência da ministra do Meio Ambiente diante do pior desastre ecológico da história recente do País, com os resíduos minerais contaminando o rio Doce em dois estados e ameaçando centenas de milhares de ribeirinhos.

Galileu dizia que a natureza tem horror ao vácuo. A política também. Se os profissionais da área não conseguem mais exercer suas funções básicas, como responder aos anseios da população, seus clientes encontrarão outros para desempenhar essas tarefas. É possível que o cenário nacional fique mais parecido com a disputa pela prefeitura de São Paulo, no qual ascendem celebridades da TV e dos programas policiais. Ou que despontem lideranças de outros campos, como os novos movimentos que surgiram desde 2013. O desafio para eles é construir a ponte entre ruas e instituições, criar laços de confiança, articulação e comunicação. Difícil e complicado, mas entre as muitas virtudes da democracia, infelizmente não está a de ser um sistema fácil.

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