OPINIÃO

Um mundo pós-humano: deveríamos nos indignar com a morte dos ácaros?

14/10/2015 15:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Shutterstock / motorolka

Astrônomos e filósofos gostam de observar as coisas de longe, mas eles costumam ter medidas diferentes em mente.

Os astrônomos observam o espaço e o tempo - e os filósofos gostam de abstrair as questões mundanas da vida cotidiana. Mas, quando se trata do futuro da humanidade, essas dimensões são bastante coincidentes.

Nós humanos temos a tendência de nos considerarmos especiais, a culminação da árvore evolucionária. Mas isso não parece uma ideia muito crível para um astrônomo ciente de que, apesar de o Sol ter se formado há 4,5 bilhões de anos, ele mal atingiu a meia idade.

Qualquer criatura que testemunhar a morte do sol, daqui 6 bilhões de anos, não será humana - ela será tão diferente de nós quanto nós somos diferentes dos insetos. A evolução pós-humana - aqui na Terra e muito além - pode ser tão prolongada quanto a evolução darwiniana que levou à nossa existência, e ainda mais incrível.

E, é claro, essa evolução acontece cada vez mais rápido - numa escala de tempo tecnológica muito mais rápida que a seleção natural, graças a avanços na genética e na inteligência artificial.

Em particular, poucos que consideram seriamente essa questão duvidariam que as máquinas um dia vão ultrapassar mais e mais das nossas capacidades distintivamente humanas - ou então ampliá-las, com a tecnologia dos ciborgues.

As discordâncias são basicamente em relação ao tempo - a velocidade, não a direção em que estamos caminhando. Os cautelosos vislumbram essas transformações em séculos, em vez de décadas.

Seja como for, as escalas de tempo para os avanços tecnológicos são minúsculas quando comparadas à escala de tempo da seleção darwiniana que levou à emergência da humanidade - e elas são menos de um milionésimo das vastas expansões de tempo que estão diante de nós. Os resultados da evolução tecnológica futura, portanto, podem superar os humanos, intelectualmente falando, tanto quanto nós superamos um inseto.

A evolução pós-humana - aqui na Terra e muito além - pode ser tão prolongada quanto a evolução darwiniana que levou à nossa existência, e ainda mais incrível.

Isso é motivo para pessimismo? Será que deveríamos ficar desapontados com nossa inevitável obsolescência ou tentar evitá-la - nos indignar com a morte dos ácaros, por assim dizer? A visão otimista é que nós humanos não deveríamos sentir muita tristeza ou humilhação.

Com certeza não somos o último galho de uma árvore evolucionária, mas poderíamos ter um significado cósmico especial iniciando a transição para entidades baseadas em silício (e potencialmente imortais), espalhando sua influência muito além da Terra e transcendendo nossas limitações.

Se tudo correr bem, o futuro distante terá traços da humanidade, assim como nossa era retém influências de civilizações antigas (e nossos corpos e mentes retêm traços das dificuldades enfrentadas pelos nossos ancestrais pré-humanos).

Os seres humanos e seus pensamentos podem ser um precursor de cogitações mais profundas de outra cultura - uma cultura dominada por máquinas, estendendo-se no futuro e alcançando pontos muito além da Terra.

Um ponto sombrio nessa visão otimista é a possibilidade de, ao invés disso, estarmos caminhando para um beco sem saída, muito antes da chegada desse futuro. Os astrônomos têm plena consciência da possibilidade de catástrofes cósmicas repentinas, tais como impactos de asteroides, que não se importam com o bem estar das biosferas planetárias.

Ainda mais alarmante é a possibilidade de que a biosfera possa ser responsável por sua própria destruição, produzindo criaturas - nós - que são inteligentes demais para seu próprio bem.

Algumas consequências imprevisíveis das nossas novas tecnologias - biologia sintética, certas formas de inteligência artificial ou alguma outra coisa - podem nos decimar muito antes que um descendente louvável de silício leve a inteligência até as estrelas.

Ainda não há muito o que possamos fazer a respeito das catástrofes cósmicas, mas talvez consigamos desviar de alguns dos riscos existenciais que nós mesmos criamos.

Com certeza faz sentido tentar. Filósofos como Derek Parfit observaram que a extinção absoluta é muito pior que uma calamidade que decime, digamos, 95% da humanidade, pois ela impediria a existência de todas as gerações futuras, bem como destruiria a geração presente.

Um crescente grupo de organizações - como o Instituto do Futuro da Humanidade, em Oxford, o Centro para o Estudo do Risco Existencial, em Cambridge, e o Instituto do Futuro da Vida, no MIT - tenta lidar com alguns desses desafios.

A esta altura, o pessimista faz uma objeção. Se vamos nos "mutar" tão radicalmente no longo prazo, então nós humanos estamos fadados a desaparecer, de uma maneira ou de outra. Qual a diferença disso para uma extinção mais rápida? Adaptando uma frase de Keynes: no longo prazo, nós humanos seremos história. Por que tanta confusão?

O otimista tem duas respostas. A visão mais rósea é que há caminhos para um futuro pós-humano em que cada geração será capaz de sentir que, sim, esses são nossos filhos, nossos descendentes, nosso legado. Crianças crescem e tomam suas próprias decisões, algumas das quais podem chocar seus pais - sem falar em seus ancestrais mais distantes.

A vida é assim, e ela é melhor que as alternativas. Combater a extinção não precisa uma luta pela stasis.

Nós humanos temos a tendência a pensar em nós mesmos como especiais, a culminação da árvore evolucionária. Mas isso não parece uma ideia muito crível para um astrônomo, ciente de que, apesar de o Sol ter se formado há 4,5 bilhões de anos, ele mal atingiu a meia idade.

A visão menos rósea é que até mesmo isso pode ser esperança demais. Tudo bem, diz o não-tão-otimista, há uma enorme diferença entre um futuro cheio de descendentes estranhos e alienígenas e um futuro em que a cepa distinta de inteligência que surgiu em nosso canto da galáxia foi silenciada. Nosso senso de valor agora nos diz que esse futuro silencioso é o que deveríamos nos esforçar para evitar.

Pode haver bilhões de planetas como a Terra só em nossa galáxia, e centenas de bilhões de outras galáxias, igualmente ricas em ambientes que sabemos ser favoráveis para nosso tipo de vida.

A menos que sejamos muito mais especiais do que temos motivos para acreditar - parece provável que outras civilizações tecnológicas tenham chegado a este ponto e talvez tenham tido esse mesmo tipo de pensamento.

Se essas civilizações diferem em relação ao que vem a seguir, isso talvez se explique por que elas diferem em relação ao que fazer quando se dão conta de que - muito mais que antes e graças ao poder extraordinário das suas novas tecnologias -- seu futuro está em suas próprias mãos (ou talvez em algum outro tipos de membro). Resta saber do que nós humanos seremos capazes com essa imensa responsabilidade.

*Artigo publicado em parceria com o Centro de Filosofia e Cultura Berggruen e parte da série WorldPost sobre Tecnologia Exponencial.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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