OPINIÃO

O prefeito da cashemire que não quis matar mosquito

12/01/2017 19:04 -02 | Atualizado 12/01/2017 19:04 -02
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - JANUARY 01: Major of Sao Paulo Joao Doria Junior dressed as a street sweeper participates in a event to promote the cleaning program Cidade Linda at Praça 14 Bis on January 01, 2017 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Eduardo Camim/Brazil Photo Press/LatinContent/Getty Images)

Empresário com R$ 180 milhões de bens declarados na Justiça Eleitoral, João Doria (PSDB) passou os últimos meses - antes e depois de assumir a prefeitura de São Paulo - tentando ser "gente como a gente".

Ao longo da disputa, o tucano tentou tentou comer pastel e tomar um café com leite, mas a expressão do então candidato virou motivo de piada nas redes sociais.

Na época, um dos assessores de Dória pediu a jornalistas para não registrarem fotos ou vídeos "quando ele estiver se alimentando". O argumento é que ele gostaria de ter "este momento de privacidade".

Montagens do tucano com um caminhão despejando lixo em suas costas e um urubu sobrevoando sua cabeça e frases como "oi criança periférica, peguei seu nariz e privatizei" e "não me misturo com a ralé; mas vou tentar me camuflar no povo, fazer o quê" chegaram a ser publicadas em páginas do Facebook, mas foram retiradas do ar pela Justiça Eleitoral.

Conhecido pelo pulôver de cashmere amarrado nos ombros ou como "prefeito Ralf Lauren", Doria continua nas idas e vindas em busca da aproximação como o paulistano comum.

Um dia após sua posse, o prefeito foi às ruas vestido de gari. Em 2 de janeiro, ele chegou à Praça 14 Bis, no centro de São Paulo, pouco antes das 6h. Em vez de varrer, contudo, ele posou para fotos. O local já havia passado por uma limpeza no dia anterior.

"Este é o primeiro dia de uma gestão incansável em busca de uma cidade digna", disse o tucano durante o lançamento do programa Cidade Linda, que visa à "zeladoria" da capital.

No dia 7 ele repetiu a cena na Avenida Paulista e no dia seguinte, foi a vez de posar com capacete de pedreiro no Mutirão Mário Covas, voltado para a recuperação de calçadas, no Itaim Paulista, zona leste da cidade.

"Cada ato que o prefeito participa tem um simbolismo. O significado disso é o exemplo, a atitude, a representatividade do prefeito estar aqui ajudando a fazer. A essência é o exemplo. Estamos dando referência para os secretários, para os servidores públicos e principalmente para a população", afirmou na ocasião.

Já na pulverização no Rio Pinheiros nesta quinta-feira (12), o prefeito preferiu ficar no gabinte. Ele alegou ter outros compromissos agendados e não foi a uma ação emergencial em resposta à um abaixo assinado dos paulistanos com reclamações sobre mosquitos na cidade.

Apesar de tentar se aproximar do dia a dia do paulista, a distância é grande. Nos bens declarados à Justiça Eleitoral pelo tucano, estão cotas em diversas empresas, imóveis no Jardim América, dezenas de pinturas e esculturas, dois porsches, entre outros. Foram R$ 4,4 milhões doados para a própria campanha.

Já a média salarial do paulistano está bem distante. Em 2015 foi de R$ 2.701.

Na posse, o prefeito afirmou que "a prioridade serão os mais humildes e mais pobres dessa cidade", mas não apresentou programas concretos de distribuição de renda. De foto em foto e sem ações concretas, até onde o prefeito vai equilibrar esse fosso entre ele e os outros moradores de São Paulo?

João Doria 'vira' gari em São Paulo