OPINIÃO

Eu aprendi que temos que 'andar juntas' para combater o assédio

27/11/2015 10:45 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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Sobre o meu primeiro assédio, eu não saberia dizer. Sinceramente, foram tantos. Sempre tentei ignorar. Mesmo hoje, já mulher e consciente das opressões e da importância de soltar a palavra, muitas vezes me pego quieta, querendo esquecer. Como aquele dia que eu sorri pra um senhor no trabalho e disse bom dia, e ele me chamou de "gostosa". Assim mesmo, numa sala cheia, para qualquer um ouvir. Me senti humilhada.

Ou aquele dia, que fui tentar pegar uma bebida no bar e me apertaram forte contra o balcão. Senti uma coisa encostando na minha bunda. A festa nem tava tão cheia. Será que eu estou ficando louca? Não é possível que alguém seja capaz disso. Olhei pra trás sem acreditar. Mesmo sem certeza, saí correndo pra casa e entrei num banho. Fui dormir ainda com aquela sensação de nojo e vergonha.

Cada palavra das meninas sobre seus primeiros assédios machuca, machuca porque eu me vejo em cada história daquela. Eu sinto a mão passando em mim aos sete anos, escuto as palavras dele no meu ouvido aos doze, tenho medo de sair de short aos dezesseis. E até hoje, sem saber, tinha vergonha.

Não é o tipo de coisa que se fala, que se faz cena. Quem acreditaria em mim? Quem deixaria de curtir sua festa para ajudar uma menina gritando com um cara, sei lá por quê? É mais fácil ficar no canto e curtir sua sexta-feira à noite.

Mas o que eu descobri com esses tristes e corajosos relatos é que não estou sozinha. Eu não sabia o tanto que tinha vergonha, que tinha medo. Até hoje.

A única coisa que me leva, me desembrulha o estômago, é a vontade de que nunca mais, nenhuma pessoa passe por uma covardia dessas. Quero conversar com minhas amigas, filhas, alunas, vizinhas: você não está imaginando coisas e ele provavelmente passou a mão na sua bunda; a culpa não é sua; você não é suja, não tenha vergonha; grite.

A história de cada menina, que é minha também, entrou como agulha em mim e aqui ficou. A minha vontade era de abraçar cada uma delas, porque me deram a segurança de não me silenciar e a certeza de que não estamos sozinhas. Andamos juntas.

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