OPINIÃO

Manifesto pela refundação da beleza das coisas

22/10/2015 15:45 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/IMDB.com

Em dias cinza macilento e tempos estranhos, me sinto em dissonância poética com o mundo.

Nesses dias, penso que deveria ser lançado um grande manifesto em defesa do lírico, do lúdico e dos espantos. Poderíamos gritar palavras de ordem como "não quero saber de lirismo que não seja libertação", usar máscaras de Amélie e erguer cartazes com as nossas letras de músicas favoritas.

A radicalidade da nossa ação não estaria em pautar as grandes questões da conjuntura política do planeta, do país ou das nossas aldeias. Nossa radicalidade estaria em desafiar o óbvio.

A primeira reivindicação seria buscar a poesia e a brincadeira em cada momento cotidiano. Não é possível que um dia qualquer seja qualquer dia. Que não haja pequenas belezas escondidas nas esquinas em que pessoas se atropelam, cotidianamente, em um balé descoordenado de tédio.

Atravessar a rua deixaria de ser apenas uma ação rotineira para chegar ao trabalho. Seria um grande jogo de sorte em que, enfrentando homens verdes e vermelhos, desafiaríamos as combinações de sinais dos cruzamentos e, após driblar a sorte lida no biscoito chinês de cada semáforo, chegaríamos ao outro lado, ofegantes, e diríamos para as pessoas, que nos assistiriam embasbacadas: "Acabei de driblar o destino".

Nossos manifestantes estariam convocados a, na hipótese de não encontrar poesia alguma no cotidiano, criar pelo menos um versinho. Há uma enorme resistência de lidar com o inusitado, especialmente se ele vier do lúdico, e não do trágico. Uma dose homeopática de Datena é socialmente aceitável, até para lembrar que a vida ordinária é o melhor modus vivendi. Mas o inusitado que nos liberta, esse pertence apenas aos loucos, aos bêbados ou às crianças. Ou seja, só ao público alvo de nosso manifesto.

Lembro que um ex-namorado me acompanhava no supermercado e, ao me ver conversando com o atendente, me repreendeu. "Você acha que todo mundo acha normal a pergunta 'você viu um pé de alface por aí' ou 'onde você estaria se você fosse um tomate?'".

Não. Elas não acham normal. E é exatamente isso que queremos subverter. E nossas intervenções inusitadas funcionariam como um código secreto para identificar os membros de nossa revolução. Ruidosamente, estaríamos declarando o fim da paz nos dias comuns, nas conversas repetidas de elevador e no tédio do convívio social.

Um ponto que nos seria caro, contudo, é a expressa proibição de colocar rótulos em pessoas ou relações. Não é porque agimos com carinho e atenção que queremos algo em troca. Não é porque temos 30 anos e estamos solteiras que estamos buscando um marido. Não é porque as vezes somos ríspidos que somos sempre brutos.

Essa parte ritualística do processo seria nosso momento catártico de libertação, em que rasgaríamos o contrato social (nunca conseguimos ler aquelas letras miúdas) e construiríamos performances mais autênticas, declamando nossas próprias poesias. Bonita seria a espontaneidade de nossa essência, e não os versos dodecassílabos.

Nós conseguiríamos refundar o socialismo ou legalizar o aborto? Talvez não. Mas talvez lançássemos uma provocação direta às pessoas sobre o que elas entendem por ser humanas, demasiado humanas, e convidaríamos todas a ter uma vida menos ordinária.

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