OPINIÃO

Evaristo Costa, Neymar e escolhas de carreira: Quando estabilidade não é o suficiente

Evaristo Costa e Neymar têm profissões diferentes, mas algo em comum: trocaram o certo pelo duvidoso.

03/08/2017 17:11 -03 | Atualizado 09/08/2017 09:17 -03
Montagem/Facebook/EMPICS Sport
Articulista analisa negociações recentes envolvendo Evaristo e Neymar.

Evaristo Costa, jornalista brasileiro que, de 2004 a 2017, foi âncora do Jornal Hoje na Rede Globo, canal de televisão mais famoso no Brasil.

Neymar, jogador de futebol brasileiro que, de 2013 a 2017, foi titular absoluto do Barcelona, um dos maiores clubes do mundo.

O que eles têm em comum? Ambos trocaram uma suposta estabilidade pelo risco. E estão sendo criticados por isso na internet.

Estabilidade? Mas, eles não ganharão mais dinheiro? Sim.

Evaristo, que não renovou o seu contrato com a Globo, passará um período sabático com a família em Londres. Em sua volta, provavelmente se dedicará ao entretenimento e poderá participar de campanhas publicitárias. Ou seja, será bom financeiramente.

Neymar, garoto de 25 anos e de origem pobre, se tornará o jogador de futebol mais caro do planeta e receberá, segundo especulações, cerca de R$ 111 milhões por ano, na cotação atual.

Mas, onde está o risco nisso? Milton Neves, dinossauro do jornalismo esportivo brasileiro, criticou a decisão de Evaristo. Para ele, "o menino errou". Segundo Milton, "no mato onde nasceu, é dito que nunca se apeia de cavalo puro-sangue". O risco está em largar sua posição confortável como âncora de jornal para se aventurar no entretenimento. Por dinheiro, segundo quem o critica.

No caso de Neymar, de acordo com os críticos, "o menino errou" ao trocar o estrelado elenco do Barcelona de Messi e Suaréz, favoritíssimo em qualquer competição que disputa, para fazer parte do Paris Saint-Germain, clube da fraca liga francesa e que nunca venceu uma Champions League. O risco está em não conseguir títulos de expressão com o PSG e, aos poucos, cair no ostracismo. Por dinheiro, segundo quem o critica.

Por que estão sendo criticados? Somos conservadores. Precisamos de um porto seguro. Nas opiniões que pipocam por aí, nos conselhos aos meninos, fica claro que as críticas são direcionadas ao largar uma oportunidade de ouro para ir em busca de dinheiro — mais dinheiro, visto que, para nós, eles já têm o suficiente.

Mas vejo uma certa ousadia nessas escolhas.

Tá bom, Matheus, cadê a ousadia em trocar de emprego por mais dinheiro?

Evaristo terá que bancar a decisão atuando numa área que lhe é desconhecida. Se optar pelo entretenimento, terá que entregar audiência. Se optar pela publicidade, seus anúncios terão que dar retorno para as marcas.

Neymar terá que bancar o investimento do PSG dentro de campo. Terá que entregar resultados, como qualquer outro trabalhador em qualquer outra empresa. Tem que ter culhões para ter um alvo de mais de € 200 milhões nas costas. O moleque tem ousadia e alegria — ba dum tss!

Tá, mas de novo, cadê a ousadia?

Evaristo estará sob a pressão dos críticos: assim como aconteceu com a ex-colega de Rede Globo, Fátima Bernardes, terá que se reinventar. Tente fazer isso com milhões assistindo.

Neymar estará sob a pressão dos críticos: assim como aconteceu com o francês Paul Pogba, até então responsável pela transferência mais cara do futebol mundial - e paga com as vendas de camisa de outro jogador, para você que se pergunta como essas transferências movimentam tanto dinheiro -, Neymar terá que liderar sua nova equipe.

Se for bem sucedido, entrará para os livros de história através do primeiro título da Champions League alcançado pelo PSG. Se fracassar, sua contratação será considerada um mico, assim como está ocorrendo com Pogba.

E o que temos a ver com tudo isso?

Nada.

Encerro o texto por aqui porque tenho que trabalhar.

Texto publicado originalmente no blog matheusdesouza.com.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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