OPINIÃO

A Grécia e o trilema da globalização

17/07/2015 12:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

greece crisis

Com Ramon Blanco, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

É difícil achar um país que teve medidas de austeridade tão severas quanto aplicadas na Grécia; pelo menos em tempos de paz. Não por acaso, ela tem atualmente mais dificuldades de pagar suas dívidas do que ao início do programa de redução de despesas. O que está ocorrendo?

O economista turco Dani Rodrik, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, afirma que o mundo contemporâneo vive um trilema. Os países podem ter duas das características a seguir, mas nunca as três ao mesmo tempo:

1) Democracia,

2) Estado nacional autônomo,

3) Economia aberta e globalmente integrada.

Rodrik chamou esse conflito de "o paradoxo da globalização" e não o pensou especificamente como uma análise da crise da União Europeia (UE) mas é uma ferramenta poderosa para explicá-la. Vejamos.

A Grécia é uma democracia, e integrada à economia global por meio da União Europeia, com seus acordos de livre comércio e a adesão a uma moeda única, o euro. Contudo, desde 2010 sucessivos governos gregos se vêm diante de uma crise de grandes proporções, provocada sobretudo pelo endividamento público excessivo ao longo passada. As autoridades gregas não têm autonomia para adotar medidas como desvalorizar o câmbio e aumentar os juros, pois essas decisões são tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt.

À medida que piora a situação financeira do país, as possibilidades de liberdade decisória de Atenas diminuem, com a Troika (Comissão Europeia, BCE e Fundo Monetário Internacional) impondo políticas de austeridade e reformas significativas da economia política grega, como privatização em larga escala.

Em 2015, a população grega se manifestou contra essa agenda em duas ocasiões: elegendo o partido Syriza em janeiro, com sua plataforma crítica às medidas da Troika, e votando no referendo de julho majoritariamente contra essas propostas. A aposta do governo da Grécia era que o apoio popular lhe daria mais força para negociar com os credores. Não funcionou. O primeiro-ministro Aléxis Tsipras firmou um novo e duríssimo acordo em troca de mais um pacote de socorro financeiro ao país.

As Consequências Sociais da Austeridade

A Grécia é vítima da armadilha da austeridade. Por conta da mesma, reduzem-se os gastos sociais e públicos, o que leva à uma forte recessão na economia. Consequentemente, observa-se não somente um aumento grande no desemprego, como também a queda na arrecadação de impostos, e o crescimento da relação dívida/PIB. Isto, por sua vez, torna ainda mais difícil o pagamento do que os gregos devem. Segundo a lógica da Troika, fica indicado neste momento a necessidade de mais medidas de austeridade, estas ainda mais severas, o que leva a um círculo vicioso sem fim.

Essa armadilha tem impactos devastadores na sociedade como um todo em diferentes esferas. No âmbito político, é bastante preocupante, por exemplo, o crescimento da Aurora Dourada, partido neo-nazista, chegando a ser a terceira força política no país.

Os impactos sociais também são alarmantes. Com os pesados cortes na área da saúde, observa-se: (1) que quase 1 milhão de pessoas ficaram sem acesso a qualquer tipo de tratamento, (2) doenças já raras, como a malária, retornaram e contagiosas, como a Aids, propagam rapidamente, (3) um grande aumento na mortalidade infantil, e (4) uma preocupante elevação no índice de suicídio.

Na área da educação não é diferente. Como resultado dos elevados corte de investimentos, há a dificuldade em suprir as escolas com livros didáticos ou mesmo manter o aquecimento ligado durante todo o dia. Mais do que isso, inúmeras simplesmente fecharam ou tiveram que fundir-se. Na educação superior, as universidades também vivem uma crise e jovens com elevada qualificação saem do país em massa.

Este é um efeito direto das medidas econômicas. A economia grega encolhe rapidamente a cada ano, levando ao fechamento de milhares de empresas. Como consequência, a Grécia vive hoje elevando índice de desemprego, ultrapassando os 25%, com precarização crescente do trabalho. Entre os jovens, o desemprego já ultrapassa os 50%. Resultado: taxas de emigração quebrando recordes, aumento no número de desabrigados, e inúmeras famílias passaram à pobreza. Este fato é particularmente preocupante entre as crianças pois, segundo o UNICEF, o índice de pobreza infantil já ultrapassa os 40% .

A Democracia Sobrevive à União Europeia?

A integração europeia é inseparável da difusão da democracia no continente, mas as instituições regionais são, elas mesmas, pouco abertas à participação, difíceis de entender e em geral distantes da população.

Rodrik comentou irônico que se sentia feliz por sua Turquia natal não ter conseguido ingressar na UE. Em sua análise do trilema contemporâneo ele defende limitações ao que chama de "hiperglobalização", para fortalecer a democracia e a autonomia do Estado nacional. O cenário grego atual é um tanto mais complexo, pois as pesquisas de opinião mostram que na Alemanha. Nos países nórdicos e no Leste da Europa a maioria dos eleitores é favorável à imposição de políticas de austeridade à Grécia, por julgarem que o país deve se adequar às mesmas regras financeiras do resto da UE. O apoio é um tanto menos substancial na França e no Reino Unido.

Dito de outro modo, o que está colocado para os países mais frágeis da UE é que o preço de sua adesão à economia global é cessão de parte considerável de sua autonomia nacional em questões financeiras para as instituições regionais, lideradas por uma Alemanha que tem se mostrado intransigente diante das demandas de seus parceiros menores. Isso pode não ser um grande problema para a democracia quando tudo vai bem e os cidadãos têm outros temas para se preocupar - digamos, questões ambientais ou culturais. Mas vira uma limitação grave quando a economia está no centro da agenda pública, como na Grécia, já há vários anos. Desemprego em massa, hiperinflação e dívida pública descontrolada sepultaram muitas democracias na Europa do entreguerras.

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