OPINIÃO

Semana de Bowie, Beethoven e Wilson das Neves

10/02/2014 18:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Divulgação

Onde vamos?

A pergunta é simples, a resposta nem tanto/sempre. O bar da esquina é ótimo, mas que tal renunciar ao sacrilégio de não aproveitar o labirinto místico e saturado de bons programas que é a Pauliceia? Estreio hoje esse blog para tentar selecionar o fino do caos, e começamos cheios de coisa boa: essa semana tem Almodóvar, Nelson Rodrigues, Beckett, Truffaut e muito mais. Vamos!

Destaque da semana: David Bowie

Não teria como não destacar o Bowie nessa primeira postagem. Em cartaz até abril, a exposição do MIS é capaz de fazer chorar os mais apaixonados pelo camaleão do rock (como esta que vos escreve). Tem a letra escrita à mão de músicas como "Starman" e "Ziggy Stardust", roupas icônicas usadas por ele em videoclipes e shows, objetos de cena de "Labirinto" e até mugshot policial.

Como Bowie não atendeu ao celular quando liguei para fazer algumas perguntas para este então inexistente blog, reproduzo aqui trechinhos de entrevistas que fiz para matéria na Revista CULT em 2011.

O ingresso custa R$ 10, com entrada gratuita às terças. Se você ainda não foi, corre lá!

Como foi que David a pediu em casamento?

Angela Bowie, ex-mulher: No verão de 1969, o pai de David morreu de pneumonia. David perguntou ao meu pai se eu poderia ir à Inglaterra (eu tinha voltado ao Chipre, onde eu nasci e morava), visto que ele precisava de mim para administrar sua carreira, achar um jeito de finalizar o contrato com o produtor Ken Pitt, motivar a Mercury Records a promover seu single, etc etc. Então meu pai concordou e, após o funeral, eu achei um lugar para morarmos. A mãe de David estava inconsolável. Ela estava devastada pela perda do marido e então eu fiz tudo o que podia para consolá-la, e ela foi passar um tempo com meus pais no Chipre para se recuperar. Quando eu voltei para o Chipre, havia uma greve postal, então não soube do David por um tempo. Até que, finalmente, depois do Natal, em janeiro de 1970, ele mandou um cartão que dizia: "Neste ano vamos nos casar". Depois que li o cartão, o telefone da casa dos meus pais em Chipre tocou e era David. Ele ligou e tocou "Prettiest Star" para mim.

Você foi o primeiro a ouvir o primeiro hit de Bowie, "Space Oddity"?

Vernon Dewhurst, que morou com Bowie nos anos 1960 - Imagino que fui a primeira pessoa a ouvir "Space Oddity", no apartamento de David no último andar em Clareville Grove. Acho que a memória mais clara que tenho é a de David me mostrando uma coisinha chamada "stylophone", que parecia um brinquedo saído de um biscoito de natal, e tocando algumas notas da música. Devo dizer que pensei que ele estivesse brincando quando disse que iria incorporar aquilo à música, parecia mais um truque do que qualquer outra coisa. Mas... como se viu, eu estava errado, e aquilo funcionou muito bem na versão final.

Qual foi a maior contribuição de Bowie para a revolução do conceito de sexualidade?

Paul Trynka, biógrafo de Bowie - Ele trouxe a androginia e a bissexualidade para a luz do dia, para o mainstream. E ele era destemido em relação a isso, enquanto outros músicos, como Freddie Mercury e Elton John, ficaram no armário. Ele era incrivelmente confiante, e os alter egos permitiam-lhe correr riscos, ultrapassar limites. E, se desse errado, ele podia descartar tudo como uma grande piada.

Agenda da semana

A nona sinfonia de Beethoven, última que compôs e provavelmente a mais conhecida (veja o emocionante flash mob numa praça espanhola no vídeo abaixo), tem interpretação da Osesp nos dias 13 e 14 por módicos R$ 15 na Sala São Paulo. Programão.

Wilson das Neves, personal baterista do Chico Buarque, se apresenta no Sesc Santos no dia 14, de R$ 2 a 10. Vale a viagem! Para quem fica, no mesmo dia tem Tulipa Ruiz no Sesc Bom Retiro e Otto no Sesc Vila Mariana, com ingressos de R$ 4,80 a 32.

A banda gaúcha Apanhador Só faz apresentação única e gratuita no Centro Cultural da Juventude no dia 15.

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Indicada a três Prêmios Shell (direção, texto e cenário), prêmio de maior prestígio do teatro nacional, a peça "Conselho de Classe" comemora os 25 anos da Cia dos Atores, que tem a atriz Drica Moraes como uma das fundadoras. Nos dias 13, 14, 15 e 16 no Sesc Belenzinho, de R$ 5 a 25.

Da novela da Globo ao Nobel de Literatura, Nathalia Timberg estrela na peça "Tríptico Samuel Beckett", dirigida por Roberto Alvim, nos dias 10, 15 e 16 no CCBB-SP, por R$ 10.

Com direção de Antunes Filho, o clássico rodrigueano "Toda Nudez Será Castigada" tem encenação no dia 13, no Sesc Consolação, de R$ 6 a 30. Inspirada em Clarice Lispector, a peça "Prazer" está em cartaz nos dias 13, 14 e 15 no Sesc Santo Amaro, de R$ 3,20 a 16.

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Dois filmes nacionais bastante elogiados no ano passado fazem parte de mostra gratuita no Cinusp: "Educação Sentimental", do Julio Bressane, no dia 12, e "Tatuagem", de Hilton Lacerda, no dia 14. Na Biblioteca Roberto Santos, um clássico do cinema marginal: "O bandido da luz vermelha", no dia 14, de graça. No mesmo dia, o documentário "Paulinho da Viola - meu tempo é hoje" tem exibição ao ar livre na Praça Rotary.

A Cinemateca Brasileira inaugura esta semana uma excelente mostra de clássicos, entre eles "Crepúsculo dos Deuses", indicado a 11 Oscars, no dia 13, "Magnólia", com o recém falecido Philip Seymour Hoffman, no dia 15, e "Que fiz eu para merecer isto", de Almodóvar, no dia 16. A entrada é franca.

Todos os filmes de James Dean podem ser vistos na retrospectiva do ator no CCBB-SP. Destaque para "Um lugar ao sol" e "Assim caminha a humanidade", ambos no dia 16. Os dois filmes são vencedores de Oscars e têm também Elizabeth Taylor em cena. O ingresso custa R$ 4.

Outro vencedor de Oscars -- seis, incluindo Melhor Filme -- é "Sinfonia de Paris", em cartaz na Biblioteca Viriato Corrêa no dia 15. O mesmo local exibe "Os excêntricos Tenembaums", de Wes Anderson, no dia anterior, 14. Os ingressos são gratuitos.

O clássico de Yasujiro Ozu, "Era uma vez em Tóquio", tem sessões nos dias 14, 15 e 16 no Cinesesc, de R$ 4 a 20; e o de John Ford, "As vinhas da Ira", no dia 11 no Sesc Santana, gratuitamente. A obra-prima de Truffaut, "Os incompreendidos", tem exibição com entrada franca no dia 15 no Sesc Vila Mariana.

Essa é pra Sheherazade: o Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca sedia o Cine Direitos Humanos, gratuito. No dia 15, o documentário "À margem da imagem" é uma boa pedida.