OPINIÃO

Os erros de Ann Coulter

03/07/2014 16:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02
T.J. Kirkpatrick via Getty Images
NATIONAL HARBOR, MD - MARCH 08: Conservative pundit and author Ann Coulter signs books during the 41st annual Conservative Political Action Conference at the Gaylord International Hotel and Conference Center on March 8, 2014 in National Harbor, Maryland. The conference, a project of the American Conservative Union, brings together conservatives polticians, pundits and voters for three days of speeches and workshops. (Photo by T.J. Kirkpatrick/Getty Images)

O futebol é uma paixão mundial. Disto ninguém duvida. Se observarmos as cifras movimentadas ao redor do mundo pelo esporte, temos a real dimensão de seu poder. A China tem clubes de futebol com poder financeiro. A Rússia sediará o próximo mundial. Seleções como Argélia, Austrália e inclusive a Suíça mostram nesta Copa que não existe adversário fácil. Esta semana os americanos lotaram estádios, como em Dallas e Chicago, para acompanhar sua seleção em telões.

Já escrevi aqui neste espaço como o esporte cresce nos Estados Unidos. Sua liga tem média de público maior que o nosso Brasileirão e existe uma geração de potenciais jogadores sendo gestados em categorias de base. Por tudo isso, o artigo escrito pela articulista conservadora Ann Coulter causou tanto choque na última semana. No texto ela acusa o futebol de ser um sintoma da decadência moral da América.

O texto de Ann Coulter é um equívoco do início ao fim. Ela diz que o crescimento da paixão do americano pelo nosso futebol, jogado com os pés, é um resultado direto do fluxo imigratório recente recebido por seu país. Ela diz que o futebol não é um esporte americano. Seu argumento, que flerta de forma perigosa com idéias nacionalistas, mostra seu total desconhecimento do país onde vive, a maior e mais importante nação constituída por imigrantes de todos os cantos do planeta. Seu argumento daria calafrios em Abraham Lincoln, fundador do partido que ela diz defender.

Mas ela vai além. Diz que o Super Bowl, a partida decisiva da liga de futebol americano, atraiu 111,5 milhões de espectadores, enquanto a partida entre EUA e Portugal tinha apenas conseguido atrair 25 milhões. Agora, caro leitor, se uma partida da fase de grupos levou esta quantidade de americanos a torcer, resta imaginar quantos acompanhariam o feito de seu time se este chegasse a tão sonhada final no Maracanã. Vale uma reflexão, que certamente ela esqueceu de fazer.

Sua triste comparação do futebol com o sistema métrico carece de coerência, assim como a relação que ela faz entre o esporte bretão e idéias socialistas, citando Margaret Thatcher, a quem a liga inglesa inclusive ofereceu um minuto de silêncio quando de seu falecimento.

O futebol, na sua visão, carece de superações individuais e se baseia na força coletiva. Bem, quando sua seleção voltar aos Estados Unidos, ela deveria ser apresentada ao espetacular goleiro Tim Howard, o grande herói nacional, mesmo com a eliminação de sua seleção. Um jogador que superou dramas pessoais, alcançou reconhecimento individual e alguém que joga futebol também com as mãos, assim como gosta Ann Coulter.

Mas vale um registro. Coulter não deve ser confundida com o movimento conservador. Ela é um ponto fora de curva dentro de um partido que busca resgatar sua identidade histórica. Reagan, seu líder mais recente, aquele que realizou a maior anistia a imigrantes ilegais da história, sentiria vergonha em ver a agenda conservadora capturada por pessoas dotadas de um discurso radical e desagregador.

Agora chegou o momento desta nação, criada por imigrantes de países que amam o futebol, receber seus heróis. Um time que lutou contra suas próprias limitações e possui, vejam só, um estrangeiro, um alemão, como técnico. Os jornais de hoje celebram a garra de seus jogadores, sua vontade de vencer, a união do grupo e o orgulho de serem americanos, independente de sua origem. A América, como lembrou certa vez o líder conservador Ronald Reagan, consiste muito mais em um conjunto de idéias do que em um território. Sua seleção de futebol, formada por atletas que nasceram ou adotaram o país como sua casa, é a prova mais cabal disso.

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