OPINIÃO

Furacões, Estádios de Futebol e Alienígenas: O PIB é uma boa forma de se medir riqueza?

Gastar só para aumentar o PIB do trimestre é a receita do fracasso.

24/09/2017 12:02 -03 | Atualizado 24/09/2017 12:02 -03
NurPhoto via Getty Images
A destruição causa um impacto imediato pequeno no PIB.

O Produto Interno Bruto (PIB) é a soma de tudo que é produzido em uma determinada região em um determinado espaço de tempo. Em geral, estamos muito preocupados com o crescimento do PIB, seja o do trimestre ou o do ano. A priori, faz sentido, pois se um país aumenta sua produção de um ano para o outro, seus habitantes têm mais bens e serviços disponíveis.

Mas existem problemas com essa medida.

A fórmula Y = C + I + G + (X - M) é uma das primeiras fórmulas que um estudante de economia aprende na universidade.

Y é a produção total, isto é, o PIB. Ele é a soma do consumo das famílias (C), de todo o investimento (I), dos gastos do governo (G), e do saldo da balança comercial, isto é, exportações (X) menos importações (I).

Que o PIB é uma medida incompleta não é novidade e existem muitos outros índices que tentam trazer mais informações para a análise econômica. Ainda na macroeconomia tradicional, inflação e desemprego são dois índices importantes.

Mais recentemente, medidores como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que leva em conta indicadores de educação e saúde, e o índice de Gini, que mede desigualdade, também são bem utilizados.

O ponto não é apenas o PIB ser um índice incompleto, mas ele passar uma ideia errada ou até mesmo oposta à realidade, como argumentava o economista austríaco F.A. Hayek. Dois exemplos ilustram bem:

  1. Imagine que o Brasil gaste USD 100 bilhões investindo em obras em um determinado ano. Nesse caso, os USD 100 bilhões entrariam como investimento (I) na equação, aumentando o produto final (Y). Não haverá diferença no resultado final do PIB se esse investimento for todo na melhoria da infraestrutura, produção e distribuição de energia, aumento da capacidade de portos e aeroportos, ou se for todo gasto construindo estádios de futebol faraônicos em todas as grandes cidades. O resultado para o PIB é o mesmo. Para o bem-estar, não.

  2. Imagine que um furacão, como o Harvey, passe por uma grande cidade, como Houston, no Texas. O prejuízo devido à destruição de casas, empresas, carros, estradas são enormes. Entretanto, como o PIB é uma medida de fluxo (como a sua renda anual) e não de estoque (como seu patrimônio total), a destruição causa um impacto imediato pequeno no PIB. O impacto realmente relevante se dá de maneira secundária, quando, após o estrago, recursos são empregados na reconstrução. É necessário gastar uma quantidade considerável de recursos apenas para investir (I) na recuperação do estoque de moradias, empresas e estradas existentes antes dos danos. Tal investimento (I) irá aumentar o PIB do Texas e pode até mesmo diminuir a taxa de desemprego, mas não há como argumentar que a melhora dos indicadores macroeconômicos significam uma melhoria na qualidade de vida dos texanos.

A ilusão de que aumento de gastos que elevem o PIB é o mesmo que aumento de bem-estar já fez até economistas importantes, como o vencedor do prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, cometerem gafe.

Em 2011, durante uma entrevista para a CNN, Krugman defendeu que uma invasão alienígena poderia salvar a economia americana. A lógica era simples, uma invasão alienígena obrigaria o governo a elevar consideravelmente seus gastos. Tal aumento de gastos funcionaria como um estímulo fiscal.

O ponto é que uma invasão ao estilo Independence Day poderia fazer com que todos os desempregados fossem empregados no exército para combater a invasão e, após a guerra, na reconstrução da cidade. Como no caso do furacão no Texas, o PIB poderia aumentar, o desemprego poderia cair e Krugman poderia dizer que o estímulo fiscal "funcionou". Mas, no fundo, o povo estaria apenas trabalhando para reconstruir o que perdeu.

Pode-se alegar que Krugman defende apenas uma simulação e não uma invasão alienígena real. Entretanto, elevar os gastos com soldados e armas pode melhorar a situação de empresas que produzem armas e suprimentos para o exército, mas eleva a dívida pública e tira homens e mulheres que poderiam estar trabalhando para setores produtivos, mas serão empregados produzindo ou usando armas em excesso. Isto é, mais do que o necessário para a defesa do país.

O PIB cresce no trimestre ou no ano, mas os investimentos são feitos de maneira errada e não aumentam o bem-estar do cidadão comum.

Para ser claro, a medida tem falhas, mas PIB crescendo, em geral, é algo positivo. Assim como PIB caindo, em geral, é algo negativo. Mas o Brasil dos últimos anos ilustra bem como olhar apenas para ele pode ser enganador. O crescimento, especialmente no final do governo Lula e no início do governo Dilma, se deveu, em boa medida, a estímulos para o aumento do consumo (C) e do investimento (I) de forma insustentável e improdutiva.

Não podemos simplesmente achar que crescimento do PIB é um fim em si mesmo. Muitos dos que hoje vêm a público defender aumento de gastos públicos como "medidas para o crescimento" são os mesmos que receberam muitos subsídios e privilégios nos últimos anos e estão apenas querendo que os gastos estimulem a sua própria economia particular. O Brasil não pode ceder à pressão.

Crescimento imediato não é tudo. Crescimento sustentável vem, primeiramente, com responsabilidade fiscal e reformas que permitam às empresas terem aumentos de produtividade. Gastar só para aumentar o PIB do trimestre é a receita do fracasso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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