OPINIÃO

Convidaram o Lula para dançar e ele aceitou

23/03/2016 11:47 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Igo Estrela via Getty Images
BRASILIA, BRAZIL - MARCH 17: Brazil's former president, Luiz Inacio Lula da Silva, is sworn in as the new chief of staff for embattled President Dilma Rousseff on March 17, 2016 in Brasilia, Brazil. His controversial cabinet appointment comes in the wake of a massive corruption scandal and economic recession in Brazil. (Photo by Igo Estrela/Getty Images)

O salão de danças da gafieira Brasil já estava cheio, com lotação esgotada e dançarinos se esbarrando a todo instante, mas num clima caliente e, ao mesmo tempo, pacifico, pois, afinal de contas, foi feito pra ficar sempre abarrotado de gente que sabe perfeitamente bem que, dentro dele, existem regras a serem cumpridas. Caso contrário, o compasso sincronizado do "dois pra lá, dois pra cá", coletivo dos bailarinos que se tocam, pode descambar para um jogo de empurrões desajeitados, que faz com que a dança perca toda a sua graça, transformando-se numa sequência destrambelhada e grosseira de empurrões. Entre os seus frequentadores mais assíduos, a gafieira Brasil é carinhosamente chamada de: democracia.

Pois bem, as regras do salão de danças da gafieira Brasil - que já vinham sofrendo ameaças de dançarinos descompassados como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha - foram perigosamente subvertidas no exato momento em que, numa ação explicitamente coordenada, sob as ordens do juiz federal Sérgio Moro(leia-se sistema judiciário), ampla cobertura da Globo (leia-se sistema midiático) e apoio da FIESP (leia-se sistema econômico), o ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente por agentes da Polícia Federal para prestar depoimento no aeroporto de Congonhas, em 4 de março último. Naquele exato momento, com a utilização de métodos pouco convencionais, convidaram o Lula para dançar... e ele aceitou.

A nomeação de Lula para a Casa Civil da Presidência da República (que foi suspensa por um outro dançarino famoso por pisar impiedosamente no pé de quem está à sua esquerda no salão de danças - o ministro do STF, Gilmar Mendes) nada mais é que uma das expressões atuais daquilo que os historiadores habitualmente designam como aceleração do tempo histórico, que costuma acontecer no interior de processos mais amplos de ruptura da ordem constituída (golpes e revoluções, por exemplo). Ordem constituída esta que, no nosso caso, tem o nome e o sobrenome de uma das maiores conquistas da história brasileira contemporânea: a derrota da ditadura civil-militar e a construção do Estado democrático de direito.

Por inépcia das oposições lideradas pelo PSDB, o Estado democrático direito arduamente construído no curso dos anos 1980 - inclusive por muitas das suas principais lideranças nacionais - corre o sério perigo de se transformar num Estado de exceção, caracterizado pelo repudio generalizado àqueles que representam o principal sustentáculo da vida política democrática em qualquer país do mundo: os partidos políticos.

Derrotados quatro vezes seguidas nas urnas, os tucanos terceirizaram a responsabilidade de mudar o governo, delegando o papel de oposição legítima ao atual governo a corporações que têm a sua história visceralmente ligada ao regime ditatorial instaurado no país em 1964, como as organizações Globo.

É possível sim que, caso o plenário do STF reverta a decisão tomada por Gilmar Mendes, tenha início o terceiro mandato de Lula.

Mas, se isso vier a acontecer, a responsabilidade caberá menos à vontade de poder do ex-presidente do que à impaciência pouco democrática dos atores acima citados de esperar quatro anos para tentar cortar a cabeça da jararaca e afastar o PT da direção do país - nas urnas e não por meio do recurso à antipolítica e seus potenciais salvadores da pátria de natureza bonapartista.

Por isso, a gafieira Brasil (a sempre agitada Democracia) e seus inveterados "pés de valsa" pedem mais respeito às regras do jogo, pois só assim - que me desculpe o Chico Buarque - poderá haver "bate-boca dentro do salão".

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