OPINIÃO

Uma (necessária) aula de capitalismo

Produtividade é quase tudo para um negócio, mas as normas e burocracias trabalhistas afundam a produtividade no Brasil.

05/10/2017 20:53 -03 | Atualizado 05/10/2017 21:02 -03
Jorge Adorno / Reuters
Fábrica da Riachuelo tem alta demanda no Paraguai.

O tradicional programa de entrevistas Roda Viva recebeu em setembro o empresário radicado no Rio Grande do Norte Flávio Rocha, proprietário da rede de lojas Riachuelo.

Confesso que assim como já estou cansado de ouvir sindicalistas jurássicos e completamente fora da realidade, já estou também começando a cansar de escutar economistas renomados se repetindo sobre déficit fiscal, inflação, Previdência etc.

Era necessário ouvir de alguém diferente, alguém que está no dia a dia da produção dar seu ponto de vista, algo raro no Brasil.

Flávio fala de forma brilhante o que todos, exceto a velha esquerda marxista, já sabiam. Não existe dicotomia entre empregado e patrão. A dicotomia é entre os produtivos e os improdutivos, os puxadores da carruagem e os que querem se manter em cima da carruagem. Uma evidência disso é a manifestação organizada por funcionários da fábrica da Guararapes em Natal em defesa da empresa, contra o Ministério Público do Trabalho.

Para começar, Flávio aponta que boa parte dos improdutivos são aqueles que se opõem a todas as reformas, como a reforma da Previdência, para manter seus privilégios. Aqueles que recorrem à negação constante da realidade, como os que alegam não haver déficit da Previdência. Estes são justamente os maiores responsáveis pelo déficit e, portanto, os que mais estão em cima da carruagem: os sindicalistas do funcionalismo público.

Por outro lado, o empresário aponta que também há muitos outros empresários cujo trabalho diário não seria agradar aos clientes, mas conseguir um privilégio do governo. A Lava Jato demonstra bem.

Ao se referir à burocracia - e isso vale especialmente para a burocracia trabalhista - ele diz: "Nós temos uma elite burocrática que é muito letrada em leis, mas é analfabeta em capitalismo. Isso é muito danoso, porque a gente não consegue explicar elementares relações de causa e efeito".

A elite burocrática brasileira é extremamente ignorante no que se refere à economia de mercado e como as coisas funcionam no mundo real.

Para muitos juristas da área trabalhista, quanto mais regulamentações, quanto mais normas, quanto mais burocracia, quanto mais rígidas as regras, melhor. Pois eles veem todas elas como "proteção ao trabalhador contra a exploração do patrão". Uma falsa visão contaminada pelo marxismo que morreu em quase todo o mundo, exceto nas universidades públicas e nos tribunais do trabalho.

Ele diz que uma loja Riachuelo é uma mini-democracia em que o cliente vota ao comprar um produto. Ao responder se a empresa vai produzir em Natal ou no Paraguai, diz:

"Não somos nós que temos o controle disso. É a mini-democracia. Os produtos do Paraguai estão em nossas 300 lojas. Se venderem muito, a fábrica do Paraguai cresce. Se vender pouco, a fábrica do Paraguai diminui. Com essas medidas [mais burocracia], o que era produzido em Natal - que era a campeã mundial de produtividade - passou a ter pior performance. Essas duas fábricas [Natal e Fortaleza], que representavam 90% de toda a confecção que era vendida na Riachuelo, hoje representam menos de 20%. Para a Riachuelo tanto faz, quem sofre é o elo mais fraco, é o trabalhador."

Por fim, encerra: "Cada emprego no varejo representa cinco empregos na cadeia têxtil. A Riachuelo tem 25 mil empregos hoje, vai ter 50 mil em cinco ou dez anos. Isso significa que 250 mil pessoas vão estar trabalhando para manter as lojas abastecidas. Se vai ser em Natal, na Índia, na China ou no Paraguai é a pequena democracia que vai dizer".

Há um consenso entre economistas de que, no longo prazo, produtividade é (quase) tudo. As normas e burocracias trabalhistas são algumas das âncoras que afundam a produtividade no Brasil.

Constantemente, os economistas falam sobre isso no próprio Roda Viva e em artigos, mas estar certo não basta. Muitas pessoas aprendem tudo ao contrário na universidade. Precisamos dar aulas sobre a vida real, de como o mundo realmente funciona.

Nesse sentido, a entrevista de Flávio Rocha é uma (necessária) aula de capitalismo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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