OPINIÃO

O caso Valentina me lembrou por que saí do Twitter

23/10/2015 12:16 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Minha timeline não fala em outra coisa: homens postaram tweets sexualizando Valentina, participante do MasterChef Junior de apenas 12 anos. Como resposta, o think tank feminista Think Olga organizou uma campanha na qual mulheres contam qual foi a primeira situação de assédio por que passaram. O Twitter foi tomado de depoimentos de mulheres assediadas aos 9, 10, 11 anos. E aí uma série de piadinhas sobre os depoimentos passou a ser feita na rede social, incluindo uma de Roger, da banda Ultraje a Rigor. Saber de tudo isso me lembrou por que decidi sair do Twitter anos atrás e por que não pretendo voltar nunca mais.

O Twitter é como uma gigantesca 5a série B virtual, onde ABSOLUTAMENTE TUDO que acontece PRECISA virar piada. É uma competição para ver quem é o mais "engraçaralho" da "tchurma". Quanto mais "engraçaralho", mais popular. Todo mundo querendo ser o autor da próxima sacadinha que vai viralizar. E, assim como na 5a série, na maioria das vezes o alvo da piada é o coleguinha fora do padrão: o gordo, o gay, a mulher.

Pensando bem, o Twitter é ainda pior que a 5a série. Afinal, não se trata mais de crianças imaturas, com a crueldade que lhes é peculiar, mas sim de adultos agindo pela mesma lógica das crianças. Não sei como vocês aguentam ficar ali.

É claro que, às vezes, saem piadas ótimas no Twitter. Mas muita gente acha que humor se limita a "zoar" os outros. Ou seja: diminuir, ridicularizar ou humilhar o outro, para se sair superior na comparação com ele. E, olha, você vai me desculpar, mas se você acha que essa é a única forma de rir e fazer os outros rirem, você é muito limitado. Pobre cognitivamente. Pobre de referências culturais. E, acima de tudo, pobre de espírito.

Se alguém está falando de estupro, de assédio, de se sentir ameaçada por um adulto aos 10, 11, 12 anos de idade e você acha que isso é algo engraçado; ou acha que essa é uma excelente oportunidade para você aparecer e dar uma de bonzão com uma piada... Você não tem nada de bonzão. Você é um ser humano horrível. Insensível. Lamentável. Frio. Patético.

Eu já estou acostumada com misoginia. Muitas foram as vezes em que vi pessoas culparem a vítima em relatos de assédio e estupro. Fazendo piadinha sobre saia curta. Mas, quando se trata de crianças, espera-se que as pessoas tenham um pouco mais de sensibilidade, né? Pois é, nem assim. Assédio de crianças também é piada. Que mundo.

Se você não é pedófilo ou estuprador, mas faz piadinha botando panos quentes quando as pessoas reclamam de abusos... Meu amigo, você falhou enquanto ser humano tanto quanto. Você é o exército de reserva do machismo. Você é quem forma a base do sistema que gera a cultura do estupro.

Tô cansada de homens que dizem: "as feministas exageram! Não é todo homem que solta cantada nojenta na rua, não é todo homem que estupra, não é todo homem que assedia". Mas depois esses mesmos homens correm defender os outros que fazem. Correm botar panos quentes e passar a mão na cabeça deles, dizendo que não é bem assim. Não cometem a violência física e enchem a boca para dizer que não o fazem, mas são os primeiros a defender o clube do bolinha quando as mulheres reclamam das violências. Jamais chamam a atenção dos amigos quando estes estão sendo machistas. Então, não, querido, você não merece nenhuma medalha de homem bonzinho. Sabe o que é isso? Masculinidades subalternas defendendo o conceito de masculinidade hegemônica, mesmo que esta os oprima, em prol das benesses que o patriarcado lhes rende. R. W Connell atualíssima.

