OPINIÃO

10 livros para entender a política externa brasileira

01/02/2016 22:00 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
Brazil's President Dilma Rousseff speaks to journalists after visiting the National Center for Coordination and Control of Aedes aegypti mosquito, in Brasilia, Brazil on January 29, 2016. AFP PHOTO / ANDRESSA ANHOLETE / AFP / Andressa Anholete (Photo credit should read ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty Images)

Uma aluna me pediu indicações de leitura sobre política externa brasileira e esse foi o estopim que me estimulou a escrever este texto. Leciono a respeito do tema há mais de 10 anos e com frequência lamento o contraste entre a boa literatura acadêmica especializada e o nível muitas vezes decepcionante do debate público. Esta breve lista é um pequeno incentivo aos que estão interessados em entrar nessa conversa para torná-la mais interessante.

1. História da Política Exterior do Brasil, Amado Cervo e Clodoaldo Bueno

Cervo e Bueno são dois professores e pesquisadores fundamentais na construção do campo acadêmico das Relações Internacionais no Brasil. Este é o manual clássico que sintetiza o tema em um volume. Sugiro sua leitura como um passo inicial para conhecer as principais fases da política externa brasileira, e tê-lo como referência para buscar obras mais especializadas a respeito dos períodos ou assuntos que mais lhe interessarem.

2.Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas, Synesio Sampaio Góes

Um dos pré-requisitos para um diplomata de carreira ser promovido a embaixador é fazer o Curso de Altos Estudos no Ministério das Relações Exteriores, ao fim do qual apresenta uma tese. Muitos desses trabalhos são de excelente nível e são posteriormente publicados pelo Itamaraty e disponibilizados gratuitamente na Internet, como no caso desta obra. O embaixador Góes narra com clareza e objetividade a história da definição das fronteiras do Brasil, desde as disputas diplomáticas pelo tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha, passando pelo desenvolvimento dos conceitos-chave como o uti-possidetis e a vinculação das negociações fronteiriças com discussões sobre livre navegação dos rios internacionais na América do Sul.

3.Maldita Guerra: nova história da guerra do Paraguai, Francisco Doratioto.

A guerra do Paraguai foi aquela na qual os soldados brasileiros mais mataram e morreram. O tema é menos estudado do que deveria e o belo livro de Doratioto é um esforço importante para preencher essa lacuna, eliminando mitos acerca do conflito e dando um bom panorama da complexa diplomacia do Brasil na bacia do Rio Prata ao longo do século XIX, quando a região era essencial para o processo de consolidação territorial do país.

4.O Barão do Rio Branco, Álvaro Lins

Rio Branco é o mais importante diplomata da história do Brasil, por seu papel decisivo na resolução pacífica dos contenciosos de fronteira do país - alguns deles, como a disputa do Acre com a Bolívia, muito difíceis e envolvendo interesses comerciais dos Estados Unidos. Suas negociações garantiram ao território nacional uma área maior do que a da Alemanha e França somadas. O barão é o tipo de personalidade que mereceria uma biografia a cada geração, cada uma incorporando métodos de pesquisas, novas fontes, olhares diferenciados. Infelizmente, não é isso o que ocorre. O trabalho de Lins é um clássico publicado em 1945 e que, na falta de obras contemporâneas, fica como a leitura recomendada.

5.O Brasil e a Liga das Nações (1919-1926), Eugênio Vargas Garcia

No início do século XX o Brasil fez sua estreia na diplomacia multilateral, com a participação na Segunda Conferência de Paz de Haia (1907) e após o envolvimento na Primeira Guerra Mundial, como o mais importante representante das Américas na recém-criada Liga das Nações. A experiência foi conturbada, mostrando de um lado diplomatas hábeis e bem-preparados e, de outro, pressões políticas domésticas exacerbadas que levaram o país a romper com a Liga quando lhe foi negado um lugar em seu conselho permanente.

6.Autonomia na Dependência: a política externa brasileira de 1935 a 1942, Gerson Moura

Como Getúlio Vargas explorou a tensão entre Alemanha e Estados Unidos antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial para extrair dos americanos concessões como o apoio ao projeto de industrialização brasileiro e à modernização das Forças Armadas. Moura foi um grande talento cuja morte precoce teve consequências bastante negativas para o desenvolvimento da reflexão brasileira acerca desse período.

7.Hotel Trópico: o Brasil e o desafio da descolonização africana, 1950-1980, Jerry Dávila

Dávila é um historiador americano especializado em questões raciais no Brasil, seu estudo sobre a diplomacia do país diante das lutas pela independência das nações africanas é uma obra excelente, que vai muito além das fontes tradicionais. Mostra as contradições da política externa oficial - a fragilidade do discurso de "democracia racial", as tensões com Portugal, que ainda tinha colônias no continente - e o vigor da música e do cinema que buscavam valorizar a herança afro-brasileira ao mesmo tempo em que questionavam as injustiças e desigualdades do Brasil.

8.Kissinger e o Brasil, Matias Spektor

Spektor é o acadêmico mais dinâmico da minha geração e tem sido um importante renovador da área de Relações Internacionais, implementando novos métodos e escrevendo uma coluna a respeito da política externa brasileira no jornal Folha de São Paulo. Todos os seus livros são muito bons, este é meu favorito - um estudo acerca de como o Brasil da ditadura buscava o reconhecimento dos Estados Unidos como uma potência emergente, em especial por suas ambições no Terceiro Mundo, e como e por que em grande medida esse projeto falhou.

9.O Punho e a Renda, Edgar Telles Ribeiro

Este romance do embaixador Telles Ribeiro trata do papel do Ministério das Relações Exteriores na repressão política durante a ditadura. Ele conta a história de um diplomata que faz uma carreira meteórica por sua disposição a aplicar os métodos do regime autoritário, sobretudo por meio de ações em outros países sul-americanos como Chile e Uruguai. E, à brasileira, continua a prosperar sob a democracia. O autor jura que não se baseou em ninguém especificamente, mas ex-presos políticos já me disseram que identificaram o modelo do protagonista. Muito do que está na ficção foi confirmado pelas investigações da Comissão Nacional da Verdade.

10.El Lugar de Brasil en La Política Exterior Agentina, Roberto Russell e Juan Gabriel Tokatlian

Minha tese de doutorado foi sobre as relações entre Argentina e Brasil e morei por um semestre em Buenos Aires, onde fui aluno de Russell. A rigor, este é um livro sobre política externa argentina, que cobre muito bem mais de um século de conflitos e aproximações bilaterais e faz ótima análise das perspectivas dos dois países. É lamentável que uma obra tão importante ainda não tenha sido traduzida para o português.

Espero que esta pequena lista estimule a vontade dos leitores em conhecer mais sobre este tema. Ela poderia ter facilmente o dobro ou o triplo do tamanho e incluir, por exemplo, as numerosas memórias de ex-ministros das Relações Exteriores - muitas são excelentes.

Meus próprios artigos sobre política externa brasileira tratam sobretudo das relações do país com outras nações latino-americanas, além de sua agenda para direitos humanos e democracia. Eles estão disponíveis na minha página no site Academia.edu.

Recomendo também o acompanhamento de periódicos especializados, como a Revista Brasileira de Política Internacional e a revista Política Externa.

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