OPINIÃO

Anatomia da violência: analisando o Estado Islâmico

18/02/2015 17:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Hassan Ammar/AP

Decapitações, prisioneiros queimados vivos, rapto de mulheres e meninas para exploração sexual, massacres de minorias étnicas e sexuais... As atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico são numerosas. O grupo faz questão de divulgá-las por meio de fotografias e vídeos que encontram ampla difusão nas redes sociais. Não há justificativa para esses crimes. O que podemos fazer é analisar a história recente do Oriente Médio e do Norte da África para compreender as origens do Estado Islâmico e como se tornou uma força tão poderosa numa região vital para o planeta. A chave para esse entendimento são as guerras que desde 2003 assolam Iraque, Síria e Líbia, países nos quais o grupo atua.

O Estado Islâmico ganhou visibilidade internacional com uma série assombrosa de vitórias militares entre junho e setembro de 2014, na qual capturou Mosul, a segunda maior cidade do Iraque e cercou minorias étnicas e religiosas nos montes Sanjar, ameaçando-as de extermínio. Contudo, as raízes do grupo remontam ao início da década de 2000.

As Guerras e o Vazio de Poder no Oriente Médio

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, precisaram de apenas dois meses para derrotar Saddam Hussein e derrubar seu governo. Em seguida, os americanos desmantelaram as Forças Armadas do Iraque e o partido Baath, que dominava a administração pública. As tensões políticas e religiosas do país explodiram, sem que as forças de ocupação e as novas autoridades iraquianas conseguissem lidar com a situação. Xiitas, sunitas, cristãos e curdos passaram a se atacar mutuamente, acertando velhas contas da época de Saddam e disputando controle de território e recursos naturais.

O Iraque virou o destino de muitos combatentes estrangeiros, sobretudo oriundos de outros países arábes, que queriam lutar contra as tropas dos Estados Unidos e de seus aliados. A Al-Qaeda foi particularmente ativa e estabeleceu uma série de acordos com governos vizinhos ao Iraque que tinham interesses em ver aquela nação enfraquecida e/ou preocupavam-se com a ocupação militar americana no Oriente Médio.

A partir de 2011, começaram uma série de rebeliões contra as ditaduras do Oriente Médio e do Norte da África, no que ficou conhecido como Primavera Árabe. Muitas das pessoas e movimentos que se engajaram nessas revoltas tinham objetivos democráticos. Outras defendiam ideologias autoritárias, ou se radicalizaram no enfrentamento com os governos. Os diversos interesses em jogo fizeram que um fluxo cada vez maior de armas, dinheiro e combatentes fosse para países como Iraque, Síria e Líbia, criando uma situação ainda mais instável e violenta.

À medida que os governos da região enfraqueciam-se ou eram derrubados, todo o tipo de grupo armado se fortaleceu, buscando controlar o petróleo, taxar o comércio ou fazer alianças com o crime organizado para conseguir recursos financeiros. O Estado Islâmico começou a ser gerado pelas relações mais intensas entre participantes de vários desses grupos, como o Al-Qaeda. As prisões americanas no Iraque jogaram papel importante no processo, pois muitos dos líderes se conheceram quando estavam encarcerados nelas.

Quem apóia o Estado Islâmico?

O Estado Islâmico surgiu na guerra civil da Síria (2011 - ), no início como apenas mais um dos vários grupos rebeldes que lutam contra a ditadura de Bashar al-Assad. As potências ocidentais apoiavam o Exército Livre da Síria, mais secular, mas esse grupo não conseguiu avanços significativos no campo de batalha. No fim de 2013, o Estado Islâmico lhes impôs graves derrotas, matando vários de seus comandantes e capturando armamento pesado e sofisticado. As operações militares do grupo mostram algo grau de organização e acredita-se que ele tenha oficiais veteranos de Saddam.

A ideologia do Estado Islâmico é o salafismo, uma versão fundamentalista da fé muçulmana que pretende expurgar a religião das influências que recebeu após a morte de Maomé, quando expandiu-se para o convívio com diversas culturas. A doutrina é baseada no predomínio dos sunitas sobre as outras correntes islâmicas (por exemplo, xiitas ou alauítas, como os que governantes do Iraque e Síria) e extremamente agressiva contra pessoas de religiões diferentes, que com frequência são assassinadas ou forçadas a se converter.

Isso não significa que as pessoas que apoiam o Estado Islâmico sejam, necessariamente, fanáticas religiosas. Muitas são sunitas perseguidas há anos por grupos rivais que aceitam o domínio do grupo com a expectativa de pelo menos uma paz precária, ainda que ao preço do cerceamento de suas liberdades. O crescimento do Estado Islâmico é incompreensível se não levarmos em conta a brutalidade de uma década de guerra e colapso da ordem pública.

Regiões de Atuação

As áreas-chave de presença do Estado Islâmico são o leste da Síria e os vales do Tigre e do Eufrates, nesse país e no Iraque. O grupo controla recursos importantes, como campos petrolíferos e rotas comerciais. Diversos governos estrangeiros, como os da Arábia Saudita, Catar e Turquia, são acusados de ajuda-los com dinheiro, suprimento ou outro tipo de apoio logístico, na medida em que vêem o Estado Islâmico como uma ferramenta útil contra seus inimigos em Damasco ou Bagdá.

No papel, o Iraque tem um exército de 350 mil homens e mais 600 mil na polícia, mas esses números são ilusórios e mascaram uma realidade marcada pela fragmentação da autoridade em linhas sectárias e étnicas e altos níveis de deserção ou de recusa a combater. As guerrilhas curdas tiveram melhor desempenho e no início de 2015 conseguiram romper o cerco ao monte Sanjar e retomar a cidade de Kobane, na fronteira entre Síria e Turquia.

Desde o fim de 2014 o Estado Islâmico também está sob bombardeios aéreos de uma coalizão de 40 países liderada pelos Estados Unidos. Contudo, esses ataques têm tido poucas consequências e muitos consideram-no muito mais uma resposta do governo americano para a opinião pública, devido à execução de reféns ocidentais, do que uma estratégia militar eficaz para derrotar o Estado Islâmico. Para isso seria necessário preencher o vácuo de ordem pública na Síria e no Iraque, com o reestabelecimento de governos viáveis em ambos os países.

A mais recente região de atuação do Estado Islâmico é a Líbia, também ela fracionada por uma guerra civil que opõe dois governos - um em Tobruk, outro em Tripoli - e dezenas de milícias que disputam o controle das cidades. Várias delas são islâmicas e buscam o apoio dos veteranos do Estado Islâmico para derrotar seus inimigos. O mais recente crime foi o massacre de 21 cristãos egípcios, que está impulsionando o Egito a atacar militarmente a Líbia como represália.

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