OPINIÃO

Manda nude! Por que o post da TPM não é libertação sexual coletiva

22/09/2015 15:25 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Reprodução

Até pouco tempo, pouquíssimo tempo mesmo, eu era uma mulher super a favor da indústria pornográfica. Dessa nova indústria pornográfica que a gente vê por aí.

Quando eu era adolescente, os filmes pornôs eram todos voltados para os meninos. O que os excitava me parecia ginecológico demais, fake demais. Não me representava.

Aí veio a internet, as meninas reclamando, novas formas de produção pornô, diretoras na cena, suicide girls, meninas mostrando a cara nos milhares de canais. Vieram também os filmes amadores, novas plataformas, o WhatsApp.

Tudo ficou mais aberto. Era como se a gente tivesse finalmente ganhado um pouquinho mais de poder sobre o sexo.

Sem querer entrar na armadilha do termo, eu me sentia empoderada. Eu era livre e defendia essa liberdade sexual... Até que comecei a pesquisar sobre o assunto. E um texto que foi motivo de muita polêmica me mostrou o outro lado dessa questão. Vi que era egoísta me sentir empoderada em cima da exploração alheia.

E a indústria pornográfica hoje continua explorando mulheres (veja aqui).

E tem mais um detalhe: aquilo que todos nós chamamos de amadorismo também cai na indústria na medida em que os sites também o incorpora. O vídeo que cai no WhatsApp também escorre nela.

E quem ganha dinheiro com isso? Não são as meninas e meninos que mandaram nudes para pessoas que saíram por aí repassando impunemente...

E mesmo que elas e eles tivessem ganhado dinheiro com isso, continuaria sendo um mercado exploratório porque a nossa estrutura social não deixa que seja diferente.

Lendo, entendi que o meu empoderamento sexual não justifica a exploração das meninas que caem na rede da indústria.

A verdade é que essa minha sensação de liberdade é uma falácia porque não leva a uma mudança das estruturas sociais.

Minha libertação sexual é um ato individual, sem dúvida, mas é também egoísta na medida em que é conquistado sobre a opressão de outras mulheres.

Assim como o fato de eu conseguir um bom emprego e um bom salário me empodera, mas não representa mudança nas estruturas porque as mulheres continuam ganhando menos que os homens.

Ou o fato de existir 50 deputadas (em um universo com mais de 500) também não é.

O fato é que qualquer ato de mudança deve representar luta sistemática pela alteração do sistema vigente (no caso o patriarcado) e não uma satisfação pessoal.

A estrutura vigente hoje é o patriarcado e a indústria (pornô, de cerveja, produtos de limpeza, música, e, claro, de comunicação) usufrui disso para vender.

A indústria já aprendeu também que se apropriar da ideia de liberdade vende pra caramba.

Reproduzo aqui um trecho do artigo que fez mudar a minha cabeça.

"A ideia de liberação sexual é um dos cernes da ilusão de poder; não passa de uma estratégia para criar novas formas de dominação."

Manda nudes? Então manda para gente!Mas esteja avisado que queremos vazar seus nudes na nossa próxima edição - o tema...

Posted by Revista Tpm on Monday, 21 September 2015


É por isso que, na minha opinião, o post da Revista TPM é um erro.

A revista não está nada mais que usando a ideia da liberdade sexual individual, egoísta, para vender revista.

Está fazendo a mesma coisa que a Bombril fez dia desses em uma propaganda que causou polêmica e foi motivo de investigação do Conar (injustamente, diga-se, mas isso é tema para outro texto).

O problema é que a revista mexeu com um assunto muito grave.

Os editores e repórteres da revista sabem o grave problema da exploração sexual das crianças e adolescentes.

Poderia usar a visibilidade que possuem para abordar o assunto, contar histórias, entrevistar meninas, como a Carta Capital fez nesta matéria.

No entanto, convoca as pessoas a mandarem nudes e ainda avisa que as maiores de 18 anos serão publicadas.

As (e os) menores podem enviar fotos? Quem vai receber as imagens tanto de menores quanto de adultos? Esses curadores vão descartar o material de crianças?

Nesta manhã, escutei que a revista "não tem crianças como público". Como se isso existisse hoje nas redes sociais...

Ainda que não tenha ficado claro, o caminho, na minha opinião, não é censurar as meninas. As meninas não podem ser recriminadas por terem uma vida sexual ativa, por se expor. Não é desrespeito a uma decisão individual.

Agora, a ação da TPM sobre nudes não vai ampliar o meu direito de expor meu corpo!

O que a gente precisa refletir é que uma campanha como esta não é justificada enquanto as meninas que aparecem no WhatsApp em vídeos "Top 10" são apontadas nas ruas e caem no ostracismo em várias cidades do País.

Uma revista que se diz progressista pode fazer um bom serviço questionando a sociedade sobre o julgamento sofrido pelas garotas. Pode pressionar o Congresso, que hoje está votando um projeto absurdo sobre saúde das mulheres, para penalizar agressores e pessoas que violam a intimidade ao expor vídeos. Pode fazer uma campanha nacional para ajudar meninas que caíram em depressão depois de serem expostas.

Por fim, o que eu tenho a dizer, é: meninas, continuem namorando, fazendo sexo, descobrindo a vida sexual. Mandem seus nudes a quem confiam e sejam felizes. O corpo é seu, é seu direito. Mas informem-se, leiam sobre o assunto, mobilizem-se e não deixem ser instrumento do mercado.

P.S.: Eu não estou aqui falando por nenhum grupo, rede, movimento ou coletivo. O post trata-se de uma reflexão individual que partiu do questionamento de um amigo. Respeito qualquer posição contrária e estou disposta a, mais uma vez, amplificar meu posicionamento.

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