OPINIÃO

Adele, Beyoncé e um mundo que mudou (mas nem tanto)

13/02/2017 17:08 -02 | Atualizado 14/02/2017 11:44 -02
Lucy Nicholson / Reuters
No Grammy 2017, Adele dedica prêmio a Beyoncé.

Na última edição do Grammy, a cantora britânica Adele levou para a casa o prêmio de álbum do ano e, em uma atitude de muita humildade, ela reconheceu publicamente em seu discurso de agradecimento que a indústria não deu o devido valor ao álbum Lemonade de Beyoncé. O disco não só é digno de prêmios pela sua qualidade, mas também pela relevância que tem no atual momento que negros vivem, em especial nos Estados Unidos, e o impacto que teve na comunidade negra e simpatizantes da causa ao redor do mundo.

A atitude da artista foi incrível e denunciou o racismo na indústria fonográfica, mas certamente nos leva a uma indagação. Diversos artistas negros ao longo dos anos têm protestado contra o problema e não foram levados a sério.

Podemos ver como exemplo a campanha #OscarSoWhite, que reclamava da ausência de nomes negros nas nomeações do Oscar do ano passado, assim como o protesto de Kanye West contra o prêmio de Taylor Swift em 2009.

O caso do Kanye e Taylor vale até um reflexão mais profunda: acho que todos concordamos que talvez o rapper não tenha escolhido o melhor momento, mas também concordamos que o clipe de Single Ladies, da Beyoncé era favorito na época e não ganhou.

Não quero entrar no mérito do caso e quem deveria ter vencido, mas sim no desfecho dele... Você já reparou que o Kayne saiu como o homem negro raivoso (um estereotipo muito utilizado para deslegitimar a luta da comunidade negra), enquanto Taylor conseguiu capitalizar e construir toda uma imagem em cima do ocorrido?

Se analisarmos todo o contexto, não há como não nos perguntarmos por que vários artistas negros denunciaram o racismo na indústria do entretenimento e nunca demos a devida atenção, mas quando uma artista branca o fez, todos paramos para refletir.

Da mesma forma, a homofobia é um problema sério ao redor do mundo e a indústria de entretenimento reflete isso, tanto que por anos diversos artistas não se assumiam homossexuais. Alguns que se assumiram perderam parte seu pelo midiático.

Então em 2014 o rapper Macklemore e a cantora Madonna (ambos heterossexuais) foram ao Grammy defender o casamento igualitário. Aí então aplaudimos e louvamos algo que a comunidade gay pede há anos. Controverso, não?

Garotas há anos reclamam do machismo na indústria do entretenimento e das cobranças que sofrem para permanecer nela... Mais uma vez, demos pouco atenção.

Garotos só passaram a dar atenção ao problema e refletir que algo poderia estar errado, quando outros homens passaram a defender a causa feminista e questionar os estereótipos que a indústria perpetua sobre mulheres.

A Madonna faz tempo que não aparece na listas de premiações, mesmo sendo ainda uma das artistas mais criativas e provocadoras. Ela teve dois álbuns esquecíveis depois do Confessions On A Dancefloor, mas Rebel Heart foi um dos melhores trabalhos da veterana, rendeu uma da turnês mais lucrativas da temporada e mesmo assim fracassou ao ser indicado em premiações.

A cantora acredita estar sendo vítima de agism (preconceito por causa da idade), e aqui estamos nós falando que não há preconceito nenhum, que ela realmente está velha e a indústria é para pessoas novas. Por outro lado, nunca questionamos se Paul McCartney e Mick Jagger não estariam velhos demais para continuarem na ativa.

Isso nos mostra que o preconceito com a idade é mais cruel com as garotas, da mesmo forma que também acho que machismo é mais opressor com mulheres negras.

Veja como exemplo o clipe de Anaconda da Nicki Minaj, que é brilhante e empoderador para mulheres mas fracassou também ao conseguir indicações ao Grammy.

E todos esse casos me levam a uma triste conclusão: continuamos presos aos modelos tradicionais e nos falta empatia, pois só levamos uma acusação de opressão a sério, quando a denúncia não vem do oprimido.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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