OPINIÃO

As eleições na Argentina e o declínio do kirchnerismo

26/10/2015 12:39 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Associated Press

"Eu pensava que a coisa mais apaixonante do mundo fosse uma tourada, até que vi dois argentinos discutindo política", escreveu o poeta mexicano Octavio Paz.

O primeiro turno das eleições presidenciais da Argentina terminou de forma surpreendente, com um quase empate entre o candidato do governo, Daniel Scioli, e seu rival da oposição, Maurício Macri. As pesquisas indicavam que o oficialista estaria até dez pontos à frente. Elas acertaram em seu percentual de votos (36,8%), mas subestimaram a quantidade de indecisos que ficaria com Macri, que recebeu 34,3%. O país terá agora mais um mês de campanha, até um inédito segundo turno em 22 de novembro. É um golpe duro no Kirchnerismo, que enfrenta várias dificuldades na economia após 12 anos no poder.

O PIB da Argentina deve crescer apenas 0,4% em 2015, com uma inflação de 25%. A popularidade da presidente Cristina Kirchner está em 42%, mas seu partido tem mais apoiadores. A lei eleitoral argentina permite que cada sigla lance vários candidatos à presidência, e os três peronistas (Scioli, Sergio Massa e Adolfo Rodríguez Saá) somaram 60%. Os três têm uma história complexa com os Kirchner, que passa por momentos de aliança e outros de oposição ao casal. Scioli foi vice-presidente de Néstor Kirchner, mas depois se afastou do antigo parceiro. Ele não era a escolha preferencial de Cristina para disputar a Casa Rosada e ela só o aceitou porque seus próprios auxiliares não conseguiram conquistar a preferência dos eleitores.

Ascensão e Declínio do Modelo K

Néstor Kirchner foi eleito presidente em 2003, quando a Argentina estava em meio a uma severa crise econômica que havia levado o PIB a encolher 20% desde 1998. O governador da pequena e distante província de Santa Cruz era um dos raros peronistas a ter se oposto às reformas liberais do governo Carlos Menem (1989-1999), que muitos eleitores culpavam pelas dificuldades do país. Em sua administração, Kirchner rompeu com diversas políticas dos antecessores: recuperou o crescimento com um programa heterodoxo, renegociou a dívida externa com grande prejuízo para os credores estrangeiros, revogou a anistia para os crimes da ditadura e abandonou a política externa de buscar uma relação próxima com os Estados Unidos.

Os ganhos sociais foram expressivos. Escorada pela alta da demanda global por suas commodities de exportação, como a soja, a economia prosperou, milhões de pessoas saíram da pobreza e Kirchner se consolidou como o mais importante líder peronista, ganhando uma difícil batalha dentro do partido.

Kirchner foi sucedido por sua esposa Cristina, em 2007. Na realidade, ela era uma política mais conhecida nacionalmente do que ele, tendo exercido mandatos como deputada e senadora. Ela levou adiante as políticas do marido, mas em meio a níveis mais elevados de confronto, com disputas acirradas com o agronegócio, os grandes grupos de mídia (Clarín) e uma maior participação estatal na economia, renacionalizando a petrolífera YPF e fundos de pensão.

O modelo começou a mostrar sinais de esgotamento. O crescimento do PIB caiu expressivamente e a inflação voltou a ser alta. Mas os piores problemas foram políticos: diversos escândalos de corrupção envolvendo os Kirchner e seus aliados mais próximos, manipulações nos indicadores econômicos e crises sucessivas com credores estrangeiros, o que afastou os investidores internacionais da Argentina. Contudo, ao contrário do Brasil e da Venezuela, o país não caiu em recessão. A popularidade de Cristina chegou a apenas 20%, mas ela recuperou simpatias após a morte do marido em 2010 e conseguiu ser reeleita em 2011.

O Cenário para o Segundo Turno

Scioli é um ex-piloto de lancha que entrou na política como aliado do ex-presidente Menem, após um grave acidente em que seu barco virou, levando à amputação de seu braço e ao fim de sua carreira como atleta. Exerceu alguns dos cargos mais importantes da Argentina, como governador da maior província (Buenos Aires) e vice-presidente da República. Ele afirma que é preciso realizar ajustes no Modelo K e aponta para a necessidade de moderação, sobretudo nas questões que envolvem negociações com credores estrangeiros e parceiros internacionais, irritados pelo que consideram excessiva intervenção estatal e protecionismo na economia.

Seu principal rival na eleição é o prefeito de Buenos Aires. Macri concorre pelo partido conservador PRO, que de modo geral propõe medidas liberais. Contudo, mesmo ele precisa acenar para a grande popularidade dos peronistas. No início de outubro, inaugurou uma imponente estátua de Perón, em meio a elogios ao ex-presidente.

O resultado do 1º turno foi uma decepção para o governo, que trabalhava com a possibilidade da vitória de Scioli. Também teve surpresas ruins na Câmara dos Deputados, onde perdeu a maioria e 26 cadeiras, embora continue como o maior partido, com 117 parlamentares - o segundo e terceiro maiores, a União Cívica Radical e o PRO, têm apenas 44 e 42. Os peronistas em oposição a Kirchner têm 36. O oficialismo manteve a maioria no Senado.

Isso significa que, mesmo que Macri vença as eleições para a presidência, teria grande dificuldade em construir uma coalizão de apoio no Congresso, e viveria com o fantasma da oposição peronista. Scioli, por sua vez, precisa negociar uma frente com todas as facções de seu partido. Muitos analistas consideram que Cristina Kirchner continuará a exercer forte influência após deixar a presidência, mas até que ponto a proximidade com ela não afasta eleitores que a rejeitam?

O aliado decisivo tanto para Scioli quanto para Macri é Sergio Massa, o terceiro colocado no 1º turno, com 21,3% dos votos. É um ex-liberal, que está na ala mais conservadora do peronismo e teve relativamente pouca experiência política, como deputado, prefeito da pequena cidade de Tigre e um breve período como ministro de Cristina Kirchner. Que ele irá apoiar? Esta é a pergunta mais importante dos próximos dias na Argentina.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:



Eleições na Argentina