OPINIÃO

A vitória de Emmanuel Macron na França e as lições de um período político turbulento

Os franceses elegeram presidente o moderado liberal Emmanuel Macron, com 2/3 dos votos, numa disputa que foi quase um referendo sobre a situação dos partidos tradicionais.

09/05/2017 12:29 -03 | Atualizado 09/05/2017 12:31 -03
AFP/Getty Images
Os franceses chamam essa situação de “coabitação” e ela aconteceu com frequência nos últimos 20 anos.

O crescimento da extrema-direita, de forte discurso nacionalista e anti-globalização, é um fenômeno abrangente, mas não inevitável. Os franceses elegeram presidente o moderado liberal Emmanuel Macron, com 2/3 dos votos, numa disputa que foi quase um referendo sobre a situação dos partidos tradicionais e sobre a permanência da França na União Europeia. Contudo, há sinais de alerta: o recém-criado partido de Macron, Em Marcha, dificilmente conseguirá maioria nas eleições parlamentares de junho. E sua rival extremista, Marine Le Pen, mais do que dobrou a votação recorde de sua própria sigla, a Frente Nacional. Com apoio de 1/3 do eleitorado, ela se consolida como principal voz da oposição.

A maioria dos franceses optou por um caminho centrista, mas também deu o recado do cansaço com os dois partidos que governaram a França desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os conservadores e os socialistas tiveram somente ¼ dos votos. Embora Macron tenha pertencido ao Partido Socialista e sido ministro da Economia do impopular presidente François Hollande, conseguiu se projetar como um nome novo e independente, com uma agenda que misturava o liberalismo na economia e ideias progressistas em política social. Chama atenção por sua juventude: com apenas 39 anos, Macron será o mais jovem chefe do Estado francês desde Napoleão Bonaparte.

Há o risco da França se deparar com um governo dividido e paralisado, incapaz de realizar reformas profundas

Contudo, a França não é um país presidencialista. Desde as reformas introduzidas pelo general Charles de Gaulle em 1958, o sistema político é um híbrido desse regime com o parlamentarismo. De maneira resumida: se o presidente tem maioria no parlamento, a França funciona de modo bastante semelhante a um país presidencialista, como os Estados Unidos ou o Brasil. Se tiver minoria, a oposição indica o primeiro-ministro e o chefe de Estado perde o controle acerca dos temas domésticos, embora mantenha as responsabilidades na política externa.

Os franceses chamam essa situação de "coabitação" e ela aconteceu com frequência nos últimos 20 anos. Mas o cenário que Macron enfrenta é mais difícil, pois ao contrário, por exemplo, de François Mitterand ou Jacques Chirac, ele não é o líder de um grande partido, nem tem muita experiência política. Na realidade, esta foi a primeira eleição que ele disputou! Dito de outro modo, há o risco da França se deparar com um governo dividido e paralisado, incapaz de realizar reformas profundas.

A candidata da extrema-direita também triunfou entre os operários, que tradicionalmente votavam na esquerda, mas se sentem abandonados pelos socialistas e sua agenda pró-globalização.

E não há dúvidas de que elas são necessárias. O país tem muitas áreas marcadas por setores econômicos obsoletos e pouco competitivos internacionalmente, como a região Mediterrânea e o Nordeste, onde Le Pen venceu. A candidata da extrema-direita também triunfou entre os operários, que tradicionalmente votavam na esquerda, mas se sentem abandonados pelos socialistas e sua agenda pró-globalização. Tensões relativas à imigração também desempenharam papel importante na disputa.

Macron fala à uma classe média bem-educada, liberal e cosmopolita, à semelhança de muitos dos eleitores de líderes como Barack Obama nos Estados Unidos e Justin Trudeau no Canadá. Esse segmento sem dúvida é grande na França, mas ele, por si só, não é capaz de garantir a governabilidade do país. Vale observar também que o 1º turno da eleição foi bastante disputado, e que nele Macron não obteve sequer ¼ dos votos. Muitos o escolheram sem grande convicção, apostando nele sobretudo porque era a alternativa mais viável ao extremismo de Le Pen.

Se a vitória de Macron é um lembrete que a onda extremista global pode ser derrotada, também deixa como lição a necessidade dos moderados encontrarem uma agenda política capaz de responder aos anseios da população mais pobre e dos setores sociais que ficaram para trás com a integração mais profunda das economias nacionais à globalização.

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