OPINIÃO

É mesmo revolucionário informar-se só pelo Facebook?

16/10/2015 12:42 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
aol

Este texto é uma resposta a "Por que parei de assistir à televisão", de Gustavo Tanaka.

Faço o mesmo que Gustavo. Um tempo atrás, costumava ler vários jornais e portais de notícias diariamente. O hábito tinha duas finalidades: ser uma pessoa bem informada sobre o mundo e também porque tenho o jornalismo como profissão. Porém, passei a desapegar de querer saber TUDO o que está acontecendo no mundo. Percebi que não era necessariamente mais sabida sobre o mundo por consumir vorazmente o conteúdo da imprensa tradicional.

Não foi um processo que aconteceu da noite para o dia. Primeiro, comecei a me questionar sobre a isenção das informações que recebia. Quando você percebe que tudo é um recorte, que não existe informação "imparcial", é natural que desencane um pouco dos jornais.

Segundo, porque amadureci: à medida que envelhecemos, mais aprendemos que não é possível saber tudo. Ser "bem informado sobre o mundo" é uma impossibilidade, uma falácia. Terceiro, porque fui morar no exterior (na Hungria e na Holanda, para ser mais específica) e me dei conta de que pouco sabia sobre esses dois países, mesmo sendo uma ávida leitora do caderno internacional. Tem coisas que só a experiência vivida nos faz saber.

Hoje me informo majoritariamente pelo Facebook e os links postados pelos amigos. Basicamente, estou "bem informada" apenas sobre o que me interessa. E acho isso uma escolha bem válida. Somos todos alienados de alguma coisa, afinal.

Porém... Minha timeline do Facebook é formada, em sua maioria, de colegas jornalistas e acadêmicos que não compartilham figurinhas, boatos, correntes e se preocupam com a fonte das informações que postam. Nem todos têm uma timeline assim. A maioria, aliás, não tem. Não preciso começar a falar sobre a educação sofrível do Brasil e que mesmo alunos egressos de escolas consideradas top de linha apresentam péssimos níveis de compreensão e interpretação de textos, né?

Mesmo com uma timeline "bem selecionada" (sim eu sei que estou soando um bocado elitista e arrogante ao dizer isso), ainda assim, vira e mexe, vejo hoaxes, notícias do Sensacionalista sendo compartilhadas como se fossem verdadeiras e gente caindo no truque da URL alterada do G1. A chance de ser ludibriado se informando apenas pelo Facebook é grande, portanto.

Gustavo também diz que a imprensa tradicional muitas vezes visa nos causar medo. Bem, no Facebook não é muito diferente. As figurinhas boateiras que viralizam no Facebook querem nos assustar tanto quanto qualquer jornal quatrocentrão ou programa do Datena. Basta ver o que rolou na campanha eleitoral. Foram várias as mentiras espalhadas sobre todos os candidatos. Basta ver o que aconteceu com Fabiane.

Outra questão problemática é que estamos cada vez mais presos no cercadinho do tio Mark Zuckerberg, percebendo o mundo apenas através do filtro dos algoritmos dele. Há um tempo atrás, utilizávamos serviços de diversas empresas para publicar textos, vídeos, fotos, música, conversar com os amigos. Pouco a pouco, fomos largando esses outros sites e serviços para ficar apenas no Facebook. Tanto que já se fala até em morte da webpage. Falo mais disso em um vídeo.

Não há nada de revolucionário, libertador ou grandioso em tirar poder de grandes empresas locais de mídia para dá-lo a uma única empresa global de mídia. Querer que larguemos outras formas de produção e consumo de conteúdo e fiquemos só trancados no Facebook é exatamente o que o "Markinho" quer.

Gustavo diz que, quando quer se informar melhor sobre algo, ele sai do Facebook e vai aos portais de notícias. Mas como esses portais vão sobreviver no longo prazo, se nós apenas formos visitá-los esporadicamente? Eles já estão respirando por aparelhos há um bom tempo, como as demissões em massa nas redações (carinhosamente chamadas de "passaralhos" pelos jornalistas) têm mostrado. Na tentativa desesperada de sobreviver, jornalões centenários têm publicado listinhas de GIFs ao estilo Buzzfeed.

Por fim, queria deixar duas perguntas ao Gustavo. Assim, por curiosidade. Você tem conta no Netflix? Baixa seriados e filmes no Pirate Bay? É engraçado ver algumas pessoas (eu mesma inclusa) enchendo a boca para dizer que não assistem televisão, como se fossem seres avançados por isso. Mas não se dão conta de que assistem ao mesmo conteúdo, apenas por outros meios.

Quem tem o hábito de ver vídeos no YouTube também não está muito longe da lógica da televisão. Alguns dos autores dos canais mais famosos do YouTube enchem a boca para dizer que, na Internet, há mais liberdade para inovar no formato. Mas, basicamente, o que estão fazendo são cópias caseiras dos reality shows (vlogs mostrando o dia a dia do vlogger) e esquetes de humor com os mesmíssimos motes já usados à exaustão na televisão (homem que não abaixa a tampa do vaso, mulher que surta ao ver uma celulite nova e por aí vai). Talvez a única diferença substancial é que, no humor da Internet, seja permitido falar palavrões. Será que não estamos mesmo assistindo TV?

Noves fora, Gustavo (e eu) estamos apenas seguindo a boiada dos nossos tempos. Mas, por vezes, achamos que estamos fazendo algo diferente e extraordinário. Nada mais equivocado.

O que vocês acham? Como têm se informado?

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