OPINIÃO

Minha verdadeira história com os skatistas de São Paulo

28/08/2015 18:33 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO

Poucas coisas são tão interessantes como as cidades. Cantadas em prosa e verso por músic@s populares, jovens do hip hop e bambas do samba. Analisadas com rigor científico por urbanistas, engenheir@s, juristas e outros tantos doutos. E experimentadas por milhares de pessoas, cotidianamente.

Só a cidade de São Paulo desperta e se recolhe, todo dia, com mais de 11 milhões de testemunhas. O que significa mais de 11 milhões de biografias e mais muitos milhões de "causos" e histórias. Isso sem contar os tipos que não têm CPF, mas que são entidades urbanas. Morador de rua, ciclistas, trabalhadoras domésticas, rappers, prostitutas.

É personagem que não acaba nunca.

E essa é a minha história sobre a cidade de São Paulo. Mais precisamente, sobre o Centro.

É a história também de um desses tipos: @s skatistas. Umas figuras que circulam por aí, em cima de quatro rodinhas, com boné e roupa colorida. E com muita velocidade. E que quase te atropelam no meio da calçada.

Era assim, pelo menos, que eu via @s skatistas quando el@s surgiram na minha cidade e na minha história.

Quando começaram a ganhar as ruas, eram uns moleques magricelos que cruzavam o meu destino, no caminho do ponto de ônibus na Avenida Paulista.

Vinham correndo e saltando, fazendo um flip, um glind e colocando a vida de nós, cidadãs e cidadãos de bem, em risco.

Uma noite, um moleque desses quase decepou meu dedinho do pé. Ou pelo menos foi o que eu achei que poderia ter acontecido. Não tive dúvidas. Gritei. Xinguei.

Ele continuou correndo, mas me olhou rapidamente, na dúvida se sentia culpa ou adrenalina.

Uma senhora anônima se solidarizou. Falou que eu tinha razão. Que eram uns marginais. O conforto de me sentir apoiada foi interrompido pelo meu alerta mental de perigo.

A luz vermelha do meu alerta aciona quando estou cruzando algum limite perigoso. Algo que poderia me tirar do time dos 13% que são contra a redução da maioridade penal e me colocar no grupo dos 87%, por exemplo. Mas, naquele momento, não tive dúvidas. Eram pequenos delinquentes.

Dessa cena para os próximos capítulos passaram cerca de três anos. Quando voltei a morar em São Paulo, descobri que não era mais o menino de boné. Eram centenas e milhares.

Ainda havia os jovens magricelos, mas também moças descoladas, senhores, casais e até criancinhas fofas. O magricelo e suas rodinhas tinham ganhado a guerra contra mim e a senhora anônima.

E como se não bastasse ter que admitir a derrota, ainda fui morar no centro de São Paulo. Perto da Praça Roosevelt. Ou seja, me tornei vizinha dess@s...skatistas!

Nos relacionamentos, contudo, não há nada como um dia depois do outro. E eis que um domingo de sol aconteceu. Eu, andando de bicicleta, e a minha correia soltou.

Quando já estava coberta de graxa até a ponta da orelha, notei que um exército me cercava. Um exército de skatistas!

Armados de ferramentas coloridas, queriam saber se eu precisava de ajuda. Se estava tudo bem.

Deixei claro que eu era uma mulher moderna e que sabia resolver os meus problemas. Mas começamos a conversar. E descobri que eles conheciam cada calçada, cada irregularidade do pavimento, cada asfalto machucado...

Fiquei encantada. Nos despedimos efusivamente. Eu tinha começado a gostar d@s skatistas!

Talvez eu não gostasse de skatistas. Eu só gostasse daqueles. Afinal, são mais de 11 milhões de habitantes.

Mas uma noite também aconteceu. Fui correr no Parque do Minhocão, mas o fechamento para os carros estava atrasado.

Já éramos mais de uma dezena de pessoas e poucos carros, mas nunca ousaríamos invadir o santuário dos automóveis. Até que chegaram quatro skatistas.

Nem olharam para a gente, ou para os carros. Só deram o grito de guerra: "Bora invadir". Fomos tod@s. Um carro passou. Berramos que ele não estava com a luz acesa. Éramos um time.

Quis explicar para eles que ninguém estava invadindo. Que estávamos ocupando. O espaço público. E que os skatistas são a vanguarda dessa ocupação.

Os parklets, as ciclovias e as festinhas nas praças vieram depois. El@s tinham chegado antes, com muita velocidade. E não é que el@s se achem os don@s das ruas. El@s são. A senhora anônima também. Eu também. Nós todos.

Porque o espaço público é de todos nós.

Mas a minha tentativa de dizer isso a eles foi inútil, porque eles já haviam entrado, velozes, dentro da noite escura. O que importa, contudo, é que nessa noite descobri que ser skatista é algo como ser um exu da cidade.

Que as pessoas menos iniciadas acham que é o diabo, mas que são os noss@s guardiões. Pois @s skatistas, munidos apenas de uma tábua com rodas, dão movimento às ruas do centro, das periferias e de São Paulo como um todo.

São uns tipos a quem devemos, portanto, muito respeito.

Claro que isso não significa que não haja abusos. Mas isso não torna menos verdade que foram el@s, afinal, que começaram a transformação que São Paulo vem passando. E não estavam sós.

Junto com el@s estavam grafiteir@s, o pessoal do hip hop, @s ciclistas e tantos outros tipos que a senhora anônima chamaria de marginais, mas que são a vanguarda da "invasão" do espaço público.

Os grafites enfeitam a "Cidade Cinza". O hip hop preenche de rimas o vazio melodioso do cotidiano das cidades. Já @s skatistas, são malabaristas que dançam suas acrobacias pelos ares.

A senhora tinha também sua razão. São mesmo uns marginais. Porque marginal é uma palavra que a classe média paulistana bem alimentada usa para nomear os vilões e as vilãs de suas histórias. Os feios, sujos e malvados. Marginalizad@s. E @s skatistas são mesmo marginalizad@s.

O skate é um esporte e, dizem por aí, o segundo mais praticado no Brasil. E que é muito popular nas periferias das grandes cidades, embora tenha muito playboy no shape.

O skate continua, contudo, sendo um esporte maldito. Pior ainda se a personagem da história que poderíamos começar a recontar agora fosse um menino magricelo que saltou do ônibus, que vinha sacolejando desde o terminal Jardim Ângela, até a Avenida Paulista. E se ele ainda fosse negro...

Mas aí é outra história.

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