OPINIÃO

Como ganhamos o direito de casar: 10 lições aprendidas

26/06/2015 19:22 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Yana Paskova via Getty Images
NEW YORK, NY - JUNE 26: (L-R) Cindy Jackson, a science teacher at Grace Church High School, and her partner, Denise Niewinski, Deputy Director of LGBTQ Policy and Practice at ACS, alongside Thomas Kirdahy, producer, and his partner, Terrence McNally, playwright, embrace before New York City Mayor Bill de Blasio performs marriage and vows renewal ceremonies for each couple, respectively, in front of City Hall on June 26, 2015 in New York City. Today the U.S. Supreme Court ruled that same-sex couples have the right to marry in all 50 states. (Photo by Yana Paskova/Getty Images)

Como o mundo inteiro já sabe a essa altura, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu hoje que casais do mesmo sexo logo terão a liberdade para se casar, e seus casamentos serão respeitados em todo o país. A decisão traz felicidade para muitas famílias e uma vitória definitiva para o movimento que há décadas defende o casamento gay. Eis algumas das lições aprendidas ao longo desses anos e que podem se aplicar a outros movimentos sociais progressistas.

1. Transmita uma visão ousada e inspiradora.

Identifique uma visão - o que você realmente quer conquistar - e a comunique desde o princípio, com frequência. A possibilidade aspiracional de poder se casar levou centenas de milhares de pessoas comuns defender a ideia - algo que não seria possível com um objetivo diluído, como uniões civis. Meias medidas são parte do nosso sistema político, mas aceitar incrementos não quer dizer que vamos abrir mão do verdadeiro objetivo nem deixar de lembrar os políticos e as pessoas da importância do tema. Muito menos aceitaremos nada que não o objetivo final.

2. Tenha uma estratégia ampla.

Estratégia significa foco e estrutura, e ela é crucial quando as coisas ficam difíceis. Quando Evan Wolfson embarcou na campanha do reconhecimento nacional do casamento, ele tinha um plano que incluía uma decisão da Suprema Corte. Mas para chegar lá ele sabia - baseado nas lições históricas - que precisaríamos acumular vitórias em uma massa crítica de Estados e contar com o apoio da opinião pública. Essa estratégia foi batizada de "Mapa da Vitória". Ela oferecia uma abordagem simples (não fácil, simples!) que seria útil quando as coisas ficassem difíceis e quando fôssemos questionados sobre o caminho que estávamos tomando.

3. Concentre-se em valores e emoções.

Em um tema como o casamento, tão fundamentalmente importante para tanta gente, é essencial tocar nos valores fundamentais das pessoas na hora de apresentar seus argumentos. Mostramos para os héteros dos Estados Unidos por que os casais de mesmo sexo querem se casar - por amor profundo e compromisso (a mesma razão deles!). Assim, os ajudamos a enxergar que apoiar o casamento de pessoas do mesmo sexo está em sintonia com a Regra de Ouro - trate os outros como gostaria de ser tratado - e com a liberdade - o direito de viver a vida como quiser, desde que isso não prejudique outras pessoas. Tocar nesses valores foi um antídoto poderoso contra a campanha do medo empregada pelos nossos adversários (a ideia de que o casamento gay prejudicaria as crianças, por exemplo). Um dos erros que cometemos foi nos concentrar em mensagens que iam bem nas pesquisas, mas não tinham ressonância emocional.

4. Vá ao encontro das pessoas.

Para fazer mudanças duradouras nos Estados Unidos, é crucial apresentar seus argumentos - e dar tempo - para as pessoas divididas. Em relação ao casamento, sabíamos que basicamente todo mundo cresceu numa sociedade em que casamento era entre homens e mulheres. Em relação à fé, elas aprenderam que a homossexualidade era errada. Muitas pessoas de bem estavam divididas. Pedíamos que elas encarassem essa jornada conosco, desafiando convicções sobre casamento, família e religião. Isso exigiu envolvimento. Não deixar perguntas sem resposta. Atacar as preocupações de frente. Para levá-los ao "sim", tivemos de incentivar as pessoas a abrir a cabeça e o coração, a ouvir, a perguntar e a reconsiderar. Isso significa começar cedo e manter o curso, apresentando os argumentos de várias maneiras. Uma mudança desse tamanho é muito menos provável se você simplesmente desconsiderar ou chamar de intolerante aqueles que não estão do seu lado.

