OPINIÃO

Cuidado: este texto é sobre menstruação

28/04/2014 10:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Tinha 13 anos quando fiquei menstruada pela primeira vez. Demorei uns dois dias para entender o que era, já que descia pouquinho sangue, que era de um vermelho mais amarronzado. Quando mostrei para minha mãe, ela me deu aquele "parabéns, você virou mocinha" e um absorvente - eu, secretamente, já tinha usado uma vez, para ver como era, e tinha achado estranhíssimo.

Na segunda vez, foi diferente: eu estava de férias e íamos para a chácara onde mora minha avó, no interior. Família toda, casa cheia, e aquele calor de dezembro. Todo mundo na piscina. E eu, já achando péssima aquela história de ficar menstruada, em parte por conta das emoções à flor da pele que, não sabia ainda, se relacionavam também com o fluxo de hormônios que corria pelo meu corpo ainda meio de criança.

Pedi para a minha mãe jurar de pé junto que não ia contar para ninguém que eu estava menstruada. Tinha vergonha, não queria ouvir aquele monte de "parabéns" que, para mim, não faziam o menor sentido, ainda mais de tios e primos. Além disso, eu queria era ficar quieta em algum cantinho, recolhida, silenciosa, até entender melhor o que aquilo significava.

Claro que não demorou muito para toda a família saber. Tanto por ter sido difícil explicar que eu não queria estar na piscina naquele calor (eu sempre fui a primeira a pular, mesmo com frio, e a ficar com os dedos enrugados de tanto tempo debaixo d'água), quanto por eu ter manchado o sofá da minha avó mesmo me sentando de lado e levantando o tempo todo para checar, no banheiro, se estava tudo bem. Era muito sangue, tanto que eu usava dois absorventes juntos e vazava. Manchei várias roupas nesse mesmo dia. E quando percebi que minha mãe havia confirmado com a minha avó o que tinha acontecido, me tranquei num quarto e chorei, chorei, chorei.

A cada mês, ia me conformando, sem saída. E apesar de não notar a tal tpm, ficava mais sensível e irritadiça no primeiro e segundo dias de fluxo, sempre. O período menstrual era equivalente a dias chatos, de cuidar para a cor da roupa, o jeito de dormir, de sentar, o hábito de carregar sempre na bolsa alguns absorventes. Eram dias sujos, também, de sentir um cheiro ruim toda vez em que eu olhava para o absorvente cheio de sangue. Dias em que eu não podia ser livre, apesar de as propagandas de absorvente usarem tanto o conceito de liberdade. Dias em que eu precisava controlar minhas variações de humor para não atrapalhar as pessoas à minha volta e não comprometer minha produção (antes provas e trabalhos escolares, depois trabalhos profissionais).

Quando fiquei grávida, vários anos depois, comemorei o fato de que não ficaria menstruada por um tempo. E foi nesse período que, em uma lista de discussão online de gestantes, ouvi falar do coletor menstrual pela primeira vez. Achei muito interessante, mas não queria nem pensar a respeito ainda - e no adiamento, havia também um pouco de resistência à ideia de ter um copinho de silicone dentro de mim recolhendo meu sangue.

Mas minha gestação foi vivida muito intensamente. Minha conexão com meu corpo nunca havia sido tão harmoniosa e segura, mesmo com algumas dores e limitações, especialmente no final. Entender cada fase do trabalho de parto e a forma como as engrenagens do nosso corpo funcionam foi essencial para o meu processo, do qual saí me sentindo pronta para muitas coisas, inclusive testar o coletor. Àquela altura, ele já me parecia uma ideia maravilhosa, não apenas por evitar a produção de um resíduo que demora até 500 anos para desaparecer do meio ambiente, mas porque assim que voltei a menstruar depois que meu filho nasceu, passei a ter alergia a absorventes externos.

