OPINIÃO

A diplomacia do papa Francisco em Cuba

21/09/2015 16:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02
ASSOCIATED PRESS
Pope Francis and Cuba's Fidel Castro shake hands, in Havana, Cuba, Sunday, Sept. 20, 2015. The Vatican described the 40-minute meeting at Castro's residence as informal and familial, with an exchange of books. (AP Photo/Alex Castro)

O papa Francisco iniciou no fim de semana sua visita a Cuba, que será seguida por uma viagem aos Estados Unidos, incluindo o discurso na Assembleia Geral da ONU.

A importância da postura Francisco está além da esfera religiosa. O sumo pontífice se estabeleceu como uma referência ética fundamental em debates sobre economia, problemas sociais e temas ambientais.

E o primeiro latino-americano a ocupar o trono de São Pedro tem apoiado a busca de soluções pacíficas para longos conflitos na região, como as tensões entre Washington e Havana e o conflito armado na Colômbia.

Os objetivos do papa em Cuba são: manter a reaproximação entre o regime cubano e a Igreja Católica, iniciada por João Paulo II na década de 1990, e apoiar a normalização das relações do país com os Estados Unidos.

Isso requer um equilíbrio delicado, de não-confrontação com as autoridades, mas sem cair na omissão diante das violações aos direitos humanos.

Nem sempre o Vaticano tem conseguido isso, e a visita de Francisco desperta poucas expectativas nos dissidentes cubanos. Houve inclusive prisões de vários deles antes e durante a presença papal.

A cautela do Vaticano com o regime se explica em função da turbulenta história das relações da Igreja com as autoridades cubanas desde a Revolução de 1959.

O governo comunista declarou que Cuba era um Estado ateu -- e não simplesmente laico -- e perseguiu os católicos, expulsando padres, fechando escolas religiosas e criando barreiras aos fiéis que queriam fazer carreira no partido ou na cúpula estatal.

O confronto radicalizou as posições ideológicas, e a igreja cubana ficou fora do processo de renovação que ocorreu em muitos outros países latino-americanos, aferrando-se a visões bastante conservadoras.

Isso mudou a partir da década de 1990. Embora Cuba continue a ser um regime autoritário no qual o único partido é o comunista, houve significativas reformas políticas e econômicas decorrentes do fim da Guerra Fria e do bloco soviético, que fornecia subsídios fundamentais ao país.

Em 1992, o governo cubano mudou a constituição abandonando o caráter ateu do Estado e iniciou a reaproximação com a Igreja, inclusive com apoio financeiro. Algo semelhante ocorre com outras religiões, como a santería, de origens africanas.

O caráter mais visível dessa política foram as três visitas papais desde 1998. Para se ter ideia dessa distinção, além de Cuba, só um único país recebeu João Paulo II, Bento XVI e Francisco -- o Brasil, a maior nação católica do mundo.

As décadas de conflito entre Estado e Igreja afastaram os cubanos da religião -- menos de 10% da população é praticante.

Contudo, o Vaticano reconhece a importância da ilha para a América Latina. O que acontece em Havana tem grande impacto político e simbólico para toda a região, e mesmo para a comunidade hispano-americana nos Estados Unidos.

A abordagem regional fica clara nas escolhas dos temas que Francisco aborda em Cuba, como o apoio às negociações da paz entre guerrilhas e Estado na Colômbia (os diálogos acontecem em Havana, com mediação dos governos cubanos e norueguês), além da supracitada menção à reaproximação com Washington.

Contudo, Francisco enfrenta desafios graves. Muitos católicos - sobretudo nos Estados Unidos, mas não só lá - avaliam que o papa é mais rigoroso nas denúncias dos abusos éticos do capitalismo ou da crise de refugiados na Europa do que na crítica às violações dos direitos humanos em Cuba, e gostariam que ele tivesse posições mais duras diante do autoritarismo do governo cubano.

Ironicamente, o papa terá mais dificuldades no diálogo com a sociedade americana do que com os funcionários do regime comunista na ilha.

A viagem de Papa Francisco a Cuba

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