OPINIÃO

Temer pode evitar o afastamento, mas não vai entregar o que prometeu

Não é impossível que Temer sobreviva, mas obter apoio parlamentar para esta agenda não sairá barato.

21/07/2017 21:06 -03 | Atualizado 24/07/2017 03:00 -03
AFP/Getty Images
Michel Temer vê tremer seus pilares de sustentação: o mercado e o Parlamento.

Três atores coletivos são fundamentais nos cálculos políticos dos governantes: o eleitorado, os empresários e o Parlamento. Governos podem sobreviver com muito baixos índices de popularidade, mas suas chances (re)eleitorais - e dos partidos que lhes dão sustentação - caem na mesma proporção.

Impessoalmente conhecido como "o mercado", o empresariado vota por meio de suas decisões de investimento. Não investindo, gera crises econômicas que afetam diretamente o bem-estar dos eleitores.

Empresários também podem financiar a deposição de governos. Em matéria publicada no Estado de São Paulo, Elsinho Mouco, marqueteiro de longa data do presidente Temer, declarou que empresários custearam as manifestações "populares e espontâneas" em favor do impeachment de Dilma.

Por fim, governos de minoria não são candidatos naturais à deposição, nem mesmo sob o parlamentarismo. Mas, aprovar legislação e sobreviver a pedidos de impeachment requerem maiorias parlamentares.

Por serem coletivos, estes atores não têm, necessariamente, preferências convergentes. De fato, divergem internamente, razão pela qual observamos a trajetória de seus humores com base em taxas de aprovação. Índices de popularidade, operações de mercado e taxas de sucesso parlamentar nada mais são do que medidas de observação empírica da aprovação dos governos em cada um desses segmentos.

Nossa História recente mostra que é fatal para um governo perder o apoio destes três atores coletivos simultaneamente. Dilma somente foi deposta quando perdeu apoio do eleitorado, dos empresários e do Parlamento.

O processo partiu de uma minoria de atores-chave da política brasileira, tais como o candidato derrotado e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Mas o sucesso da operação não estava garantido desde o começo. Foi resultado da construção de uma maioria pró-impeachment, pela qual reticentes passaram a apoiar a frente liderada por defensores do ajuste fiscal via corte de gastos e de possíveis réus das investigações do Ministério Público.

Temer tem baixíssimas taxas de aprovação junto ao eleitorado. É pouco provável que possa aumentá-las. Mas, sua equipe econômica lhe garante o benefício da dúvida por parte do empresariado. Se as taxas de investimento patinam, o "civismo de percussão" está silente.

As panelas suspiram aliviadas, porque a ausência de movimentos de rua pelo impeachment de Temer, na presença de acusações ainda mais graves do que as imputadas a Dilma, indica que não há um grupo importante de empresários disposto a investir em sua deposição. Não parece ser o cansaço que desmobiliza os cidadãos, mas sim a falta de oportunidades organizadas de protesto.

No Parlamento, o afastamento de Temer depende da formação de uma maioria. Essa campanha está em curso em torno do nome de Rodrigo Maia. Não há como antecipar seus desdobramentos, muito menos seus resultados. O roteiro de nosso House of Cards nacional também é feito de fatos que alteram completamente o rumo dos acontecimentos.

Neste momento, Temer não preenche a condição de combinar perda de apoio do eleitorado, do empresariado e do Parlamento simultaneamente. Mas seu afastamento está na ordem do dia na Câmara dos Deputados.

Não é racional, para os parlamentares, manifestarem publicamente seu apoio a um presidente acuado por denúncias de corrupção na antessala de eleições gerais. O risco eleitoral de se manter ao lado de Temer é alto, o que explica a perda de coesão de partidos que lhe dão sustentação parlamentar, em particular o PSDB.

Se a Procuradoria-Geral da República apresentar mais acusações contra o presidente, como promete, evitar o afastamento dependerá da formação de sucessivas maiorias parlamentares. Em reiteradas oportunidades, deputados terão de declarar sua posição, cientes de que este voto em favor da sobrevivência de um presidente altamente impopular será explorado por seus concorrentes em 2018.

Não é impossível que Temer sobreviva, mas obter apoio parlamentar para esta agenda não sairá barato. A situação é muito similar àquela em que se colocou quando formulou sua estratégia de tramitação da reforma da Previdência: o presidente não apenas precisa absolutamente de apoio, como tem urgência dele. A combinação só torna mais caro o voto parlamentar, em particular quando essa sustentação depende de partidos fisiológicos.

Da agenda da frente que deu origem a seu governo, a defesa contra as acusações do Ministério Público tende a esgotar os recursos de que dispõe Temer. Os defensores do ajuste fiscal pela via do corte de gastos têm grande chance de tomar calote. Para implementar sua agenda, terão de ganhar as eleições de 2018 ou praticar o velho e conhecido estelionato eleitoral.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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