Mesmo assim, demorei ainda alguns meses para comprar, o que só fiz quando me vi dentro de um coletivo de mulheres, a Casa de Lua, em que várias já usavam e outras queriam testar. Cada uma que adquiria o copinho contava, online, sua experiência, apontando as diferenças entre as marcas encontradas. Intimidade compartilhada, generosidade e reconhecimento de muito de cada uma de nós em outras: coisas que um grupo de mulheres pode proporcionar. Elas iam contando como foi colocar, o que acharam difícil, como se adaptaram a ele. Não li nenhum depoimento contrário - eles só vêm de quem ainda não tentou ou não teve com quem conversar sobre isso para entender melhor como funciona. E quando comprei o meu, fiz o coro com aquelas mulheres: era maravilhoso e libertador de uma forma que eu nunca imaginei que poderia ser. Fiquei tão empolgada que passei a revender o produto para minhas parceiras do coletivo no dia 8 de março, logo que encontrei a InCiclo (neste link tem um vídeo explicativo bem legal).

Eu consegui me adaptar a ele no primeiro dia. No segundo, usei uma saia branca e trabalhei de pé o dia todo, dançando, cuidando da cozinha de uma festa de carnaval. Foram cerca de dez horas sem nenhum acidente ou desconforto (a recomendação é a de esvaziar a cada 12 horas). Mas o mais incrível foi parar de me sentir suja. E, a cada vez que tirava o coletor para esvaziá-lo, me pegar sorrindo ao olhar para o meu sangue concentrado ali. Sem cheiro nenhum, sem nojo, quase orgulhosa. O poder que essa mudança de hábito teve sobre mim foi, essencialmente, o de transformar uma experiência que por anos vivi negando e limpando. Como se eu não pudesse ser mulher sem precisar desses dois verbos. Como se eles fossem inerentes à nossa condição feminina, a não ser que tomemos remédios para impedir a menstruação e, assim, possamos viver "livres" (de novo, o conceito de liberdade em um lugar estranho).

Entre os benefícios práticos, além dos que fazemos para o meio ambiente e para o nosso corpo (absorventes contêm até 12 substâncias químicas que podem desencadear alergias e ressecam a flora vaginal), o coletor é econômico, já que pode ser lavado e reutilizado por 2 anos ou até mais. Mas o que ele trouxe, para mim e para várias mulheres com quem pude conversar a respeito, foi a consolidação de um processo de ressignificação da menstruação. Na Casa de Lua, algumas de nós temos nos mantido atentas e conversado bastante sobre os ciclos menstruais, as relações dele com as fases da lua e os significados de cada etapa. E desde um pouco antes de o coletivo existir, tenho identificado em mim comportamentos que se repetem a cada etapa do ciclo, percebendo também como lidar melhor com cada uma delas. Tento me recolher sempre que posso nos dois primeiros dias de fluxo, trabalhar menos e descansar mais - quando é possível. Nos que se seguem, me comunico menos com o mundo exterior, porque sinto necessidade do silêncio e de reduzir a velocidade. Tento me alimentar com mais leveza, porque quando como demais, o peso que sinto no corpo parece muito maior. E tenho vários insights. É como um mergulho em mim mesma todo mês. Autoconhecimento e recarga de energias imperam.

Parece que toda a intenção de entender melhor os ciclos femininos precisava dessa materialidade para ser consolidada, já que apenas ver meu sangue dessa forma me proporcionou, de fato, a desconexão da ideia de sujeira, de tabu, da menstruação. Não é sujo. Não é mal cheiroso. Não é feio. É natural, nos renova e coloca em contato com o que temos de mais verdadeiro, e isso é libertador. Quando vejo, hoje, propagandas de absorventes com mulheres sorrindo porque se sentem livres, já que conseguem andar de bicicleta e desfilar usando um vestido curto pela rua, mesmo "naqueles dias", penso no quanto eu me sentia presa e suja antes do coletor. E nem tinha tanta consciência disso assim. Tem coisas que só percebemos quando temos a chance de vivenciar uma experiência diferente da que estamos acostumadas.