OPINIÃO

As vítimas do ecocídio do Rio Doce estão abandonadas e precisam ter seus direitos garantidos

30/12/2015 11:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
MARIANA TOPFSTEDT/SIGMAPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Quase dois meses depois da catástrofe ambiental no Rio Doce, do crime ambiental cometido pelas empresas Vale e BHP, e com a responsabilidade do poder público brasileiro por não ter cumprido seu papel fiscalizador, muitas vítimas de Mariana continuam sem saber o que será de suas vidas, sentem-se sozinhas e esquecidas pelo resto do País.

Uma postagem da organização Últimos Refúgios trouxe uma atualização importante e preocupante sobre a situação na região. O relato e as fotos ajudam a termos alguma dimensão de uma situação difícil até mesmo de compreender, tamanha destruição.

Além da falta de água e do enorme risco de contaminação e proliferação de doenças, além dos milhares de desabrigados que ainda não têm uma solução definitiva, milhares de pessoas perderam sua fonte de renda, seu meio de vida, de forma direta ou indireta.

Pescadores, artesãos que fabricavam ferramentas para pesca, produtores rurais, indígenas, professores... Essas pessoas ficarão abandonadas à própria sorte?

Será mesmo que a presidenta da República acredita que liberar o fundo de garantia será suficiente para remediar a situação em que se encontram essas famílias e comunidades?

Como já foi bastante comentado, parece que poucos se deram conta da gravidade da catástrofe ambiental que está matando o Rio Doce e causando um enorme dano à vida marinha.

Uma consultoria americana de gestão de riscos relativos à construção pesada estimou que essa catástrofe bateu três recordes mundiais. Foi o pior desastre do gênero e o maior vazamento de lama já registrado. Outros especialistas já afirmaram que essa catástrofe pode se comparar à Fukushima.

No caso de Fukushima, milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas por conta da radiação. No caso do Rio Doce, até quando as vítimas receberão abastecimento de água engarrafada e terão uma solução para seguir suas vidas postergada por medidas paliativas?

As vítimas do Rio Doce devem ser reconhecidas pelo que são: deslocadas internas, pessoas que tiveram e terão que deixar suas casas pela simples impossibilidade de viverem em suas terras e com os meios de subsistência que tinham antes.

Devem ter garantidos seus direitos de receberem abrigo e meios para recomeçarem suas vidas, seu direito a um meio ambiente saudável, à água, à saúde, educação, moradia e renda.

Obviamente, há perdas irreparáveis para essas pessoas e comunidades, dos seus modos de vida e cultura, que tinham relação com sua terra, seu entorno, sua paisagem.

E o restante da natureza, dos seres vivos? Infelizmente não existe remediação e reparação para o assassinato do Rio Doce, para esse verdadeiro ecocídio.

Nessa situação tão triste e desesperadora, a declaração da presidenta da República, de que o rio será recuperado "inclusive tornando-o melhor do que era antes", passa de qualquer limite do absurdo e até mesmo da crueldade, impossível de aceitar.

E o que a presidenta demonstra não é apenas a sua falta de articulação para falar em público e ao público, mas também um discurso muito típico da cultura atualmente dominante, em que temos a ilusão extremamente imatura de que o ser humano pode controlar e manipular a natureza ao seu bel prazer.

Esse pensamento que está trazendo consequências cada vez mais irreversíveis na atual era do Antropoceno.

As vítimas do ecocídio do Rio Doce não podem ser esquecidas em meio ao mar de calamidades e escândalos que tomam conta do País e devem ter sua situação e seus direitos reconhecidos, sem rodeios e meias palavras.

À natureza e aos seres vivos que morreram e morrerão nesse ecocídio, podemos apenas ter essa situação como aprendizado e como alerta para esse modelo de desenvolvimento que destrói a natureza, a vida e a nós mesmos.

Podemos lutar contra todas as manipulações e ilusões dessa sociedade do consumismo e da descartabilidade. Como foi comentado durante a COP de Paris, não temos outro planeta para jogar este fora.

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