OPINIÃO

A curva que nos enquadra

07/03/2014 18:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Nosso corpo se curva, sempre. Mas não estou falando das curvas sensuais, das linhas sinuosas que qualquer mulher tem, arredondando formas e construindo caminhos a serem explorados por nós mesmas e, idealmente, por quem nós permitirmos e desejarmos. Estou falando da curva que nos enquadra. Aquela que está só no movimento que fazemos para endireitar a coluna e, assim, não deixar o decote ousar demais, fechar as pernas e puxar a saia mais pra baixo. Depois do movimento corretivo, que por vezes pode ainda acontecer com alguma sinuosidade, somos só linhas retas.

Nunca fui de me atentar muito a esse enquadramento, desde menina. Mas quando eu era criança, usava mais bermudas e shorts, camisetas largas, roupas para brincar mais à vontade. E boa parte dos meus amigos eram meninos. Daquele jeito, eu era livre. Quando passei a usar mais saias, vestidos, e quando meu corpo mudou e virei moça, tive que começar a me preocupar com isso. Não era natural, como não é ainda hoje, por mais que eu esteja, digamos, um pouco mais domesticada. Mas a vida foi me mostrando que eu não podia deixar muita coisa à mostra, já que isso era perigoso ou poderia fazer com que as pessoas pensassem coisas ruins a meu respeito.

Toda vez que eu ia sair sozinha a pé, para caminhar, pensava algumas vezes antes de vestir a calça de cotton, lembrando as barbaridades que eu escutava no quarteirão da minha casa. Acabava seguindo mesmo assim, mas o desconforto era tamanho que muitas vezes voltava antes do previsto ou andava mais rápido do que gostaria, porque sentia medo. Anos mais tarde, na hora de escolher a roupa para ir trabalhar, optei por camisas fechadas e saias retas abaixo do joelho algumas vezes até me sentir mais segura e respeitada, e poder então ser um pouco mais fiel ao meu amor por cores, tecidos leves, vestidos e saias acima do joelho, e decotes.

Trabalhei sempre com a mesma dedicação e seriedade. Certamente mais motivada e feliz quando podia me reconhecer melhor no espelho do banheiro da firma. E hoje tenho mais segurança para atender ao meu estilo em qualquer situação - mas trabalho por conta própria e frequento majoritariamente lugares em que é possível cumprir essa tarefa sem grandes dificuldades.

Mas, claro, ainda ouço absurdos na rua. Ainda recebo - talvez mais hoje, com essa segurança - olhares tortíssimos de homens e mulheres, opressão disfarçada de elogios, comentários irônicos que tentam me colocar em um lugar de quem não se encaixa. E tudo isso conspira para que eu me curve, o tempo todo, até me enquadrar, não apenas na contenção do meu próprio corpo como na correção dos meus "defeitos" em busca de uma "perfeição" física absolutamente delirante.

É um gasto de energia grande resistir a esse movimento todos os dias, quando não é, também, humilhante e enfurecedor. Essa energia que é desperdiçada e que nos impede de fluir de acordo com nossos ritmos naturais, nossos ciclos, nossos desejos, nossa capacidade criativa, nossa força. E é por isso que, em meu mundo ideal, seria possível que todas as mulheres fossem livres, e nessa liberdade cabe necessariamente uma relação prazerosa e aberta com nossos próprios corpos. A curva que nos impelem a fazer quando nos contemos é a mesma que nos oprime há tantos anos, que nos nega espaço e respeito, que nos violenta e aponta o dedo, que nos diz como e onde devemos fazer o que e com quem, que tenta dar conta da nossa integralidade em sentenças prontas, palavras duras e aprisionamentos tão terrivelmente disfarçados, muitas vezes, de bons conselhos.

Essa não é a curva que a natureza nos deu. E eu desejo um mundo em que possamos sorrir em vez de nos curvar desse jeito, e fazer as coisas ao nosso modo. Eu escolho a descoberta e o exercício da beleza como forma de luta. A beleza real, aquela que compõe o que verdadeiramente somos e que pode dar pistas, para o mundo de fora, sobre o que existe dentro de nós.