OPINIÃO

O balé das marcas em busca de gol

04/04/2014 10:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
Reprodução/Youtube

É tempo de o cotidiano ser invadido por comerciais em ritmo grandiloquente para enaltecer o espetáculo proporcionado por 22 marmanjos correndo atrás de uma bola. Sim, sei, os bem sucedidos na tarefa ganham milhões no período fértil de disputa. Claro que não sou insensível e reconheço beleza e talento naquele balé de pernas. Mas que vai cansar o excesso de apelos com referências à Copa do Mundo, ah isso vai. Seja de forma direta ou indireta ao megaevento entre os que não são patrocinadores oficiais, toda marca quer tirar sua lasquinha desse momento "prá frente Brasil". Então, haja publicidade recheada com apelos emotivos, além, lógico, da infinidade de clichês habituais sobre o tema.

Deixando de lado as campanhas menos originais, que já há algumas semanas martelam a preferência nacional pelas chuteiras, duas marcas globais de refrigerante entram em campo em busca de um golaço. De um lado, a detentora dos direitos da FIFA de anunciar, a Coca-Cola humanizou sua mensagem publicitária, produzindo um comercial com a história real de quatro times amadores dos cafundós do mundão, que ganharam uma vinda ao Rio de Janeiro para carregar a bandeira dos times no jogo Alemanha versus Portugal, em 16 de junho.

De outro, a Pepsi, que não pode fazer referência à Copa ou qualquer símbolo do evento, fez um delicioso comercial rodado na paisagem carioca em que mostra Stony, figura festejado no âmbito da musica digital, arrancado som de vários objetos morro abaixo enquanto cruza com craques como Lionel Messi, Robin van Persie, David Luiz, Sergio Ramos e Sergio Aguero. Ninguém falou em Copa, mas precisava? Para completar o clima alto astral, apoia-se na música Heroes, clássico de David Bowie e na bela voz de Janelle Monáe, que também aparece no filme. Um gol de placa. Criado pela agência 180 de Los Angeles, tem por tema "O agora é você que faz", o que pode até soar irônico, afinal "agora" o que está se fazendo é a Copa do Mundo, não é mesmo?

O objetivo da concorrente Coca é convidar o mundo a celebrar o futebol dando uma força ao social. Bonito. Da safra do escritório da badalada agência butique Wieden+Kennedy, o comercial enaltece a paixão pelo bola que não enfraquece nem mesmo sob condições precárias para uma pelada. Recebeu a emotiva assinatura: "One World, One Game". Os times escolhidos para vir ao Brasil são da Palestina, no conflituoso Oriente Médio; de uma região do Japão atingida por tsunami; do Leste Europeu; e de uma comunidade perdida na Amazônia. Ninguém fala a mesma língua, mas todos chutam a gol.

As campanhas tem se esmerado em aproveitar os atletas em especial as que não compraram as milionárias cotas da FIFA. Esse jogadores, disputados a peso de ouro para se exibirem fora do campo nos intervalos comerciais, aproveitam para engordar ainda mais os seus cofrinhos. Não me espanta se na próxima rodada do campeonato cláusulas draconianas os impeçam de vender seus corpinhos para a propaganda. O futebol mobiliza milhões e faz as marcas se digladiarem para reter a atenção dos consumidores, além de alimentar fortunas de uma infinidade de parasitas que vivem no entorno do esporte. Nessa temporada, a sorte está lançada e os atletas estão faturando, afinal, pelo menos, eles suam as camisas em campo.

(Texto publicado originalmente no blog Marili Ribeiro)