OPINIÃO

O amor para as mulheres que vivem em territórios proibidos: minha história de Hipólita

12/08/2015 15:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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Um dia desses perdido nos anos, estava conversando com um amigo, e ele se deparou com um segredo meu. A minha secreta obsessão por Hipólita. Curioso, ele insistiu para que eu contasse de onde, afinal, eu a conhecia. Vacilei. Disse que de um filme sobre a Violeta Parra. Ele tinha visto o filme e não conseguiu entender a relação. Achou que tinha perdido alguma cena do filme. Eu, rapidamente, desconversei.

Se fosse responder agora, diria que eu conheço Hipólita das mulheres. De todas as mulheres que, ao ingressarem em territórios proibidos, tiveram que negar aquilo que seria o seu eu feminino. Mas, que, ao fazerem isso, acabaram amaldiçoadas pelo enigma de serem uma outra mulher que ainda não encontrou a sua narrativa. O seu novo eu. Dupla maldição, já que, certas de terem aniquilado o seu eu feminino, viram-se terrivelmente traídas por essa mulher que acreditavam ter sufocado. E pela sina do amor que cabia a essa mulher.

Violeta Parra teve em uma dor de amor seu impulso para o salto definitivo rumo ao abismo que sempre lhe acompanhara. A verdade, então, é que não mentira, quando dizia a meu amigo que foi assim que conheci Hipólita. Porque, saindo do cinema, me vi pensando o quanto me intrigava que mulheres tão extraordinárias pudessem ter na feminilidade negada uma espécie de calcanhar de Aquiles. Comecei a pesquisar histórias de mulheres, reais ou não. E, falando em Aquiles, descobri, nos escombros da Grécia antiga, essa mulher chamada Hipólita. Assim como descobri e descubro, até hoje, outras Hipólitas, com outros nomes e origens, mas a mesma maldição.

Eu costumo dizer que Hipólita é a minha tatuagem escondida, ainda que seja, contraditoriamente, a mais visível. Mas essa não é uma história sobre uma tatuagem. Ou é, na verdade. Para mim, a Hipólita sempre foi um mito, uma maldição e uma redenção. Uma alegoria dessa estranheza de ser mulher e negar-se ao destino prometido.

São muitas as versões sobre a sua história. Busquei em inúmeros livros de mitologia conhecê-la melhor, mas sua existência mítica apenas aparece inscrita na história de outros. De grandes heróis gregos. De grandes heróis homens e gregos. Então, eu não achei que ela se importaria se eu a reescrevesse, para ter uma "Minha história de Hipólita". E que eu pudesse reescrever e meditar sobre ela muitas vezes. E, que sabe, compartilhar com outras mulheres, tentando entender essa maldição que é também enigma.

Hipólita era uma brava guerreira amazonas. Mas não uma dentre elas. Hipólita era a rainha das amazonas, mulheres de guerra que abominavam os homens. Quando pequena, ao ser confrontada com sua feminilidade, Hipólita não encontrou a mulher que queriam que ela fosse, mas uma outra, que não tinha sua razão de ser na maternidade ou no casamento. Esse desencontro entre o conhecido do feminino e o desconhecido de sua essência foi o entre-lugar que constou na sua certidão de nascimento. Não na do dia que nasceu. Mas o que renasceu.

Sua negação do feminino não se fez, contudo, de forma descuidada ou inconsciente. Assim como a primeira menstruação das meninas era ritualizada como um batismo de entrada no mundo feminino, Hipólita decidiu que seu ingresso no território proibido das guerras e aventuras também teria seu rito de renascimento. Munida de uma adaga, extirpou um de seus seios. Nesse dia, nasceu Hipólita, a rainha das amazonas. E morreu a outra Hipólita, a que ela havia sido destinada a ser.

Em um certo dia, contudo, seu caminho cruzou com o de Hércules. Um dos 12 trabalhos do herói era justamente angariar o cinturão sagrado da rainha Hipólita. Conhecedor da bravura da amazona, mas, também de sua controvertida feminilidade, o mais famoso semideus grego ousou seduzi-la.

Hércules convenceu Hipólita que, por ser tão guerreiro quanto ela, era também um companheiro. Ele, assim como ela, conhecia os horrores da guerra e as emoções dos combates. Era um outro amor que ele oferecia. Ombro a ombro rumo ao desconhecido. A cumplicidade do amor de dois iguais.

Mergulhada em suas contradições, Hipólita apaixonou-se por ele. E. depois de uma noite interminável, ela tirou o cinturão. Mas, no outro dia, quanto acordou, Hipólita chorou uma dupla ausência. Não encontrou nem Hércules, e nem o cinturão.

Pela primeira vez desde que renascera, Hipólita chorou. E sua dor era mais velha do que Gaia. Hipólita tinha encontrado a mulher de quem fugira. E, olhando-a de frente, não pôde encarar o horror do que via. Nem encontrar os resquícios daquilo que achava que tinha se transformado. Ao fim do dia, Hipólita tinha se suicidado.

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