OPINIÃO

Precisamos quebrar o silêncio... Falando um pouco sobre a morte

13/01/2016 19:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Paul Vozdic via Getty Images
Doctor Holds Old Woman's Hand

O luto tem muito de doremsilêncio.

Não sou especialista em religiões e cultura. Mas desconfio que esse silêncio tem muito a ver com a forma que a nossa sociedade construiu e constrói a sua própria narrativa sobre a morte. Um enredo que mistura tabu - um tema proibido na conversa do jantar-, com um tipo de liturgia fúnebre- corpos vivos envoltos em roupas negras de luto, trocando palavras de "meus pêsames"-, agregando-se à receita um elemento mais contemporâneo: a medicalização desesperada de uma sobrevida artificial - com UTI, respiração por aparelhos e morfina.

Meu avô morreu há um ano. Com 93 anos. O "véio tinha uma paura da morte", dizia minha avó, quando era viva. E que não tinha medo de nada. Depois de 30 dias de hospital, mais da metade na UTI, ele foi maior que o medo. E morreu, em uma das madrugadas quentes do janeiro paulistano.

Meu avô teve duas vidas. Ele foi duas vezes.

Na primeira, o velho Mazini foi sem estudo, mas com muito trabalho na enxada e no roçado do cafezal. Na minha memória, a infância no sítio tem cheiro de café fresco, com o grão torrado no forno à lenha. Ele foi, também, porteiro de prédio na cidade grande. Foi, ainda, torcedor do São Paulo, e xingava baixinho quando o Corinthians ganhava (para alegria de minha avó, que o atazanava por horas). Eu suspeito até que, dentre muitas conjugações sobre ser que ele fez em primeira pessoa, no final, ele foi feliz.

Na segunda, ele foi para o hospital. Ele foi para a sonda e para a intubação. Foi para o Frontal e para um monte de remédios que eu não saberia mais chamar pelo nome. Ele foi para o delírio e para a dor. Em muitas de suas idas, ele acabou tendo essa segunda vida, em que nem o café, nem o sítio e nem o futebol faziam sentido.

É necessário romper o silêncio que ronda a morte, porque precisamos falar sobre ela. O tema é, contudo, desagradável, na mesma medida que é necessário.

Nós não conseguimos falar sobre a morte, porque temos medo e não gostamos nem de pensar nela. Nem na nossa, nem na de quem amamos. E não é que a morte seja uma novidade. Na verdade, ela é mais velha do que Deus. Pelo menos para uma ateia convicta, para quem "O Homem" inventou Deus, porque queria ser imortal.

A novidade não é, portanto, a morte em si, que vem ocupando largo espaço na pauta das religiões, poesias e prosas. Mas essa nova segunda vida, que nós criamos. E que precisamos meditar um pouco melhor sobre o que faremos com ela e qual é seu sentido na nossa existência.

Essa segunda vida, de corpos e mentes inertes, é, antes de tudo, uma força que movimenta muito dinheiro (para hospitais, médicos, indústria farmacêutica e convênio médio, por exemplo). E, embora possa ser vazia de significados, não conseguimos prescindir dela, por nos fiarmos à esperança de que ela devolverá a outra vida, a primeira.

Nessa zona fronteiriça entre vida e morte é que mora a pergunta fundamental: existe vida onde a morte apenas não se faz pela ação de um conjunto de procedimentos artificiais e (muitas vezes) sabidamente inúteis? O que estamos garantindo quando aplicamos enormes esforços de desenvolvimento de tecnologias sociais para construir uma segunda vida de dor e sofrimento?

Lembro, no embaralhado das minhas memórias, de haver uma discussão sobre a consulta, feita pelo hospital aos familiares, acerca da utilização de recursos como intubação, quando sabidamente não seria possível recuperar a vida do paciente. Em todas as vezes que se mostrou necessário, contudo, o hospital optou pelo procedimento, independente da opinião de quem quer que seja. Segundo uma médica me disse uma vez, por mais que um profissional discorde da realização desse procedimento, acaba por realizá-lo pois, independente da autorização de familiares, há um medo constante da classe médica de ter suas decisões questionadas, o que poderia levar a responder um processo por homicídio.

Também não sou especialista em medicina. Entretanto, em uma rápida consulta nas redes sociais, descobri que houve uma Resolução do Conselho Federal de Medicina, editada em 2006, que permitia ao médico ou à medica, em fase terminal de doenças graves e/ou incuráveis, interromper tratamentos que prolongassem a vida, desde que fosse essa a vontade do paciente ou a de seu(sua) representante. Ainda segundo minha rápida consulta, essa decisão foi suspensa pela Justiça.

Estranhamente, essa discussão, que me parece tão central para nossa compreensão de vida e morte, e que está (ou esteve) em discussão em todas as famílias que eu conheço, não está nas nossas conversas do cotidiano. Será que não deveríamos estar debatendo intensamente o que achamos dessa Resolução e da decisão da Justiça?

Outro ponto fundamental, sobre o qual muito se cala, diz respeito ao cuidado. Quando as pessoas envelhecem e adoecem, quem cuida delas? Em geral, é esperado que haja uma pessoa na família, geralmente uma mulher, que assuma, um pouco mais do que todo mundo, essas atividades de cuidado.

Com o envelhecimento da população e com a nossa obsessão por uma morte que nunca se anuncie, quais são os arranjos que estamos prevendo para responder por essas demandas de cuidado? Qual é o papel das famílias, do mercado e do Estado nessa equação que não fecha, entre as necessidades de quem é cuidado e a disponibilidade de quem cuida? Com o aumento de famílias unipessoais ou de pessoas mais velhas que não possuem familiares e amigos próximos para exercer esses cuidados, quem deve fazê-lo?

Há, ainda, um conjunto de questões, menos tangíveis, que despontam nesse (re)descobrir da morte: Que vida vale a pena viver e que morte é digna de se morrer? A vida deve ser vivida a qualquer custo? O quanto nós, que vivemos, podemos decidir sobre quando e como morremos?

Quando meu avô faleceu, nós desconfiávamos que aquela noite seria, de fato, a sua última. E sabíamos que o "véio tinha uma paura da morte", como zombava minha avó, que morreu antes dele, também na UTI de um hospital. Nós podíamos ter segurado a mão dele, bem forte, para garantir-lhe uma passagem serena. Sabe-se lá para onde. Mas a norma do hospital dizia que a UTI só aceitava visita até às 20.30. E ele teve que fazer tudo isso sozinho, após o horário regulamentar de visitas. Ele encarou o seu medo sozinho. Porque essa é a morte da vida que criamos, segundo as regras hospitalares e a nossa narrativa social sobre a morte. Independentemente do que pensemos sobre isso.

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