OPINIÃO

Sugestões para grandes crises de propósito

30/03/2015 18:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
recombiner/Flickr
20 x 22 cm hand-made collage

Um belo dia você acorda incomodado com o trabalho, ou com a vida, ou com alguma coisa qualquer que não sabe nem dizer. No dia seguinte a sensação se repete, e no próximo também. De repente você percebe: preciso de propósito na minha vida. Quero fazer algo que dê mais sentido à minha existência e à dos outros. Me autorrealizar. Se já aconteceu com você, tudo bem, tem acontecido com muita gente.

O despertar desse sentimento é geracional. Muitos somos filhos de uma geração pós-guerra, uma geração de opções limitadas, em que se prezou pela busca de estabilidade através de posições fixas, sejam elas em grandes empresas, ou através de carreiras claramente definidas, como medicina, direito e administração. Os dos filhos desses pais, nascidos entre 1978 e 1990, já estão diferentes: mudamos de emprego muitas vezes, temos chapéus diferentes em projetos variados - querendo fazer tudo ao mesmo tempo e, graças também a estabilidade econômica e à internet, ousamos mais. A Galileu explica em detalhes.

Mas somos também uma geração que está vendo e vivendo as consequências de um desgaste do planeta sem precedentes, culpa nossa. Os resultados dessa depredação e desigualdade geram também angústia e a sensação de que precisamos fazer algo. E podemos.

Trabalho no terceiro setor e, com frequência, sou convidada para um café com tal constatação e a pergunta: por onde começar? Seguem aqui alguns caminhos:

A primeira premissa para deixar de lado é acreditar que apenas pelo terceiro setor se faz mudança. Existem alternativas também dentro do setor corporativo, algumas delas bastante novas, que podem gerar transformação.

Uma opção é trabalhar na área de responsabilidade social de uma empresa. O maior grupo que discute a responsabilidade social no Brasil - que é quando uma empresa investe recurso próprio para se tornar mais sustentável chama -se Instituto Ethos. As organizações que fazem parte devem estar dispostas a discutir sua cadeia de valor, corrupção, trabalho escravo e outros temas. No site dá para ver a lista de associadas.

Outra opção é buscar uma vaga em uma organização que faça investimento social, o repasse voluntário e sistemático de recursos privados para o bem comum. Empresas podem fazer investimento social via institutos e fundações - como Fundação Telefônica, Instituto C&A ou via própria organização, como é o caso da Microsoft com seus projetos com jovens e tecnologia, ou o Santander, com projetos de garantia de direitos, inclusão econômica e educação.

Muitas famílias também têm seus institutos e fundações como Instituto Arapyaú, de desenvolvimento sustentável, a Fundação Lemann para educação e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, com o tema da primeira infância. Ou mesmo institutos e fundações independentes, que não tem apenas uma mantenedora e investem em projetos, como a Fundação Ford e o Fundo Brasil de Direitos Humanos (esse vídeo ajuda a entender). O grupo dos investidores sociais do Brasil, que é onde trabalho, chama-se GIFE e no site existe uma parte para vagas do setor. Em 2015 o GIFE completa 20 anos, data que se mistura com a de desenvolvimento do próprio setor no Brasil.

Existem também os negócios sociais, uma opção relativamente nova por aqui, mas que tem crescido bastante. A organização visa lucro, mas também a transformação social, com soluções para a população de baixa renda. Para isso, precisam gerar impacto social, com retorno financeiro. São empresas que já tem em seu DNA a busca do propósito para além do lucro. Alguns exemplos são a plataforma para ajudar o aluno no Enem chamada Geekie, a Maria Farinha filmes e o Vivenda, para reformas de casas a baixo custo. Para conhecer outras, acesse o site da Ashoka, Neest ou da Artemisia, uma aceleradora cujo mote é "entre ganhar dinheiro e fazer a diferença no mundo, fique com os dois" (lei mais).

Mais novo do que os negócios sociais, é o Sistema B. Este é um "selo" entregue a empresas que não são necessariamente negócios sociais, mas que buscam redefinir o conceito de negócio, e o lema é "não somente ser as melhores do mundo, mas também ser as melhores para o mundo".

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Entre as ações para se tornar uma empresa B, é preciso modificar o estatuto da empresa considerando os trabalhadores, a comunidade e o meio ambiente de forma vinculativa na tomada de decisões. Eles acabam de firmar uma parceira com a 99jobs, e por lá vão começar a aparecer vagas relacionadas.

Para a angústia não aumentar, e o desâmino tomar conta, é sempre bacana circular: aproveitar eventos abertos dessas organizações, conhecer gente, se informar (até pelo Facebook delas).

E por fim, para quem quer ajudar o outro ou o mundo, mas não integralmente, há sempre a opção de voluntariar-se , em troca de muitos pontos kármicos.