OPINIÃO

A longa marcha da Venezuela de encontro à ditadura

Com o 'autogolpe', a situação de Maduro se complica no plano regional.

31/03/2017 11:36 -03 | Atualizado 31/03/2017 11:58 -03
Carlos Garcia Rawlins / Reuters
O governo reagiu com violência e repressão, prendendo oponentes políticos, perseguindo jornalistas e ativistas de direitos humanos.

Nesta semana o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela retirou os poderes da Assembleia Nacional do país, por considerá-la em "desacato" a diversas decisões judiciais. A corte é controlada pelo governo chavista, o parlamento é de maioria oposicionista desde as eleições de 2015. Os embates entre ambos foram um forte elemento de tensão política, em meio à recessão, inflação elevada e deterioração da segurança pública. O desfecho da crise é um autogolpe. O presidente Nicolás Maduro tornou o regime explicitamente autoritário, como Alberto Fujimori fez no Peru em 1992, ou Getúlio Vargas no Brasil em 1937.

De Punto Fijo a Chávez

Handout . / Reuters

Durante muitos anos a Venezuela foi um oásis democrático na América Latina, uma exceção à maioria dos países autoritários da região, sobretudo no período das ditaduras das décadas de 1960-1970. Em meio a essa época, a política venezuelana era baseada no Pacto de Punto Fijo (1958), um acordo de conciliação nacional entre os dois principais partidos: Ação Democrática e Copei, que representavam os espectros mais moderados dos conservadores e da esquerda. Por trinta anos eles se revezavam no poder, respeitando os resultados eleitorais e dividindo recursos públicos – como empregos no Estado para seus protegidos.

A estabilidade política era possível, entre outras razões, pelos preços internacionais crescentes do petróleo, pilar da economia da Venezuela. Na década de 1980, suas cotações globais caíram de forma acentuada, lançando o país numa severa crise. O governo reagiu com um duro pacote de austeridades e violenta repressão a protestos, culminando em um massacre na capital, o Caracazo (1989).

Esse foi o pano de fundo da ascensão de Hugo Chávez, então um tenente-coronel do Exército que tentou um golpe de Estado para derrubar o governo. Não conseguiu, mas se tornou herói para boa parte da população, enraivecida com os políticos e desiludida com a democracia. O presidente que Chávez quis depor sofreu impeachment e após alguns anos na prisão o militar foi eleito para o cargo. Sua década e meia no poder foi marcada por avanços sociais como a redução da pobreza, mas por frequentes conflitos com seus opositores – parte da oposição tentou depô-lo com um golpe em 2002 - e o cerceamento à liberdade de expressão.

Os conflitos sob Maduro

Carlos Garcia Rawlins / Reuters

Chávez morreu de câncer em 2013 e foi sucedido por Maduro, um sindicalista que fora seu chanceler e vice-presidente. O novo mandatário assumiu o posto em meio a uma economia que se deteriorava rapidamente, por razões internas (inflação, má gestão fiscal) e internacionais (crise global, queda dos preços do petróleo). Sem o amplo apoio e as habilidades políticas de seu antecessor, Maduro se viu às voltas com protestos cada vez maiores e com uma oposição melhor organizada e mais competitiva eleitoralmente.

O governo reagiu com violência e repressão, prendendo oponentes políticos, perseguindo jornalistas e ativistas de direitos humanos. A perda de aliados estrangeiros na Argentina e Brasil tornou o regime venezuelano mais isolado diplomaticamente, culminando em sua suspensão do Mercosul, bloco que exige que seus membros sejam democracias.

Com o autogolpe, a situação de Maduro se complica no plano regional. As instituições internacionais na América Latina, como a Unasul e a Organização dos Estados Americanos, também possuem cláusulas democráticas e temem as possibilidades de choques políticos armados no país ou do aumento do número de venezuelanos que fogem para as nações vizinhas, um fluxo que já é muito expressivo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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