5. Encontre os mensageiros certos.

Tão importante quanto o conteúdo da mensagem e quem a entrega e como ela é entregue. A audiência-alvo - americanos divididos - tem de confiar no mensageiro e se identificar com ele. Casais do mesmo sexo que apresentaram para amigos, familiares, vizinhos os argumentos sobre a importância do casamento foram cruciais. Pelas ondas do ar, porém, os pais foram os mensageiros mais eficazes. Eles falaram da luta para aceitar a sexualidade de seus filhos e como gostariam que eles tivessem acesso a tudo que eles, os pais, tiveram, incluindo o direito ao casamento. Os héteros se identificavam e tinham empatia por essa mensagem. Defensores inesperados, como republicanos, militares e o clero, foram especialmente eficazes ao explicar como suas crenças profundas - de liberdade, fé e serviço ao país - estavam completamente alinhadas com a liberdade para se casar.

6. Crie campanhas estaduais feitas para vencer.

Vencer no nível estadual exige um gestor de campanha coordenando uma campanha profissional, com organizadores de campo, profissionais de comunicação e lobistas, todos se reportando ao gestor e a um conselho. É fundamental levantar recursos suficientes para implementar a campanha. E a campanha precisa estar à altura do desafio. Por exemplo, quando tivemos de lutar contra a rejeição da lei de liberdade de casamento em New Hampshire, onde a legislatura estadual era 80% republicana, montamos uma campanha cheia de operadores republicanos e líderes empresariais.

7. Invista pesadamente na organização comunitária.

Inspirar e mobilizar apoiadores - e alistá-los para persuadir os indecisos - exige uma campanha de organização robusta. Em questões difíceis, é muito comum que os ativistas achem que podem vencer com lobistas de alto calibre ou com anúncios de TV. Não é o caso. Deputados e cidadãos são persuadidos quando ouvem as populações locais - cidadãos comuns, casais do mesmo sexo e líderes influentes de suas próprias comunidades. Em relação ao casamento, é especialmente crucial mostrar que estamos falando de casais do mesmo sexo que vivem naquela comunidade, não "do pessoal da cidade grande".

8. Aceite essa realidade política: políticos estão mais preocupados com reeleição do que com qualquer outra coisa.

A prioridade número um para a vasta maioria dos políticos em cargos eletivos é manter-se no emprego. Ou seja: se o político acha que vai perder o mandato porque apoiou sua casa, você vai perder. O envolvimento eleitoral precisa ser implacável. Antes de tudo, isso significa ajudar a garantir a reeleição de deputados e senadores que votam a seu favor. Em Massachusetts, primeiro Estado a permitir o casamento gay, reelegemos todos os deputados que votaram a nosso favor - 195 de 195 em 2004 e 2006 - apesar de um esforço concertado do governador Mitt Romney e de conservadores para que isso não acontecesse. Não existe melhor maneira de mostrar para os legisladores que você é sério que derrotar os que votaram contra a sua causa. Isso significa entender quem é vulnerável, encontrar candidatos de qualidade e usar técnicas eleitorais consagradas para derrotá-los. O Fight Back New York, grupo de apoio político formado em 2010 por defensores da igualdade, fez justamente isso: derrotou três candidatos que votaram contra o casamento gay e mudou completamente o equilíbrio de forças no Estado de Nova York.

9. Leve a sério as conversas com a oposição.

No clima político terrivelmente dividido de hoje, é fundamental ter uma causa bipartidária para obter vitórias importantes. Causas originalmente liberais ou progressistas precisam de vozes republicanas. Isso significa anos de foco sério e dedicado, demonstrando para os republicanos simpáticos à sua causa que você está atento às preocupações deles. Ter um senador Rob Portman, uma Laura Bush ou um Dick Cheney falando a favor do casamento valeu a pena, pois mudou o centro de gravidade política da causa.

10. Tome impulso diariamente.

Causas andam para frente ou para trás. Como diretor nacional de campanhas da Freedom to Marry, eu tinha de saber como ganhar impulso todos os dias. Isso significou ser criativo e ágil, identificando oportunidades e criando uma narrativa para a mídia de que a campanha era bem-sucedida. Seja conseguindo o apoio de uma grande empresa ou de um deputado republicano, amplificando uma nova pesquisa de opinião, focando a atenção nas vitórias judiciais ou fazendo anúncios na TV: conectar essas conquistas demonstra que você está fazendo progresso. Um elemento especialmente crucial é transmitir otimismo - mesmo diante de derrotas, lembrando a base e a mídia que somos capazes - e realçar as vitórias - pequenas, médias ou grandes. Isso demonstra que a campanha está no caminho certo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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