Já escrevi sobre isso antes, mas infelizmente tenho que me repetir. Se você acha que a zoeira "não tem limites", você não é um bonzão, você é um babaca. Tudo na vida tem limites. Só quem pode achar que algo na vida não tem limites é quem não está acostumado a ser repreendido. Não me surpreende que os zoeiros sem limites da Internet sejam, em sua maioria, meninos ou homens brancos e hetero de classe média/alta, privilegiados e criados a leite com pêra, com tudo na mãozinha e na boquinha.

Eles acham que a sua zoeira não têm limites muito provavelmente porque, no seu entorno, não há quem lhes bote limite para nada. Assim como os bullies da minha época de escola eram quase sempre os meninos brancos e hetero, filhos de quem mais tinha grana -- e só faziam o que faziam porque tinham certeza de que nada lhes aconteceria. Os professores testemunhavam o bullying diariamente e não faziam nada. Se os bulidos ousassem reclamar para o professor ou a diretoria, não só nenhuma providência seria tomada pelos adultos como o bullying se tornaria ainda pior.

(Não tenho a menor saudade dos tempos de escola. Desconfio um pouco de quem diz que tem. Desconfio muito de quem diz que foi a melhor época da sua vida)

Na cola deles, vêm meninas que aceitam ser zoadas ou reproduzem as piadas misóginas para serem "legais e descoladas". Para não serem "como as outras, fúteis e chatas". Basicamente, fazem isso para serem aceitas e desejadas, sem perceberem que não tem como ganhar se o mundo masculino é superior sempre. Você sempre será uma estrangeira nesse mundo, gata, teu visto pode ser cancelado a qualquer momento.

Sei do que estou falando, pois já fui desse tipinho. É muito comum. Ao perceber que a feminilidade estabelecida como padrão é demasiado restritiva e opressora, a moça resolve recusá-la. Só que em vez de cair no questionamento dessa feminilidade e na luta por sua destruição (ou seja: no feminismo), a mulher em questão não consegue romper com o pensamento binário e passa a querer pertencer ao outro lado da moeda, ao mundo dos homens. Nunca será.

Acho maravilhoso que existam mulheres com estômago para ficar no Twitter, fazendo campanhas como a #primeiroassédio e batendo boca com os zoeiros sem limites e as meninas que os apoiam para serem consideradas "mulheres não-chatas". Porque é preciso mesmo que alguém o faça. Mas eu não consigo. Porque é um trabalho de Sísifo, tão frustrante. Você aponta que a piada da pessoa é horrível e cruel. Ela responde te zoando. Você explica porque a zoeira dela tem que ter limite. Ela responde zoando. Qualquer coisa que você faça ou fale, a pessoa vai continuar zoando. É como falar uma porta, só que essa porta se acha sensacional.

PS : Muito se fala sobre um crescimento da misandria entre grupos feministas. Mas pegue este caso como exemplo: mulheres que foram apalpadas, assediadas, estupradas e humilhadas durante a infância e adolescência tomam coragem para falar sobre essas experiências dolorosas que as marcaram para a vida toda. E o que muitos homens fazem? Respondem com piadinha e escárnio. Me diz: como é que vocês querem que essas moças não se tornem misândricas?

Eu não acho que a misandria é o caminho, como já escrevi mil vezes em outros textos. Discordo muito. Mas, diante de coisas como essas, nossa, como eu entendo. Acho bastante compreensível essa reação de pegar raiva e nojo da categoria toda. Enquanto estratégia de transformação social, acho a maior furada do universo. Enquanto reação pessoal, entendo pacas.

Fica a dica, homens: se não querem misandria, melhorem. Revejam a misoginia de vocês -- porque, sim, vocês a têm. Vocês reproduzem e apoiam todo dia. Em vez de botar nas costas das mulheres a responsabilidade de lembrar que "poxa vida, mas não é todo homem", mostre que não é todo homem, então. Porque tá dificil. E estimulem os amigos de vocês a também melhorar.

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