OPINIÃO

A quem beneficia a resistência na Cracolândia?

Enquanto os resistentes voltam para casa, pra tomar banho quente e deitar num colchão macio, os usuários de crack seguem na merda e peneirando lixo.

29/05/2017 17:13 -03 | Atualizado 29/05/2017 18:33 -03
Paulo Whitaker / Reuters
PM faz operação na Cracolândia de São Paulo.

Resistir não é crime e a ação na Cracolândia tocada pela Prefeitura de São Paulo e a Polícia Militar há exatamente uma semana tem, sim, diversos buracos. "Desastre" para uns, "inconsequente" para outros ou até "puro acerto" para terceiros, a ação falhou quando João Doria, Geraldo Alckmin e seus secretários encheram os pulmões para decretar "o fim" do mercado da droga. Faltou combinar com os 1.800 usuários.

Somam-se a isso episódios de clara repressão (e opressão) policial, e a surreal derrubada de casas com pessoas dentro, flagrada pelas câmeras de TV e denunciada por usuários e integrantes de ONGs presentes no local.

A consequência mais visível da ineficaz operação foi a multiplicação das cracolândias pela cidade. Mais de 20.

Há, porém, um terceiro lado nessa história: um jogo apolítico no discurso, mas onde posicionamentos bem definidos de ambos os lados maquiam a manobra dos pobres dependentes, acirrando o conflito e aprofundando a divisão, em vez de apresentar soluções minimamente condizentes com a realidade.

É verdade que espanar os usuários como pombas para deixar meia dúzia de ruas limpas e policiadas é errado e não resolve a questão. Reprimir com violência é fatal. Internar compulsoriamente, na visão dos resistentes, também não pode.

O que pode, então?

Quais soluções os jovens perfumados e de cabelos limpos que ocupam prédios e saem em passeatas televisadas junto a esses pobres miseráveis consumidos pelo crack têm apresentado? Grafite? Tambores? Fotos e vídeos descolados? Cartazes com palavras de ordem? Empoderamento via hashtag #somostodosusuários?

O grupo de maior relevância nessa onda, o Movimento A Craco Resiste, traz no logo dois cachimbos cruzados. Isto significa o que exatamente? Uma abordagem humanitária para deixar tudo como está, a Cracolândia não pode acabar?

"Defendemos uma política que leve em consideração os desejos e necessidades de cada um, reduzindo os danos do uso abusivo de drogas. Porém, antes de qualquer medida, é necessário o respeito ao direito básico de existir sem ser agredido. Só assim é possível estabelecer os vínculos e estabelecer uma relação de cuidado com as pessoas", escreve o movimento em seu manifesto.

Mas para além da abordagem humanitária, que cuidados são esses? Quais desejos essas pessoas têm, senão fumar a pedra mais próxima? Polícia e o Estado devem deixar rolar e que os dependentes se afundem, então? Temos mesmo de manter as mesmas técnicas ineficazes dos últimos 20 anos?

Seguir permitindo que meninas de 12, 13 anos engravidem de qualquer um após estupros e ameaças de traficantes? Que mães e pais abandonem seus filhos para zanzar como zumbis pelo centro de São Paulo, dividindo restos com ratos e baratas?

E a prefeitura, por sua vez? O que pretende fazer com as 1.800 vidas que perambulam sem horizonte no centro de São Paulo? Qual contrapartida receberão os donos de imóveis derrubados ou lacrados? Quem morava e trabalhava ali vai para aonde e viver do quê?

Tristes tempos.

Nunca é demais lembrar a quem se esqueceu: na Cracolândia, "existir" é desistir da vida.

Quem sabe quando essa onda midiática acabar e a maioria dos resistentes voltar para suas casas, tomar seu banho quente e deitar em seu colchão macio – enquanto os usuários seguem na merda e peneirando lixo –, os manifestantes pensem nas famílias destroçadas por tabela pela droga, cuja única missão de vida é a persistência para tirar seus irmãos, filhos e netos de lá. E não a resistência.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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