OPINIÃO

Dôo porque me faz bem

Descobrimos que metade dos brasileiros doam. Muito mais do que a melhor das expectativas.

03/02/2017 09:32 -02 | Atualizado 07/02/2017 16:33 -02
AlexRaths
É isso, temos que fazer o doador sair do armário. Mas isso é o tema do próximo artigo.

Quanto doam os brasileiros? A pesquisa Doação Brasil lançada pelo IDIStraz muita informação interessante. O que chama muita atenção é o volume do dinheiro que se doa no Brasil por ano pelo conjunto dos brasileiros. São 13,7 bilhões de Reais. Você consegue imaginar esse dinheiro?

Mas nem só de Reais se trata a pesquisa. Descobrimos algo muito curioso: o brasileiro doa, mas não conta pra ninguém. Não se sente bem, acha que não é pra ficar espalhando. Alguns, mais religiosos, pelo visto seguem a máxima que está em Mateus, 6:3 "Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita."

Descobrimos que metade dos brasileiros doam. Muito mais do que a melhor das expectativas. Mas temos problemas aí: 87% dos doadores acham que não se deve falar sobre as doações que fazem.

Portanto somos doadores, queremos ampliar não só o volume de doações como o número de doadores, mas o nosso público alvo é discreto e provavelmente bem receoso a mudar sua postura sobre doações.

Se formos observar as motivações dos doadores, quando são respostas espontâneas, a mais frequente é a solidariedade a quem necessita. O que não deixa de ser uma resposta muito nobre, socialmente correta. Já quando estimulado a responder um conjunto de frases pré-definidas, a que mais pontua é: Doo porque me faz bem.

Acho que isso mostra que chegamos a uma situação interessante. As pessoas doam, ótimo. Doam para apoiar os mais necessitados. Ótimo. Mas no fundo, em seu íntimo, doam porque isso faz bem a elas. E talvez (não pretendo aqui ser um cientista do assunto, mas simplesmente dialogar com algumas teses), talvez essas duas situações gerem uma dicotomia confusa: doo, mas os outros não podem saber, e doo e isso me dá prazer.

Ou seja, mais uma vez tudo isso soa a religião, ao pecado, ao proibido. Tudo aquilo que se faz escondido, porque não se deve, porque o prazer não é permitido. Ou seja, há uma confusão de mensagens aí, que precisamos esclarecer. Doar não é pecado, oras! Mas está na mente do doador quase como se fosse! Não pode dizer que fez, não pode dizer que sente prazer em fazer, não pode isso, não pode aquilo. Criou-se um conjunto de atitudes que só nos confundiram esses anos.

E se perguntamos ao nosso redor vários doadores se negarão a dizer que doam, já que, segundo Mateus, blablabla. E eu terei então que colocá-los em uma encruzilhada: ou vocês mentem de que não doam e com isso terão o fogo do inferno, ou simplesmente digam que doaram e assim estimularão outros a doar.

Ok, não preciso falar sobre o fogo do inferno.

Pois então é isso: Eu gostaria de criar campanhas que façam o doador se sentir bem, que ele possa assumir que doar lhe dá prazer. Isso deve estimular outros não doadores a fazer o mesmo. É isso, temos que fazer o doador sair do armário. Mas isso é o tema do próximo artigo.

As referências bibliográficas usadas neste texto estão aqui.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com