OPINIÃO

Recrutamento de jovens para guerra da Ucrânia coloca o Brasil na rota dos mercenários

Os "soldados" buscados seriam membros de grupos neonazistas baseados em diferentes cidades gaúchas.

10/02/2017 09:58 -02 | Atualizado 10/03/2017 18:52 -03
Valentyn Ogirenko / Reuters

Em dezembro de 2016, a polícia civil do Rio Grande do Sul deflagrou uma ação - a Operação Azov - com o objetivo de impedir o recrutamento de grupos de indivíduos para lutar na guerra da Ucrânia. Apesar de publicada em alguns dos grandes portais de jornalismo do País e até do exterior, essa notícia passou quase despercebida por muitos analistas de segurança.

Conversas informais apontavam semelhanças desse recrutamento ao ocorrido principalmente em 2005, quando ex-soldados brasileiros foram contratados por empresas norte-americanas para atuar no Iraque, colocando o Brasil, de vez, na rota dos novos mercenários e das empresas privadas militarizadas.

A década de 2000 marcou a ascensão das empresas privadas militarizadas na prestação de serviços de segurança e logística em zonas de conflitos.

Essas empresas já atuavam na consultoria e treinamento de forças armadas de diversos países, Inglaterra e EUA inclusive, mas passavam agora a atuar diretamente em zonas de conflito com aval dos Estados como consultores militares.

Esse rótulo ajudava a burlar a proibição legal do emprego de mercenários em conflitos. Os ex-militares brasileiros atuariam nesse contexto, principalmente segurança de comboios e instalações.

Contudo, a Operação Azov revelou três questões alarmantes que vão além da simples busca de mercenários no Brasil.

A primeira diz respeito à atuação esperada desses indivíduos em combate.

O recrutamento foi feito por agentes do Misanthropic Division, grupo nacional socialista que luta pelo separatismo na Ucrânia. A atuação internacional do Misanthropic Division é monitorada pela Interpol.

O grupo busca indivíduos em diferentes países para se juntarem à sua brigada internacional na Ucrânia. Seus membros são treinados em táticas militares e adestrados na ideologia do grupo, expandindo a rede e o alcance do ideário do Misanthropic Division.

Seu objetivo é a promoção da violência a partir de bases raciais e sociais, com foco na limpeza étnica e no separatismo.

A segunda relaciona-se a quem seriam os alvos desse recrutamento.

Os "soldados" buscados seriam membros de grupos neonazistas baseados em diferentes cidades gaúchas. Acredita-se que esses indivíduos seriam de mais fácil cooptação dadas as suas afinidades e motivações ideológicas.

De acordo com a polícia gaúcha, os grupos estavam sob monitoramento há mais de uma década. Pesava sobre eles a acusação de atos de violência contra minorias étnicas e sociais.

O recrutamento no Rio Grande do Sul visa a instalação de uma base de treinamento de indivíduos para futuras ações, na Ucrânia ou em outras regiões do globo em que o Misanthropic Division atue.

A terceira questão, por fim, joga luz sobre como esse processo afetaria a segurança brasileira. Mais do que a entrada do Brasil na rota internacional dos mercenários, a militarização de grupos neonazistas é preocupante para a segurança brasileira pela sua capacidade de exacerbar identidades e promover práticas violentas excludentes.

Além da ideologia que une esses indivíduos, a sua capacitação paramilitar soa como uma predisposição para a transformação do discurso de ódio em ações contra minorias e grupos sociais.

Já não são poucos os relatos sobre atos de violência, isolados ou não, baseados em uma identidade social ou racial diferente da do agressor. A associação desses grupos neonazistas com extremistas em um conflito violento e com bases étnicas, como o caso da Ucrânia, pode levar à uma campanha de violência em bases locais e regionais. E isso poderia, consequentemente, afetar a própria segurança nacional brasileira.

Pensar em segurança não é sinônimo de armar a sociedade ou aumentar o patrulhamento ostensivo.

Políticas públicas de inclusão e aceitação da diferença ajudam a prevenir a expansão de doutrinas e ideologias excludentes. Especialmente em um momento de exacerbação do conservadorismo por todo o mundo e também no Brasil, a promoção da tolerância diante da diferença mostra-se fundamental na preservação dos direitos humanos e base para a construção de uma sociedade mais segura.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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