OPINIÃO

Por que precisamos parar de fazer dieta

17/11/2015 21:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Shutterstock / Lana K

Há mais ou menos seis anos, eu juntei todo o meu esforço e emagreci cinco quilos. Não foi fácil, como nunca é. Aí, com 5 quilos a menos, fui a uma ginecologista para fazer exames de rotina. Lembro que ela foi antipática do começo ao fim da consulta, mas o ponto alto foi quando me disse: "Escuta, já que você tá com um plano de saúde bom, por que não aproveita e vai ao endocrinologista para emagrecer?".

Saí chorando da consulta, muito frustrada. E não foi só por ter escutado essa grosseria - coisa que se escuta muito de qualquer médico, aliás -, mas de ter escutado justamente depois de ter emagrecido 5 quilos. Acho que doeu mais não ter meu esforço reconhecido - eu tinha sido jogada novamente no estereótipo da gorda preguiçosa, que, "se quisesse mesmo", "se fechasse a boca de verdade", emagrecia.

Isso porque vivemos em um momento histórico em que ser gorda é o pior que pode acontecer a uma mulher - porque uma mulher que come é uma mulher que sente prazer, uma mulher que é gorda desafia a mulher magra da revista e da TV, e porque uma mulher gorda é uma mulher doente. E para driblar todo esse mal tem uma solução: a dieta.

Ela está na boca de todo mundo - da sua irmã mais nova à sua avó, do almoço de domingo ao dia a dia no quilo. E não é de se estranhar: a dieta é uma prática sagrada, assegurada pelos meios de comunicação, que a incentivam e reproduzem, e por um mercado enorme e em constante crescimento.

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abid), o segmento de produtos diet e light cresceu mais de 800% nos últimos dez anos. De acordo com pesquisa Ibope, um em cada dois brasileiros fará regime em algum momento da sua vida. Assim, as empresas de produtos e serviços para emagrecer movimentam por ano R$ 25 bilhões.

Mas a dieta, afinal, é eficiente?

Pessoas de perfis profissionais variados têm se debruçado sobre essa questão. Uma delas é Sophie Deram, nutricionista e autora de "O peso das dietas" (editora Sensus). No TEDx Jardins Women de 2013, Sophie disse: "A nutrição virou o nutricionismo, que parece com o terrorismo. Não existem alimentos que por si só vão emagrecer, engordar ou curar o câncer. Não existem alimentos bons ou alimentos ruins".

Sophie faz parte de uma nova corrente que, no Brasil, tem recebido o nome de Alimentação Consciente Intuitiva. Hoje, existe até um centro voltado para divulgar essa vertente, o CACI, criado por Nathália Petry e Ana Perdigão, que atuam como "terapeutas nutricionais". E o nome cai bem: Ana e Nathália não trabalham no sentido de dizer o que se pode ou não comer, ou se se deve ou não emagrecer, mas ajudam o paciente a recuperar uma relação saudável com a comida e com o corpo.

As duas têm uma relação pessoal com o assunto. Ana teve um ganho de peso significativo em função do uso de medicação, quando passou a trabalhar seu comportamento alimentar. Já Nathália desenvolveu transtornos alimentares depois de ingressar na faculdade de nutrição e tomar contato com as restrições incentivadas pelo curso. Passou três anos lutando contra a anorexia, a bulimia e a compulsão alimentar. Demorou para entender o que se passava com ela e, quando conseguiu pedir ajuda, encontrou muitos profissionais mal-capacitados pela frente.

Sobre essa época, conta: "percebi que não tinha como usar a abordagem tradicional da nutrição, de fazer cardápio, para o paciente com transtorno alimentar, porque ele não ia seguir esse tratamento. Comecei, então, a pensar que talvez houvesse outras formas mais aconselhativas e comportamentais de tratar as pessoas em geral também".

Ana diz que sempre soube que a dieta não seria uma saída para ela, e completa: "A dieta é feita para não funcionar porque estimula o consumismo: você consome revista, produtos de dieta, qualquer coisa. Ela faz com que você esteja sempre insatisfeita com o seu peso e querendo adquirir algo para diminui-lo". As especialistas também apresentam uma série de razões biológicas para a ineficiência das dietas. Entre elas, o fato de que, nos primórdios da espécie humana, a gordura atuava como um fator de proteção à vida, característica que o corpo nunca perdeu. Por isso, quando se faz dieta, a última coisa que se perde é gordura.

Além disso, nosso organismo é totalmente adaptável a qualquer situação: sai de restrições alimentares otimizado, funcionando com menos calorias e armazenando muito mais, o que resulta no efeito-sanfona.

Comportamento que se retroalimenta

O efeito-sanfona, aliás, é um dos fenômenos que alimentam o mercado das dietas. E as estatísticas impressionam: segundo Nathália, 95% das pessoas que fazem uma dieta vão abandoná-la. Já pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) acompanharam 31 estudos de longa duração e constataram que, depois de uma dieta, dois terços das pessoas ganhavam mais peso do que haviam perdido. Por fim, uma pesquisa filandesa com 2 mil pares de gêmeos idênticos notou que a dieta estava intimamente ligada com o ganho acelerado de peso.

O que isso significa? Que fazer dieta engorda, o que leva as pessoa a fazerem novas dietas, alimentando uma indústria que cresce mesmo em tempos de crise. É assim que se controla o corpo e a mentalidade de milhares de pessoas, especialmente de mulheres, acostumadas a terem que se apresentar segundo um padrão. Ao contrário do que se vende, dieta não é saúde, mas restrição, desequilíbrio e desconexão com o próprio organismo.

Hoje, no atendimento que oferecem, Ana e Nathália pregam a autonomia alimentar e a desconstrução da mentalidade de dieta, que é não estipular horários, quantidades e alimentos exatos a serem consumidos pelo paciente - sem falar em calorias e em peso. Por outro lado, estimulam uma reconexão com o corpo e a mente, para que a pessoa entenda o que quer comer e como suas emoções afetam a alimentação, levando em consideração todas as funções que a comida pode assumir, não só a da nutrição. "É importante comer estando presente, sentindo a textura, o sabor e o que cada alimento provoca na gente", diz Nathália.

Comida é prazer, dieta é controle. Um caminho em direção a uma vida saudável precisa passar pela desmistificação da dieta e pelo reencontro com o prazer.

* Texto publicado originalmente no site Gordxs. Acesse aqui e conheça o projeto.

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