OPINIÃO

Cultura de doação: mudando uma geração

02/12/2014 01:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

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Na década de 90 o meio ambiente entrou na agenda da sociedade civil. Desde antes da Eco-92, as escolas começaram a falar aos alunos sobre a importância da preservação da natureza, famílias passaram a instigar as crianças a fazer a separação do lixo, e prefeituras começaram programas de reciclagem de lixo com a população. Levou uma geração, e hoje a preservação ambiental faz parte da cultura da sociedade.

O mesmo aconteceu com o cigarro. De aceito por todos, tornou-se um mal generalizado, que é restringido pelo governo e cada vez mais rejeitado pelas pessoas. De socialmente aceito, não fumar passou a fazer parte da cultura brasileira.

Agora, é a hora de fazer o mesmo com a doação. Já evoluímos muito nos últimos anos, principalmente com a doação de horas, o voluntariado. Mas ainda temos muito a fazer para que doar seja cultural, para que faça parte da vida das pessoas.

Queremos que as famílias conversem sobre doação durante suas refeições, escolham juntas as organizações que vão receber a sua doação. Queremos que as escolas ensinem às crianças a importância de contribuir de forma cidadã para o desenvolvimento da sociedade civil, engajando-se no apoio às organizações. Queremos que as empresas incentivem ações de voluntariado, e estimulem seus funcionários a doar, inclusive aumentando o valor da doação com recursos da própria empresa. E queremos que a imprensa incorpore de vez a pauta da importância das organizações para o desenvolvimento da sociedade civil, e promova a doação dos indivíduos.

Enfim, queremos mudar a cultura dos brasileiros, e disseminar a importância da doação como algo normal para todos, da infância à aposentadoria. Para tanto, criamos no Brasil o #diadedoar.

O #diadedoar é uma campanha que promove a cultura de doação, e aproxima organizações e doadores. Neste ano, no dia 02 de dezembro, o Brasil inteiro estará envolvido em ações que promovam a doação de dinheiro, tempo, livros, sangue...

Não só no Brasil, mas em outros vários países, a primeira terça feira de dezembro é um dia de celebração e participação das pessoas. Lá fora esse evento se chama #givingtuesday. Os países da America Latina denominaram de #undiaparadar e nós aqui de #diadedoar. Todos fazem parte de uma mesma família cujo logo é um coração com fitas entrelaçadas. Nós aqui no Brasil, inspirados nas fitas do Senhor do Bonfim, queremos celebrar as boas energias que o ato de doar traz.

O fato é que milhares de iniciativas vão ocorrer neste dia e isso estimulará ainda mais as pessoas a participarem de alguma ação. Você ainda não acredita no que estamos te falando? Entre no site www.diadedoar.org.br e veja quanta gente e quantas organizações estão envolvidas. É um mundo de iniciativas!

Histórico

Em 2013 o #diadedoar foi lançado de forma singela na Feira ONG Brasil. Sem muito barulho, diversas ONGs divulgaram campanhas específicas para conseguirem doações naquele dia. Da Fundação Abrinq à plataforma Juntos.com.vc, do Greenpeace ao sistema Doare, dezenas de pessoas se engajaram e estimularam pessoas dentro da feira e isso acabou alastrando-se para fora dela. Em Curitiba o Banco de Sangue realizou uma atividade durante todo o dia onde as pessoas tiravam fotos com os dizeres "Eu já Doei", "DDD - Dia de doar", "Doe sangue". Em Maceió um shopping estimulou todas as lojas e seus clientes a doarem para uma organização do bairro. Uma fotógrafa doou seus serviços a um casal que não poderia pagar pelas fotos do casamento. Uma organização doou rosas para cada doador naquele dia.

Agora em 2014 esperamos que centenas de organizações participem com suas atividades especiais e que milhares de pessoas possam contribuir plantando uma semente para a cultura de doação. Sabemos que o efeito de doar em um dia é simbólico. Não se espera que isso altere as estatíticas de uma nação. Mas sabemos também que para aqueles que estarão experimentando pela primeira vez o prazer em doar e a alegria em participar de uma ação solidária como essa, 2014 será o primeiro ano de uma revolução. Nós estamos nos transformando em um país cheio de doadores.

Você deve estar lendo este artigo imaginando que somos muito otimistas. Pois vamos dar alguns números a você, para que falemos da realidade. E assim passemos a lidar com o Brasil verdadeiro, um Brasil doador.

Segundo o World Giving Index, uma pesquisa mundial que faz levantamentos sobre os atos de doar de dezenas de países, somos 35 milhões de doadores. 5 vezes mais do que a Espanha, por exemplo. Segundo outra pesquisa da ChildFund, doamos o equivalente a 5 bilhões de reais por ano. Mais que o dobro do que os institutos e fundações empresariais investem no social.

Em geral, a imagem que passamos é a de que doamos pouco, ou que os indivíduos não alteram a realidade com suas esmolas e pequenas contribuições. Pois os números acima mostram o contrário.

Qualquer pequeno estímulo ou campanha que trabalhe com os atuais doadores gera um efeito dominó capaz de dobrar o número de doações. Um pequeno gesto, e alcançamos R$ 10 bilhões por ano -- quatro vezes mais do que as empresas. Qualquer campanha como a do dia de doar e dobramos o número de doadores: de 35 para 70 milhões. 70 milhões é muita gente. Faz uma revolução não faz?

Ok, você quer mais números. Greenpeace tem 55 mil doadores mensais no Brasil.

Médicos Sem Fronteiras tem 165 mil doadores mensais no Brasil. E estes doam para fora. O dinheiro vai para as equipes de médicos que estão na África. Sem nenhum juízo de valor, vale perceber que 165 mil pessoas estão dando dinheiro para uma organização que envia recursos para fora. Estamos exportando doações.

Faz 30 anos éramos um país de terceiro mundo, que recebia recursos de fora para atividades das mais variadas. Em uma geração passamos de necessitados a doadores. De importadores de doações, somos exportadores de doações.

Vamos participar? Ou você quer esperar mais uma geração?

(Artigo escrito com o amigo JP Vergueiro)

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