OPINIÃO

Será que não devo mesmo falar com estranhos?

02/05/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
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Quem nunca encontrou no ônibus, metrô ou até mesmo em uma praça alguém que você nunca viu e de repente começa a conversar? Aí a conversa passa a ser um desabafo. Alguma coisa que a incomoda, ou algo que deu errado, ou conta a perda de alguém ou conta a sua triste vida.

Comigo isso já aconteceu muitas vezes. Escutava, às vezes comentava, dava conselhos ou consolava. A pessoa ia embora e você nunca mais a via. Imaginava o quão sozinha seria essa pessoa para desabafar com uma estranha.

O pior é que eu também sou assim. Não sou tão solitária, tenho meus amigos e amigas, meus filhos, irmão, pai, mas eu sinto necessidade de desabafar a todo instante, escutar a opinião. Acho até que me torno uma pessoa chata.

Não quero perder meus amigos. Ninguém aguenta alguém só reclamando, por isso começo a contar o que me deixa triste, agoniada, ou as doenças que me afligem para pessoas que mal conheço. Por não conhecer e por ser imparcial, quero saber o que pensa sobre o que desabafo.

Nem sempre a pessoa que escolhemos para desabafar é a certa. Você pode não conhecê-la, mas ela pode te conhecer. Na vontade de contar suas tristezas e suas mágoas, para não explodir, não temos critérios na escolha e isso pode ser constrangedor.

Quando algum conhecido comum vem e fala que "o bom seria se guardasse para você as suas infelicidades e doenças, pois ninguém é obrigado a ouvir suas lamentações" e que "as pessoas gostam de se aproximar das que tem alto astral" você pensa: por que fui falar com uma estranha? Seria mesmo preciso?

Portanto, meus amigos e minhas amigas, cuidado com quem você anda desabafando. Ninguém é confiável. Só seus amigos mesmo são confiáveis e depois, se eles são mesmos amigos, é claro que vão te ouvir sem achar você chata. O máximo que você pode ouvir é: "Como você está chata com essa história de novo!". Isso sim é amigo. Diz na cara o que você precisa ouvir.